Três pedidos e um trem a mais

Gestão de produto: quem decide o que vale construir primeiro, entre pedidos que não cabem todos

A mesa do gestor de uma linha de metrô, vista de cima, um pouco inclinada. Na parede atrás da mesa, o desenho da linha, com ramais e as estações marcadas por bolinhas. Sobre a mesa, três pastas abertas, uma ao lado da outra. As pastas das pontas têm papéis, e a pasta do meio tem uma tabela de horários impressa, com um trenzinho de madeira de brinquedo em cima. O trenzinho é desenhado em verde, o único elemento colorido da imagem. Na mesa também há um vaso de planta, um relógio de mesa, uma calculadora e uma caneca. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.A mesa do gestor de uma linha de metrô, vista de cima, um pouco inclinada. Na parede atrás da mesa, o desenho da linha, com ramais e as estações marcadas por bolinhas. Sobre a mesa, três pastas abertas, uma ao lado da outra. As pastas das pontas têm papéis, e a pasta do meio tem uma tabela de horários impressa, com um trenzinho de madeira de brinquedo em cima. O trenzinho é desenhado em verde, o único elemento colorido da imagem. Na mesa também há um vaso de planta, um relógio de mesa, uma calculadora e uma caneca. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.
Havia dinheiro para um trem a mais e três pedidos esperando. Escolher o horário do trem foi escolher quem esperava.

O capítulo do guichê terminou com o caderno da Dona Neide transformando sete reclamações num leitor de cartão consertado. Nem toda anotação vira conserto no dia seguinte, porque os pedidos são muitos e o dinheiro é um só, e este capítulo sobe ao andar onde alguém decide o que vem primeiro.

Você vê um aplicativo deixar de lado justamente a função que você queria, e conclui que a empresa não ouve o cliente. Do outro lado, alguém ouviu dez pedidos e só conseguia atender um.

Quem decide o que entra no sistema é o chefe, pelo gosto dele.
Se o cliente pediu, a empresa tem de fazer.
Gerente de produto só faz reunião e planilha.
O justo é fazer um pouco de cada pedido, para ninguém ficar sem nada.

Escolher o que fazer primeiro é escolher, também, o que vai esperar.

A linha da universidade

Na mesa da imagem que abre este capítulo há três pastas abertas lado a lado, e na pasta do meio, sobre uma tabela de horários, fica um trenzinho de madeira, em verde. Na parede atrás da mesa fica o desenho da linha, com as estações marcadas por bolinhas. Um vaso de planta, um relógio, uma calculadora e uma caneca completam a mesa.

A mesa é do Raimundo, que cuida há seis anos da linha do mesmo metrô que vai até a universidade. A linha tem dezoito estações, e o Raimundo trabalha com duas assistentes. O Raimundo não dirige trem nem conserta trilho. O Raimundo decide o que a linha precisa: quantos trens rodam em cada horário, onde a linha aperta e o que vem primeiro quando não dá para fazer tudo.

No começo do semestre, a diretoria avisa que o orçamento dá para um trem a mais na linha, num horário só. E em cima da mesa do Raimundo estão três pedidos, um em cada pasta.

Três pastas

A primeira pasta é dos estudantes. Às sete da manhã, os trens chegam à universidade lotados, e os estudantes pedem mais um trem nesse horário.

A segunda pasta é dos trabalhadores do hospital que fica no fim da linha. O último trem sai às onze da noite, e o turno do hospital acaba às onze e meia. Quem sai do turno pega dois ônibus e leva uma hora e meia para chegar em casa.

A terceira pasta é dos dias de chuva. Quando chove, as pessoas trocam o ônibus pelo metrô, e às seis da tarde a linha atrasa e enche.

Pare aqui um segundo e responda como se você fosse o Raimundo. Qual das três pastas ganha o trem a mais?

O tamanho do problema, e não do grupo

O Raimundo pede os números antes de decidir. Às sete, os trens rodam com vinte por cento de gente acima do confortável, e os estudantes chegam apertados, e chegam. Às onze e meia, trezentos trabalhadores não têm metrô nenhum. A chuva forte acontece uns quarenta dias por ano.

O grupo das sete é o maior, e é o que mais reclama. O Raimundo dá o trem às onze e meia. Escolher bem é comparar o tamanho do problema de cada grupo, e não o tamanho do grupo que reclama mais alto.

Os trezentos trabalhadores não tinham outro jeito de chegar, e o trem das onze e meia ainda custa menos, porque roda fora do pico.

Depois, o Raimundo faz a parte que quase ninguém faz. O Raimundo vai à associação dos estudantes, mostra os números e diz quando o pedido das sete pode voltar: no semestre seguinte, se a lotação passar de trinta por cento.

O Raimundo disse não aos estudantes com o motivo e com a data, e os estudantes sabiam o que esperar.

Os três pedidos depois da venda

Na empresa de ingressos, a Zuleica é gestora de produto, cargo que muitas vagas chamam de gerente de produto e que em inglês se chama product manager. Gestão de produto (product management) é o trabalho de decidir o que vale construir primeiro, entre pedidos que não cabem todos, e de explicar essa decisão a quem pediu.

Depois da venda do show, chegam três pedidos para o time da Sueli, que tem tempo para uma coisa só naquele mês. O marketing quer o parcelamento em dez vezes. O suporte quer que o cliente consiga reenviar o ingresso sozinho pelo aplicativo. A diretoria quer um programa de pontos para clientes fiéis.

A Zuleica faz o que o Raimundo fez, e pede os números antes de decidir. O suporte recebe mil e duzentos pedidos de reenvio por mês, cada um leva seis minutos, e a mudança leva uma semana. O parcelamento deve aumentar as vendas dos shows caros, e leva três semanas. O programa de pontos ainda não tem número nenhum que mostre o ganho.

A Zuleica escolhe o reenvio, marca o parcelamento para o mês seguinte e pede à diretoria uma conversa sobre os pontos.

Quem decide também escuta

A Zuleica decidiu com os números do Beto, que faz no suporte da empresa o que a Dona Neide faz com o caderno. Quem cuida do produto depende de quem ouve o cliente, de quem mede o sistema e de quem escreve o código para saber quanto cada pedido custa.

O Raimundo também não decidiu sozinho. O número das onze e meia veio da sala que guarda os registros do metrô, e o custo do trem fora do pico veio do pátio. Quem decide sem os números das outras salas escolhe pelo grupo que grita mais.

A boa decisão de produto é feita com os números de todo o metrô.

Como saber se a mesa do Raimundo combina com você

Se você pensa em trabalhar com produto

Quatro perguntas para saber se decidir a ordem é o seu lugar

As quatro perguntas cabem num café, e mostram se você gosta do tipo de decisão que a área de produto toma.

1. Você gosta de comparar coisas que não se comparam fácil?

O Raimundo comparou lotação com falta de trem, e a Zuleica comparou reenvio de ingresso com parcelamento. O trabalho é achar uma régua comum para coisas diferentes.

2. Você consegue dizer não com o motivo, e manter a relação?

O Raimundo foi à associação dos estudantes. Quem só manda um aviso de que o pedido não entrou perde a confiança do grupo para o próximo pedido.

3. Você vai atrás do número antes de decidir?

O grupo das sete era o maior. Os números mostraram que o grupo das onze e meia tinha o problema maior.

4. Você aguenta ser cobrado por todo mundo ao mesmo tempo?

Os três grupos queriam o trem. Quem trabalha com produto passa o mês decepcionando alguém, e precisa conviver com isso.

Na gestão de produto, toda escolha deixa alguém esperando, e o trabalho é saber quem espera, e por quê.

prática

Levar para a entrevista

Três perguntas que mostram se você entende o trabalho de quem decide a ordem das coisas.
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Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: falar de método com nome bonito e de planilha de prioridade. Só que nenhuma das três perguntas está medindo quantos métodos você conhece. As três estão medindo se você compara o tamanho dos problemas e sabe explicar o não, como o Raimundo na associação dos estudantes.

“Na sua opinião, o que um gerente de produto faz?”

A pergunta parece de definição, e é sobre se você enxerga o trabalho de verdade por trás do cargo.

O que quem entrevista quer ouvir
  • Que o trabalho é decidir a ordem do que vai ser feito
  • Que a decisão usa os números das outras áreas
  • Que explicar a decisão faz parte do trabalho
O que derruba
  • Dizer que o gerente de produto manda nos programadores
  • Dizer que o gerente de produto é quem tem as ideias
  • Descrever só reunião e planilha
Boa resposta

“Vi esse trabalho como voluntária num banco de alimentos. Chegavam pedidos de oito bairros, e as doações não davam para todos. A coordenadora juntava os números de cada bairro, decidia a ordem da semana e ligava para quem ficava para depois, explicando por quê. Eu ajudava nas ligações. O trabalho de produto é decidir a ordem e explicar o não.”

Resposta ruim

“O gerente de produto é quem manda nos programadores.”

Quem cuida do produto não manda em ninguém. A resposta descreve um chefe, e a área precisa de alguém que convence com número.

“Um cliente importante pede uma função que só ele vai usar. O que você faz?”

Esta pergunta mede se você compara o pedido do cliente grande com o resto da fila.

Boa direção
  • Contar quanto o pedido custa para os outros clientes
  • Procurar um jeito de atender sem parar o resto
  • Levar a conta para quem decide o contrato
Direção ruim
  • Fazer porque o cliente é grande
  • Recusar sem fazer a conta
  • Prometer ao cliente antes de saber o custo
Boa resposta

“Na gráfica onde trabalhei, o maior cliente pediu um formato de cartão que só ele usava e que travava a máquina por meio dia. Levei a conta ao dono: o cliente pagava bem, e o meio dia parado atrasava outros doze clientes. O dono propôs um lote só por mês, e o cliente aceitou esperar.”

Resposta ruim

“Se é cliente grande, a gente faz.”

A resposta escolhe pelo tamanho de quem pede, como se o grupo das sete ganhasse o trem por ser o maior.

“Como você explicaria a um time que o pedido dele vai ficar para depois?”

A pergunta procura o Raimundo na associação dos estudantes.

O avaliador técnico quer ver
  • Que você mostra os números que decidiram
  • Que você diz quando o pedido pode voltar
  • Que você diz o que faria o pedido subir na fila
O avaliador de pessoas quer ver
  • Que você conta pessoalmente, e não só por escrito
  • Que você reconhece que o pedido é legítimo
  • Que você aguenta a frustração do time sem se defender
Boa resposta

“Na associação do meu bairro, eu cuidava das obras, com pouca verba. O grupo da horta queria um muro novo, e o dinheiro foi para o telhado, que pingava na sala das crianças. Fui à reunião da horta, mostrei o orçamento e combinei o muro para o semestre seguinte. O grupo ficou chateado, e voltou a ajudar na festa junina.”

Resposta ruim

“Eu mando um e-mail dizendo que o pedido não entrou nas prioridades.”

O e-mail diz o não e esconde o motivo, e o time descobre na próxima vez que não adianta pedir.

prática

Levar para o trabalho

Três situações do dia a dia de quem cuida do produto.
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Três áreas pediram coisas diferentes, e só cabe uma

Essa situação é o trabalho de todo mês. O erro comum é fazer um pouco de cada pedido, e terminar o mês sem nenhum problema resolvido inteiro.

Esperam de você
  • Que você junte os números de cada pedido
  • Que você escolha um, e diga por quê
  • Que você diga quando os outros podem entrar
Não esperam de você
  • Que você divida o tempo em três pedaços pequenos
  • Que você escolha pelo pedido de quem grita mais
  • Que você decida e não conte a ninguém
O que dizer

Para as três áreas, juntas: “Este mês cabe uma coisa só. Escolhi o reenvio do ingresso pelo aplicativo, porque o suporte recebe mil e duzentos pedidos de reenvio por mês, e a mudança leva uma semana. O parcelamento entra no mês que vem. O programa de pontos ainda não tem número que mostre o ganho, e eu queria montar esse número com vocês.”

A fala diz o escolhido, o motivo, a data dos outros e o que falta para o terceiro pedido entrar na conta.

Alguém da diretoria quer passar um pedido na frente de tudo

Essa situação vai acontecer, e passar o pedido na frente pode até ser a decisão certa. O erro comum é aceitar em silêncio e desarrumar a fila sem que ninguém saiba o custo.

Esperam de você
  • Que você mostre o que sai da fila se o pedido entrar
  • Que você deixe a pessoa escolher com a conta na mão
  • Que você avise as outras áreas do que mudou
Não esperam de você
  • Que você recuse o pedido da diretoria
  • Que você aceite sem dizer o custo
  • Que você culpe a diretoria para as outras áreas
O que dizer

“Posso pôr o seu pedido na frente. Para isso, o reenvio do ingresso volta para o fim da fila, e o suporte continua com mil e duzentos pedidos de reenvio por mês. Você prefere assim, ou o seu pedido pode esperar duas semanas?”

A fala não diz sim nem não. A fala põe o custo na mesa e devolve a escolha a quem tem o poder de escolher.

A função que você escolheu ficou pronta, e quase ninguém usou

Essa situação acontece com todo mundo que trabalha com produto. O erro comum é culpar a tela que o time fez, ou fingir que não viu o número de uso.

Esperam de você
  • Que você olhe quantas pessoas usaram
  • Que você converse com clientes antes de mexer de novo
  • Que você tire a função se ninguém precisava dela
Não esperam de você
  • Que você esconda o número
  • Que você refaça a tela sem perguntar a ninguém
  • Que você defenda a função porque a ideia foi sua
O que dizer

“A tela de favoritos ficou pronta há um mês, e só dois por cento dos clientes usaram. Antes de melhorar a tela, quero conversar com cinco clientes para entender se eles queriam mesmo isso. Se os clientes não queriam, a gente tira a tela e anota o que aprendeu.”

Uma função que ninguém usa é um pedido atendido sem medir o tamanho do problema.

O que muda daqui em diante

Gestão de produto
Antes
Reunião e planilha
Agora
Decidir a ordem do que vai ser construído, e explicar a ordem
O pedido do cliente
Antes
Uma ordem
Agora
Uma informação para comparar com os outros pedidos
Fazer um pouco de cada
Antes
Justiça
Agora
Meio trem em cada horário, e nenhum horário resolvido
O não
Antes
Uma porta fechada
Agora
Um agora não, com o motivo e a data

O trem das onze e meia levou trezentas pessoas para casa, e os estudantes sabiam por que o trem das sete tinha ficado para depois.