A sala que guarda a memória do metrô
Dados: quem guarda os registros com cuidado, e lê nos números o que ninguém viu acontecer


O capítulo do túnel terminou com a linha nova chegando ao centro sem fechar a estação. A decisão de levar mais trens para cada bairro começa numa sala longe dos trilhos, cheia de registros, e este capítulo entra nessa sala.
Você ouve dizer que dado é o bem mais valioso das empresas, e imagina gente fazendo gráfico bonito. Quase ninguém fala da parte do trabalho que vem antes do gráfico, a de garantir que o número está certo.
Um número só serve para decidir quando alguém cuidou dele antes de alguém ler.
A sala da memória
Na sala da imagem que abre este capítulo, estantes altas guardam caixas e livros de registro. Sobre a mesa, um livro de registro está aberto, e em cima da página fica uma lupa, em verde. Numa mesa ao fundo, um computador mostra um gráfico de linha. Perto do livro ficam uma calculadora e uma caneca, e na parede está pendurado o mapa das linhas.
O Osvaldo trabalha há dezessete anos nessa sala do mesmo metrô. A equipe do Osvaldo tem quatro pessoas e guarda a memória do metrô: quantas pessoas passaram por cada entrada, a hora exata em que cada trem chegou e partiu, o ponto de cada funcionário e as revisões de cada vagão.
Os registros precisam estar inteiros e certos, para que alguém consiga responder qualquer pergunta sobre o metrô, anos depois.
Na sala ao lado, outra parte da equipe lê os números. Dos gráficos de entrada e saída saem as histórias que ninguém viu acontecer: a estação que cresce rápido demais, a linha que perde movimento, o bairro que precisa de reforço.
Quarenta por cento em três meses
No relatório do mês, a estação do bairro novo aparece com quarenta por cento a mais de passagens do que três meses antes. Um número desses manda trem para um bairro e tira trem de outro. A diretoria se reúne na semana seguinte, e o número precisa estar lá.
Pare aqui um segundo e responda como se você fosse o Osvaldo. Você manda o número para a diretoria na hora, ou confere antes?
A entrada que contava duas vezes
O Osvaldo confere antes. O Osvaldo abre o livro de registro, põe a lupa nas passagens de cada entrada e vê que a entrada 3 da estação do bairro novo subiu muito mais que as outras.
O Osvaldo lembra das anotações que chegaram do guichê da Dona Neide: a entrada 3 cobrava duas vezes o mesmo cartão. Se a entrada cobrava duas vezes o mesmo cartão, a entrada também contava aquele passageiro duas vezes.
O Osvaldo tira as passagens duplicadas. O crescimento verdadeiro da estação é de trinta e um por cento, e o motivo aparece numa conversa com a prefeitura: um conjunto de quatro mil apartamentos tinha ficado pronto no bairro.
A diretoria manda reforço para a linha, com um número que dá para defender. Antes de um número virar decisão, alguém precisa conferir se o número é verdade.
O número do Osvaldo levou reforço ao bairro novo porque, antes, alguém tirou dele as passagens contadas duas vezes.
As visitas que também dobraram
Na empresa de ingressos, a Cida é analista de dados, que em inglês se chama data analyst. Trabalhar com dados é guardar os registros com cuidado e ler, nos números, o que ninguém viu acontecer.
Quem cuida da parte de guardar e de levar os registros de um sistema para outro costuma ser chamado de engenheiro de dados (data engineer), e quem lê os números para responder perguntas costuma ser chamado de analista de dados.
Depois da venda, o painel mostra que as visitas da página do show dobraram em relação à venda anterior. O marketing quer comemorar. A Cida pergunta à Sueli como a fila virtual conta as visitas, e descobre que a fila contava cada atualização da página como uma visita nova.
A fila virtual era a entrada 3 da empresa de ingressos. Contando cada pessoa uma vez só, as visitas subiram vinte e dois por cento.
A Cida também encontra o número que a Zuleica precisava: um em cada quatro compradores que desistiram no pagamento estava comprando ingresso de mais de quatrocentos reais. Esse número pôs o parcelamento na fila do mês seguinte.
O que a ferramenta lê
A Cida usa a inteligência artificial para ler uma planilha de cem mil linhas, e a ferramenta entrega o gráfico em segundos, poupando à Cida horas de trabalho repetido. O gráfico sai igualmente bonito com o número certo e com o número errado, porque a ferramenta desenha o número que recebe.
O gráfico feito com o número errado convence tanto quanto o gráfico certo, e a lupa continua na mão de quem sabe onde o número nasceu, como a Cida, que perguntou à Sueli como a fila contava, e o Osvaldo, que se lembrou do guichê.
A ferramenta desenha o gráfico em segundos, e a lupa continua na mão de quem conhece a entrada 3.
Como saber se a sala da memória combina com você
Quatro perguntas para saber se a sala dos números é o seu lugar
As quatro perguntas cabem numa conversa de café, e mostram se você tem o jeito de olhar que a área de dados pede.
O Osvaldo recebeu quarenta por cento em três meses, e a Cida recebeu visitas em dobro. Quem trabalha com dados olha o número bom com a mesma desconfiança do número ruim.
O Osvaldo foi até a entrada 3, e a Cida foi até a fila virtual. O trabalho com dados quase sempre leva quem confere para fora da planilha.
A diretoria não precisava das colunas do Osvaldo. A diretoria precisava saber que quatro mil apartamentos tinham ficado prontos.
A Cida segurou a comemoração do marketing por um dia. Na área de dados, o “ainda não sei” vem antes do número certo.
Na sala da memória, o número que chega rápido demais é o primeiro a ser conferido.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas que mostram se você entende o trabalho de quem cuida dos números.abrir
Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: falar das ferramentas de gráfico e de planilha que você conhece. Só que nenhuma das três perguntas está medindo quantas ferramentas você usa. As três estão medindo se você confere o número antes de acreditar nele, como o Osvaldo com a entrada 3.
“Um número do relatório mudou muito de um mês para o outro. O que você faz?”
A pergunta parece de rotina, e é sobre conferir o número antes de levar o número adiante.
- Que você confere antes de levar o número adiante
- Que você separa o número em partes para achar a diferença
- Que você procura o motivo fora da planilha
- Levar o número direto para quem decide
- Achar que o sistema não erra
- Explicar o número sem ter conferido
“Na loja de material de construção onde eu cuidava do estoque, as vendas de cimento dobraram num mês. Conferi as notas antes de fazer o pedido, e um vendedor tinha lançado uma venda grande duas vezes. Sem a venda repetida, o cimento subiu dez por cento, por causa de uma obra no bairro. Pedi dez por cento a mais.”
“Eu aviso a diretoria que as vendas dobraram.”
A resposta entrega o número sem conferir, e a loja compra o dobro de cimento para uma venda que não existiu.
“O que você faz quando o número mostra uma coisa que o chefe não quer ouvir?”
Esta pergunta mede se você mostra o número inteiro, inclusive a parte que incomoda.
- Mostrar o número com as datas, sem opinião
- Dizer o que o número permite concluir, e o que não permite
- Propor o próximo passo junto
- Ajustar a apresentação para não chatear ninguém
- Esconder o número que contraria
- Transformar o número em ataque a quem decidiu
“Na academia onde trabalhei, o dono achava que a aula nova de dança era um sucesso. Contei as presenças de três meses: a turma começou com trinta pessoas e caiu para oito. Mostrei a contagem com as datas, sem opinião. O dono mudou o horário da aula, e a turma voltou para vinte.”
“Eu ajusto a apresentação para não chatear ninguém.”
O número ajustado poupa a reunião e entrega uma decisão errada, que alguém vai pagar depois.
“Que dado você pediria para decidir onde abrir uma loja nova?”
A pergunta procura saber se você escolhe o dado que responde à pergunta, ou pede todos os dados que existem.
- Que você liga o dado à pergunta
- Que você coleta o dado quando ele não existe
- Que você desconfia do dado mais fácil de achar
- Que você conversa com quem conhece o lugar
- Que você conta a conclusão em palavras simples
- Que você admite o que o dado não responde
“Ajudei meu tio a decidir onde abrir a segunda padaria. Em vez de olhar só a população dos bairros, a gente contou, em duas manhãs, quantas pessoas passavam na frente de cada loja para alugar, entre as seis e as oito. O bairro menor tinha o dobro de gente passando, porque ficava perto do ponto de ônibus. A padaria abriu ali.”
“Eu pediria todos os dados que existirem.”
Todos os dados que existem quase nunca incluem o que importa. Ninguém tinha contado as pessoas na frente das lojas para alugar até alguém ir lá contar.
práticaLevar para o trabalho
Três situações do dia a dia de quem trabalha com dados.abrir
Um número bom demais chegou na véspera de uma reunião
Essa situação é a do Osvaldo com a entrada 3, só que com a reunião marcada para o dia seguinte. O erro comum é levar o número porque todo mundo quer comemorar, e descobrir o defeito depois da decisão.
- Que você diga que ainda não confia no número
- Que você pergunte a quem gera o dado como ele é contado
- Que você leve o número conferido, mesmo que menor
- Que você leve o número só porque é bom
- Que você esconda o número até ter certeza absoluta
- Que você estrague a reunião sem trazer o número certo
“As visitas da página da venda dobraram, e eu ainda não confio nesse número. A fila virtual pode estar contando cada atualização da página como uma visita nova. Sueli, você consegue me dizer como a fila conta as visitas? Até a reunião eu trago o número conferido.”
A fala segura a comemoração sem apagar a boa notícia, e diz quando o número certo chega.
A diretoria pediu um gráfico para provar uma decisão que já tomou
Essa situação é mais comum do que parece. O erro comum é escolher só os números que confirmam a decisão, e deixar de fora os que contrariam.
- Que você faça o gráfico com todos os números que importam
- Que você avise antes se os números disserem outra coisa
- Que você separe o que o número mostra do que é opinião
- Que você recuse o pedido
- Que você escolha só os números que confirmam
- Que você surpreenda quem pediu no meio da reunião
Para quem pediu, da diretoria: “Faço o gráfico, sim. Vou mostrar o que os números dizem, inclusive se disserem outra coisa. Se o programa de pontos não aparecer nos números como vocês esperam, eu conto antes da reunião, e a gente decide junto como apresentar.”
A fala protege o número e protege quem pediu, que não vai ser surpreendido na frente de todo mundo.
O dado de que você precisa não está guardado em lugar nenhum
Essa situação acontece quando a pergunta é nova. O erro comum é desistir da pergunta, ou guardar tudo sobre todo mundo para o caso de precisar.
- Que você diga exatamente qual dado falta
- Que você peça para guardar só esse dado, sem nome quando der
- Que você confira com a proteção de dados antes
- Que você desista da pergunta
- Que você peça para guardar tudo
- Que você monte a coleta sem falar com ninguém
“Para saber quanto tempo as pessoas esperam na fila virtual antes de desistir, a gente precisa guardar a hora em que cada pessoa entra e sai da fila, sem o nome da pessoa. Hoje esse dado não existe. Nilton, guardar só as duas horas, sem nome, está dentro do que a gente pode guardar?”
O dado mais útil da sala da memória é o que alguém lembrou de guardar, com motivo, antes de precisar.
O que muda daqui em diante
A lupa do Osvaldo achou na entrada 3 o que o gráfico mais bonito do mundo teria escondido.