A noite da fumaça no túnel

Resposta a incidentes: quem organiza a equipe quando tudo falha, e escreve o que aconteceu para não acontecer de novo

Um túnel de metrô com fumaça cinza no alto. Um trem está parado nos trilhos, à esquerda, com uma das portas aberta. Do outro lado dos trilhos, uma passarela estreita, com corrimão, corre ao longo da parede do túnel. Passageiros caminham em fila pela passarela, em direção ao fundo do túnel. A passarela com o corrimão é desenhada em verde, o único elemento colorido da imagem. Na parede há um extintor num nicho e luminárias de emergência. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.Um túnel de metrô com fumaça cinza no alto. Um trem está parado nos trilhos, à esquerda, com uma das portas aberta. Do outro lado dos trilhos, uma passarela estreita, com corrimão, corre ao longo da parede do túnel. Passageiros caminham em fila pela passarela, em direção ao fundo do túnel. A passarela com o corrimão é desenhada em verde, o único elemento colorido da imagem. Na parede há um extintor num nicho e luminárias de emergência. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.
A passarela existia desde a obra do metrô. Foram os treinos que ensinaram seiscentas pessoas a sair por ela sem correr.

O capítulo da sala da memória terminou com a lupa do Osvaldo achando a entrada que contava em dobro. Alguns problemas não esperam a lupa e aparecem de uma vez, com fumaça e com pressa. Este capítulo segue a equipe que entra quando tudo falha.

Quando o sistema cai no meio do dia, todo mundo quer ajudar ao mesmo tempo. Dez pessoas mexem em dez coisas, ninguém sabe o que a outra pessoa fez, e no dia seguinte a reunião vira caça ao culpado.

Na emergência, quem resolve é quem corre mais.
Depois que voltou a funcionar, o assunto acabou.
Alguém errou, e essa pessoa precisa aparecer.
Treinar para emergência é perda de tempo, a gente resolve na hora.

Na emergência, a calma de uma equipe treinada vale mais que a pressa de dez pessoas.

Dezoito e quarenta

No túnel da imagem que abre este capítulo, uma fumaça cinza se junta no alto. Um trem está parado à esquerda, com uma porta aberta, e do outro lado dos trilhos corre uma passarela estreita, em verde, ao longo da parede. Pela passarela, passageiros caminham em fila para o fundo do túnel, e na parede ficam um extintor e as luminárias de emergência.

O túnel é do mesmo metrô. A Vânia trabalha há treze anos na equipe de emergência, que entra quando tudo falha: quando há fumaça, barulho e confusão. A equipe da Vânia tem oito pessoas por turno e sabe onde fica cada extintor, quem precisa sair primeiro e quem deve falar e quem deve ouvir.

Numa quinta-feira, às dezoito e quarenta, o freio de um vagão esquenta demais no túnel entre duas estações, e a fumaça começa a subir. O trem para com seiscentos passageiros dentro. Em dois minutos, o rádio da Vânia tem dez pessoas falando ao mesmo tempo, todas querendo ajudar.

Pare aqui um segundo e responda como se você fosse a Vânia. Com dez vozes no rádio e seiscentas pessoas no túnel, o que você faz primeiro?

Uma voz no rádio

A Vânia faz primeiro uma coisa que parece pequena. A Vânia diz no rádio que ela coordena, e que a partir daquele momento só fala no rádio quem ela chamar. Em seguida, a Vânia dá a cada pessoa uma tarefa, numa frase.

A Márcia, no centro de controle, segura os trens dos dois sentidos para nenhum trem entrar no túnel. A equipe da estação mais próxima abre a passarela de emergência e acende as luzes do caminho.

Os funcionários da plataforma organizam a saída e separam as pessoas que precisam de ajuda. O alto-falante do trem repete, a cada dois minutos, uma frase curta e calma dizendo o que fazer.

Em vinte e cinco minutos, os seiscentos passageiros saem pela passarela, e ninguém se machuca. A equipe fez exatamente o que tinha treinado no simulado de três meses antes. Na emergência, uma pessoa coordena e cada pessoa tem uma tarefa, e é isso que transforma dez vozes numa equipe.

Seiscentas pessoas saíram do túnel porque, meses antes, a equipe tinha ensaiado aquela noite.

O dia seguinte

Para a Vânia, o trabalho não acaba quando o túnel esvazia. No dia seguinte, a equipe da Vânia escreve o que aconteceu, minuto por minuto, por que aconteceu e o que muda. O vagão tinha uma peça do freio vencida, e a lista de conferência do pátio, a do Seu Jair, não tinha aquela peça.

Na reunião, a pergunta da Vânia é o que deixou o erro passar. O técnico que conferiu o vagão contou que a peça nunca tinha estado na lista, e só contou porque ninguém estava procurando culpado.

A lista do pátio ganhou uma linha naquela semana. Uma reunião que procura culpado faz as pessoas esconderem o que fizeram, e o erro volta.

Os doze minutos sem pagamento

Na empresa de ingressos, a manhã da venda tem uma segunda dificuldade. Às dez e vinte, sete minutos depois de o Josué alargar a passagem até a empresa do cartão, o pagamento para de vez, agora por outro motivo. O Celso, do monitoramento, é o primeiro a ver a parada, e é o Celso que coordena a resposta.

O mercado chama esse trabalho de resposta a incidentes (incident response). Resposta a incidentes é o trabalho de organizar a equipe quando tudo falha, e depois escrever o que aconteceu para não acontecer de novo.

O Celso abre uma chamada só para o incidente e diz que coordena. A Ivone olha os computadores do pagamento, o Josué confere de novo o caminho até a empresa do cartão, e a Sueli confere o que mudou no código naquela manhã.

O Beto avisa os clientes, a cada dez minutos, que quem já pagou tem o ingresso garantido. A Zuleica conta à produtora do show o que está acontecendo. Em doze minutos, o pagamento volta.

No dia seguinte, o Celso conduz a revisão do incidente, que o mercado chama de postmortem. A causa foi uma cópia de segurança dos pedidos marcada para as dez da manhã, que lotou o disco no meio da venda.

A cópia tinha sido marcada dois anos antes, para um horário em que ninguém comprava nada. A lista de preparação da venda ganhou uma linha: conferir as tarefas marcadas para o horário da venda.

A peça vencida do freio e a cópia de segurança das dez viraram, cada uma, uma linha nova numa lista de conferência.

Como saber se a equipe do susto combina com você

Se você pensa em trabalhar com incidentes

Quatro perguntas para saber se a equipe da emergência é o seu lugar

As quatro perguntas cabem num simulado, e mostram se você tem o jeito que a área pede, que é diferente do jeito de quem só gosta de adrenalina.

1. Você fica calmo quando todo mundo corre?

A Vânia falou devagar num rádio com dez vozes. A calma de quem coordena passa para o resto da equipe.

2. Você aceita que uma pessoa fala, e as outras fazem?

No incidente, até quem sabe mais espera a vez no rádio. Quem não aguenta ficar calado vira a décima primeira voz.

3. Você anota o que aconteceu enquanto acontece?

A revisão do dia seguinte só existe porque alguém anotou a hora de cada passo durante a noite.

4. Você pergunta o que deixou o erro passar, e não quem errou?

A peça vencida apareceu porque o técnico contou o que fez. O técnico só contou porque ninguém procurava culpado.

A equipe de emergência trabalha mais antes e depois da emergência do que durante ela.

prática

Levar para a entrevista

Três perguntas que mostram se você entende o trabalho de quem responde às emergências.
abrir

Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: contar a emergência como a noite em que você salvou todo mundo. Só que nenhuma das três perguntas está medindo a sua coragem. As três estão medindo se você entende o método da Vânia: uma voz no rádio, o treino antes e a revisão sem culpado depois.

“Numa emergência, por que uma pessoa só deve coordenar?”

A pergunta parece óbvia, e é sobre se você já viu o que acontece quando ninguém coordena.

O que quem entrevista quer ouvir
  • Que várias vozes ao mesmo tempo desperdiçam o tempo da emergência
  • Que cada pessoa precisa de uma tarefa clara
  • Um caso em que você viu uma pessoa só coordenar
O que derruba
  • Dizer que quem coordena serve para levar a culpa se der errado
  • Dizer que quem coordena é sempre o chefe
  • Responder só com teoria
Boa resposta

“Num princípio de incêndio na cozinha onde eu trabalhava, três pessoas gritavam instruções diferentes. O gerente disse que ele ia falar, e deu uma tarefa a cada um: eu desliguei o gás, outra pessoa pegou o extintor, outra tirou os clientes. Em dois minutos, o fogo estava apagado. Antes de o gerente assumir, a gente tinha perdido um minuto discutindo.”

Resposta ruim

“Uma pessoa coordena para ter um culpado, se der errado.”

A resposta trata a coordenação como um jeito de achar culpado, e é exatamente essa ideia que faz as pessoas esconderem o que fizeram.

“Depois de um problema grande, o que você faz?”

Esta pergunta procura o dia seguinte da Vânia.

Boa direção
  • Escrever o que aconteceu, na ordem
  • Perguntar por que ninguém percebeu antes
  • Dizer o que mudou, e se a mudança funcionou
Direção ruim
  • Descobrir quem errou
  • Encerrar o assunto quando voltou a funcionar
  • Prometer mais cuidado, sem mudar nada
Boa resposta

“No estágio, o sistema de agendamento ficou fora do ar uma manhã inteira, porque o certificado de segurança do site venceu. No dia seguinte, escrevi com o time o que aconteceu, hora por hora, por que ninguém percebeu e o que mudava: um alerta trinta dias antes do vencimento. Ninguém foi culpado, e o alerta já avisou duas vezes.”

Resposta ruim

“Eu descubro quem errou, para não acontecer de novo.”

Descobrir quem errou não muda a lista do pátio. Na próxima reunião, a pessoa que teme a culpa esconde o que fez, e o erro volta.

“Por que treinar para uma emergência que talvez nunca aconteça?”

A pergunta mede se você entende o valor de um simulado como o que a equipe da Vânia fez três meses antes da fumaça.

O avaliador técnico quer ver
  • Que o treino acha problemas que só aparecem na emergência
  • Que o treino ensina mais gente a fazer a parte difícil
  • Que o treino tem custo, e você sabe dizer o custo
O avaliador de pessoas quer ver
  • Que você leva o treino a sério, mesmo quando todo mundo reclama
  • Que você não transforma o treino em teatro
  • Que você conta o que o treino ensinou
Boa resposta

“No prédio onde fui porteiro, a gente fazia simulação de incêndio uma vez por ano, e todo mundo reclamava. Numa simulação, descobrimos que a porta da escada de emergência do terceiro andar estava trancada com cadeado. Tiramos o cadeado. Ninguém precisou daquela porta até hoje, e se precisar, ela abre.”

Resposta ruim

“Na hora, a gente se vira.”

A porta do terceiro andar mostra o problema dessa resposta. Na hora, quem tenta se virar encontra o cadeado.

prática

Levar para o trabalho

Três situações do dia a dia de quem cuida dos incidentes.
abrir

O sistema caiu, e dez pessoas estão mexendo ao mesmo tempo

Essa situação é o rádio da Vânia aos dois minutos. O erro comum é virar a décima primeira pessoa mexendo, em vez de organizar as outras dez.

Esperam de você
  • Que alguém diga que coordena, e que seja um só
  • Que cada pessoa receba uma tarefa, numa frase
  • Que quem usa o sistema receba notícias a intervalos combinados
Não esperam de você
  • Que cada pessoa mexa no que achar melhor
  • Que ninguém avise o cliente até tudo voltar
  • Que a coordenação vire disputa de quem manda
O que dizer

Na chamada do incidente: “Pessoal, eu coordeno este incidente. A Ivone olha os computadores do pagamento, o Josué olha o caminho até a empresa do cartão, e a Sueli confere o que mudou hoje no código. Beto, avisa os clientes que quem já pagou tem o ingresso garantido. Ninguém mexe em nada sem falar aqui primeiro. Próxima atualização em dez minutos.”

A fala tem a mesma forma da noite da fumaça: uma voz, uma tarefa por pessoa, e o próximo aviso com hora marcada.

Você precisa escrever o que aconteceu, para quem não estava lá

Essa situação vem sempre no dia seguinte ao incidente. O erro comum é escrever uma história comprida e vaga, ou uma lista de culpados com nome e sobrenome.

Esperam de você
  • Que você diga o que aconteceu, em poucas frases
  • Que você diga por que ninguém percebeu antes
  • Que você diga o que muda, com data
Não esperam de você
  • Que você escreva o nome de quem errou
  • Que você use palavra que só a sua área entende
  • Que você prometa mais cuidado sem mudar nada
O que dizer

“Às dez e vinte, o pagamento parou por doze minutos. A causa foi uma cópia de segurança marcada para as dez, que lotou o disco dos pedidos. Ninguém percebeu antes porque a tarefa foi marcada há dois anos, para um horário sem movimento. A partir da próxima venda, a lista de preparação confere as tarefas marcadas para o horário da venda.”

O texto tem o que aconteceu, o porquê, o motivo de ninguém ter visto e o que muda, e não tem o nome de ninguém.

Faz um ano que nada dá errado, e a diretoria quer cancelar o treino de emergência

Essa situação aparece justamente quando o treino está funcionando. O erro comum é aceitar o cancelamento porque a calmaria parece prova de que o treino sobra.

Esperam de você
  • Que você diga o que o último treino descobriu
  • Que você diga quanto o treino custa
  • Que você proponha um treino menor, se o tempo estiver curto
Não esperam de você
  • Que você aceite cancelar sem argumentar
  • Que você defenda o treino com medo, sem fato
  • Que você faça o treino de qualquer jeito só para cumprir
O que dizer

“Faz um ano que nada dá errado, e eu queria manter o treino de março. No último treino, a gente descobriu que só duas pessoas sabiam voltar o pagamento para a versão anterior. Hoje seis pessoas sabem. O treino leva duas horas, e por causa do treino a última emergência, no ano passado, durou só quinze minutos.”

O treino que parece desnecessário é o que encurta a próxima emergência.

O que muda daqui em diante

A emergência
Antes
A hora de todo mundo correr
Agora
Uma voz no rádio, e uma tarefa para cada pessoa
Depois que voltou a funcionar
Antes
O fim do assunto
Agora
A hora de escrever o que aconteceu
A reunião depois do problema
Antes
Caça ao culpado
Agora
A busca do que deixou o erro passar
O treino
Antes
Perda de tempo
Agora
O ensaio que encurta a próxima emergência

Seiscentas pessoas saíram do túnel em vinte e cinco minutos, e no dia seguinte a lista do pátio ganhou uma linha.