A sala que guarda a memória do metrô

Dados: quem guarda os registros com cuidado, e lê nos números o que ninguém viu acontecer

Uma sala de arquivo do metrô, com estantes altas cheias de caixas e livros de registro. Numa mesa, um livro de registro grande está aberto, com colunas de anotações, e sobre a página há uma lupa de cabo. A lupa é desenhada em verde, o único elemento colorido da imagem. Na mesma mesa há uma calculadora e uma caneca. Numa segunda mesa, ao fundo, há um computador com um gráfico de linha subindo na tela, e uma cadeira de escritório vazia. Na parede, ao lado da estante, um mapa simples de linhas de metrô. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.Uma sala de arquivo do metrô, com estantes altas cheias de caixas e livros de registro. Numa mesa, um livro de registro grande está aberto, com colunas de anotações, e sobre a página há uma lupa de cabo. A lupa é desenhada em verde, o único elemento colorido da imagem. Na mesma mesa há uma calculadora e uma caneca. Numa segunda mesa, ao fundo, há um computador com um gráfico de linha subindo na tela, e uma cadeira de escritório vazia. Na parede, ao lado da estante, um mapa simples de linhas de metrô. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.
O número subiu quarenta por cento. A lupa achou a entrada que, na hora da fila grande, contava o mesmo passageiro duas vezes.

O capítulo do túnel terminou com a linha nova chegando ao centro sem fechar a estação. A decisão de levar mais trens para cada bairro começa numa sala longe dos trilhos, cheia de registros, e este capítulo entra nessa sala.

Você ouve dizer que dado é o bem mais valioso das empresas, e imagina gente fazendo gráfico bonito. Quase ninguém fala da parte do trabalho que vem antes do gráfico, a de garantir que o número está certo.

Trabalhar com dados é fazer gráfico bonito.
Se o número está no sistema, o número está certo.
Quanto mais dado a empresa guarda, melhor.
Os números falam por si.

Um número só serve para decidir quando alguém cuidou dele antes de alguém ler.

A sala da memória

Na sala da imagem que abre este capítulo, estantes altas guardam caixas e livros de registro. Sobre a mesa, um livro de registro está aberto, e em cima da página fica uma lupa, em verde. Numa mesa ao fundo, um computador mostra um gráfico de linha. Perto do livro ficam uma calculadora e uma caneca, e na parede está pendurado o mapa das linhas.

O Osvaldo trabalha há dezessete anos nessa sala do mesmo metrô. A equipe do Osvaldo tem quatro pessoas e guarda a memória do metrô: quantas pessoas passaram por cada entrada, a hora exata em que cada trem chegou e partiu, o ponto de cada funcionário e as revisões de cada vagão.

Os registros precisam estar inteiros e certos, para que alguém consiga responder qualquer pergunta sobre o metrô, anos depois.

Na sala ao lado, outra parte da equipe lê os números. Dos gráficos de entrada e saída saem as histórias que ninguém viu acontecer: a estação que cresce rápido demais, a linha que perde movimento, o bairro que precisa de reforço.

Quarenta por cento em três meses

No relatório do mês, a estação do bairro novo aparece com quarenta por cento a mais de passagens do que três meses antes. Um número desses manda trem para um bairro e tira trem de outro. A diretoria se reúne na semana seguinte, e o número precisa estar lá.

Pare aqui um segundo e responda como se você fosse o Osvaldo. Você manda o número para a diretoria na hora, ou confere antes?

A entrada que contava duas vezes

O Osvaldo confere antes. O Osvaldo abre o livro de registro, põe a lupa nas passagens de cada entrada e vê que a entrada 3 da estação do bairro novo subiu muito mais que as outras.

O Osvaldo lembra das anotações que chegaram do guichê da Dona Neide: a entrada 3 cobrava duas vezes o mesmo cartão. Se a entrada cobrava duas vezes o mesmo cartão, a entrada também contava aquele passageiro duas vezes.

O Osvaldo tira as passagens duplicadas. O crescimento verdadeiro da estação é de trinta e um por cento, e o motivo aparece numa conversa com a prefeitura: um conjunto de quatro mil apartamentos tinha ficado pronto no bairro.

A diretoria manda reforço para a linha, com um número que dá para defender. Antes de um número virar decisão, alguém precisa conferir se o número é verdade.

O número do Osvaldo levou reforço ao bairro novo porque, antes, alguém tirou dele as passagens contadas duas vezes.

As visitas que também dobraram

Na empresa de ingressos, a Cida é analista de dados, que em inglês se chama data analyst. Trabalhar com dados é guardar os registros com cuidado e ler, nos números, o que ninguém viu acontecer.

Quem cuida da parte de guardar e de levar os registros de um sistema para outro costuma ser chamado de engenheiro de dados (data engineer), e quem lê os números para responder perguntas costuma ser chamado de analista de dados.

Depois da venda, o painel mostra que as visitas da página do show dobraram em relação à venda anterior. O marketing quer comemorar. A Cida pergunta à Sueli como a fila virtual conta as visitas, e descobre que a fila contava cada atualização da página como uma visita nova.

A fila virtual era a entrada 3 da empresa de ingressos. Contando cada pessoa uma vez só, as visitas subiram vinte e dois por cento.

A Cida também encontra o número que a Zuleica precisava: um em cada quatro compradores que desistiram no pagamento estava comprando ingresso de mais de quatrocentos reais. Esse número pôs o parcelamento na fila do mês seguinte.

O que a ferramenta lê

A Cida usa a inteligência artificial para ler uma planilha de cem mil linhas, e a ferramenta entrega o gráfico em segundos, poupando à Cida horas de trabalho repetido. O gráfico sai igualmente bonito com o número certo e com o número errado, porque a ferramenta desenha o número que recebe.

O gráfico feito com o número errado convence tanto quanto o gráfico certo, e a lupa continua na mão de quem sabe onde o número nasceu, como a Cida, que perguntou à Sueli como a fila contava, e o Osvaldo, que se lembrou do guichê.

A ferramenta desenha o gráfico em segundos, e a lupa continua na mão de quem conhece a entrada 3.

Como saber se a sala da memória combina com você

Se você pensa em trabalhar com dados

Quatro perguntas para saber se a sala dos números é o seu lugar

As quatro perguntas cabem numa conversa de café, e mostram se você tem o jeito de olhar que a área de dados pede.

1. Você desconfia de um número bom demais?

O Osvaldo recebeu quarenta por cento em três meses, e a Cida recebeu visitas em dobro. Quem trabalha com dados olha o número bom com a mesma desconfiança do número ruim.

2. Você gosta de descobrir onde um número nasceu?

O Osvaldo foi até a entrada 3, e a Cida foi até a fila virtual. O trabalho com dados quase sempre leva quem confere para fora da planilha.

3. Você conta a história do número para quem não lê planilha?

A diretoria não precisava das colunas do Osvaldo. A diretoria precisava saber que quatro mil apartamentos tinham ficado prontos.

4. Você aguenta dizer “ainda não sei” antes de conferir?

A Cida segurou a comemoração do marketing por um dia. Na área de dados, o “ainda não sei” vem antes do número certo.

Na sala da memória, o número que chega rápido demais é o primeiro a ser conferido.

prática

Levar para a entrevista

Três perguntas que mostram se você entende o trabalho de quem cuida dos números.
abrir

Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: falar das ferramentas de gráfico e de planilha que você conhece. Só que nenhuma das três perguntas está medindo quantas ferramentas você usa. As três estão medindo se você confere o número antes de acreditar nele, como o Osvaldo com a entrada 3.

“Um número do relatório mudou muito de um mês para o outro. O que você faz?”

A pergunta parece de rotina, e é sobre conferir o número antes de levar o número adiante.

O que quem entrevista quer ouvir
  • Que você confere antes de levar o número adiante
  • Que você separa o número em partes para achar a diferença
  • Que você procura o motivo fora da planilha
O que derruba
  • Levar o número direto para quem decide
  • Achar que o sistema não erra
  • Explicar o número sem ter conferido
Boa resposta

“Na loja de material de construção onde eu cuidava do estoque, as vendas de cimento dobraram num mês. Conferi as notas antes de fazer o pedido, e um vendedor tinha lançado uma venda grande duas vezes. Sem a venda repetida, o cimento subiu dez por cento, por causa de uma obra no bairro. Pedi dez por cento a mais.”

Resposta ruim

“Eu aviso a diretoria que as vendas dobraram.”

A resposta entrega o número sem conferir, e a loja compra o dobro de cimento para uma venda que não existiu.

“O que você faz quando o número mostra uma coisa que o chefe não quer ouvir?”

Esta pergunta mede se você mostra o número inteiro, inclusive a parte que incomoda.

Boa direção
  • Mostrar o número com as datas, sem opinião
  • Dizer o que o número permite concluir, e o que não permite
  • Propor o próximo passo junto
Direção ruim
  • Ajustar a apresentação para não chatear ninguém
  • Esconder o número que contraria
  • Transformar o número em ataque a quem decidiu
Boa resposta

“Na academia onde trabalhei, o dono achava que a aula nova de dança era um sucesso. Contei as presenças de três meses: a turma começou com trinta pessoas e caiu para oito. Mostrei a contagem com as datas, sem opinião. O dono mudou o horário da aula, e a turma voltou para vinte.”

Resposta ruim

“Eu ajusto a apresentação para não chatear ninguém.”

O número ajustado poupa a reunião e entrega uma decisão errada, que alguém vai pagar depois.

“Que dado você pediria para decidir onde abrir uma loja nova?”

A pergunta procura saber se você escolhe o dado que responde à pergunta, ou pede todos os dados que existem.

O avaliador técnico quer ver
  • Que você liga o dado à pergunta
  • Que você coleta o dado quando ele não existe
  • Que você desconfia do dado mais fácil de achar
O avaliador de pessoas quer ver
  • Que você conversa com quem conhece o lugar
  • Que você conta a conclusão em palavras simples
  • Que você admite o que o dado não responde
Boa resposta

“Ajudei meu tio a decidir onde abrir a segunda padaria. Em vez de olhar só a população dos bairros, a gente contou, em duas manhãs, quantas pessoas passavam na frente de cada loja para alugar, entre as seis e as oito. O bairro menor tinha o dobro de gente passando, porque ficava perto do ponto de ônibus. A padaria abriu ali.”

Resposta ruim

“Eu pediria todos os dados que existirem.”

Todos os dados que existem quase nunca incluem o que importa. Ninguém tinha contado as pessoas na frente das lojas para alugar até alguém ir lá contar.

prática

Levar para o trabalho

Três situações do dia a dia de quem trabalha com dados.
abrir

Um número bom demais chegou na véspera de uma reunião

Essa situação é a do Osvaldo com a entrada 3, só que com a reunião marcada para o dia seguinte. O erro comum é levar o número porque todo mundo quer comemorar, e descobrir o defeito depois da decisão.

Esperam de você
  • Que você diga que ainda não confia no número
  • Que você pergunte a quem gera o dado como ele é contado
  • Que você leve o número conferido, mesmo que menor
Não esperam de você
  • Que você leve o número só porque é bom
  • Que você esconda o número até ter certeza absoluta
  • Que você estrague a reunião sem trazer o número certo
O que dizer

“As visitas da página da venda dobraram, e eu ainda não confio nesse número. A fila virtual pode estar contando cada atualização da página como uma visita nova. Sueli, você consegue me dizer como a fila conta as visitas? Até a reunião eu trago o número conferido.”

A fala segura a comemoração sem apagar a boa notícia, e diz quando o número certo chega.

A diretoria pediu um gráfico para provar uma decisão que já tomou

Essa situação é mais comum do que parece. O erro comum é escolher só os números que confirmam a decisão, e deixar de fora os que contrariam.

Esperam de você
  • Que você faça o gráfico com todos os números que importam
  • Que você avise antes se os números disserem outra coisa
  • Que você separe o que o número mostra do que é opinião
Não esperam de você
  • Que você recuse o pedido
  • Que você escolha só os números que confirmam
  • Que você surpreenda quem pediu no meio da reunião
O que dizer

Para quem pediu, da diretoria: “Faço o gráfico, sim. Vou mostrar o que os números dizem, inclusive se disserem outra coisa. Se o programa de pontos não aparecer nos números como vocês esperam, eu conto antes da reunião, e a gente decide junto como apresentar.”

A fala protege o número e protege quem pediu, que não vai ser surpreendido na frente de todo mundo.

O dado de que você precisa não está guardado em lugar nenhum

Essa situação acontece quando a pergunta é nova. O erro comum é desistir da pergunta, ou guardar tudo sobre todo mundo para o caso de precisar.

Esperam de você
  • Que você diga exatamente qual dado falta
  • Que você peça para guardar só esse dado, sem nome quando der
  • Que você confira com a proteção de dados antes
Não esperam de você
  • Que você desista da pergunta
  • Que você peça para guardar tudo
  • Que você monte a coleta sem falar com ninguém
O que dizer

“Para saber quanto tempo as pessoas esperam na fila virtual antes de desistir, a gente precisa guardar a hora em que cada pessoa entra e sai da fila, sem o nome da pessoa. Hoje esse dado não existe. Nilton, guardar só as duas horas, sem nome, está dentro do que a gente pode guardar?”

O dado mais útil da sala da memória é o que alguém lembrou de guardar, com motivo, antes de precisar.

O que muda daqui em diante

Dados
Antes
Gráfico bonito
Agora
Registros bem cuidados, e a leitura do que eles mostram
O número do sistema
Antes
A verdade
Agora
Um número que alguém precisa conferir
O número bom demais
Antes
Motivo para comemorar
Agora
O primeiro número a passar pela lupa
Guardar tudo
Antes
Mais dados, mais respostas
Agora
Guardar o que tem motivo, sem nome quando o nome não importa

A lupa do Osvaldo achou na entrada 3 o que o gráfico mais bonito do mundo teria escondido.