A porta de serviço aberta

Segurança da informação: quem garante que só passa quem pode passar

Uma plataforma de metrô vazia, à noite. Na parede da plataforma, uma porta de serviço de metal está entreaberta, presa por um calço de madeira no chão. Ao lado da porta há um leitor de crachá. Pela fresta aparece um corredor estreito com feixes de cabos e um painel elétrico. O calço de madeira é desenhado em verde, o único elemento colorido da imagem. Na plataforma há um banco, uma lixeira e uma câmera no alto da parede. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.Uma plataforma de metrô vazia, à noite. Na parede da plataforma, uma porta de serviço de metal está entreaberta, presa por um calço de madeira no chão. Ao lado da porta há um leitor de crachá. Pela fresta aparece um corredor estreito com feixes de cabos e um painel elétrico. O calço de madeira é desenhado em verde, o único elemento colorido da imagem. Na plataforma há um banco, uma lixeira e uma câmera no alto da parede. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.
A porta tem fechadura e leitor de crachá. Um calço de madeira desfez a fechadura e o leitor de crachá.

O capítulo do centro de controle terminou com a luz amarela percebida a tempo, antes de o passageiro descobrir a vermelha. Alguns problemas não acendem luz em tela nenhuma, porque o problema é alguém passando por onde não devia, e este capítulo segue quem cuida das portas.

Em quase toda empresa existe uma senha anotada num papel colado no monitor. Quase todo mundo já emprestou o crachá ou deixou uma porta encostada para não ter de abrir de novo, e achou que estava sendo prático.

Ninguém vai querer invadir uma empresa pequena como a nossa.
Segurança só atrapalha quem quer trabalhar.
Eu deixo a porta encostada só por cinco minutos.
Se der problema, a área de segurança resolve.

Muita invasão começa por uma porta que alguém deixou aberta por comodidade.

A ronda das onze da noite

Na plataforma vazia da imagem que abre este capítulo, uma porta de serviço está entreaberta, presa por um calço de madeira, em verde. Ao lado da porta fica o leitor de crachá, e pela fresta aparece um corredor com cabos e um painel elétrico. No alto da parede, uma câmera olha a plataforma.

O Gilmar trabalha há catorze anos na segurança das estações do mesmo metrô. A equipe do Gilmar cuida do que o passageiro quase não percebe: as portas do trem que não podem abrir fora de hora, as entradas que só deixam passar quem pagou, e os painéis que precisam aguentar curiosos, tempestades e falhas.

A porta de serviço da imagem leva ao corredor técnico, onde ficam os cabos dos sinais e o painel de energia da estação. Só entra quem tem crachá autorizado, e o leitor registra cada entrada.

Às onze da noite, na ronda, o Gilmar encontra a porta presa pelo calço. Um técnico da manutenção pôs o calço para carregar as ferramentas sem precisar passar o crachá a cada viagem. Por aquela fresta, qualquer pessoa da plataforma chegaria ao painel de energia.

Pare aqui um segundo e responda como se você fosse o Gilmar. Você tira o calço e segue a ronda, ou procura o técnico para conversar?

Quando a regra dá trabalho demais

O Gilmar tira o calço e procura o técnico. O Gilmar não chega dando bronca. O Gilmar pergunta por que o calço estava ali, e o técnico explica: o leitor de crachá demora vinte segundos para liberar, a porta é pesada, e naquela noite eram doze viagens com a caixa de ferramentas.

O Gilmar pede à manutenção um leitor de crachá mais rápido e uma trava que segura a porta aberta por dez minutos depois de cada crachá e depois fecha a porta sozinha. Até a troca chegar, o Gilmar abre a porta para a equipe da madrugada. O calço não volta mais. A segurança que dá trabalho demais ensina as pessoas a contornar a segurança, e o trabalho do Gilmar inclui deixar o caminho certo fácil.

O calço nasceu de uma regra difícil de cumprir, e saiu quando cumprir a regra ficou fácil.

Oito mil tentativas em um minuto

Na empresa de ingressos, a Dirce cuida da segurança da informação, que em inglês se chama information security. Segurança da informação é o trabalho de garantir que só entra quem pode entrar, e só faz o que pode fazer, nos sistemas e nos dados da empresa.

Às dez e um da manhã da venda, chegam oito mil tentativas de compra vindas de quarenta endereços da internet. Pessoa nenhuma compra assim. As tentativas são de robôs de cambistas, programas que compram ingressos em segundos para revender mais caro.

A Dirce tinha preparado duas portas semanas antes: um limite de quatro ingressos por pessoa e uma verificação que separa pessoa de robô, ligada só para os endereços suspeitos. Às dez e dois, os robôs param. Os fãs de verdade continuam comprando, sem perceber nada.

A senha do marketing

Na mesma semana, a senha de uma pessoa do marketing aparece numa lista de senhas vazadas na internet. A pessoa usava a mesma senha no sistema da empresa e num site de receitas, e foi o site de receitas que vazou.

A senha vazada não abriu nada. A Dirce tinha ligado, para todo mundo, a verificação em duas etapas, que o mercado chama de two-factor authentication: além da senha, cada entrada pede um código que chega no celular da pessoa. A senha era a primeira porta, e o código no celular era a segunda.

Depois da lista vazada, a Dirce fez o que o Gilmar fez com o calço. A Dirce instalou para todo mundo um programa que guarda as senhas, e cada pessoa passou a decorar uma senha só, sem anotar nada no papel.

A segunda porta salva a empresa no dia em que a primeira porta falha.

Como saber se as portas combinam com você

Se você pensa em trabalhar com segurança

Quatro perguntas para saber se o trabalho das portas é para você

As quatro perguntas cabem numa ronda, e poupam você de entrar numa área que pede o dia inteiro procurando fresta.

1. Você repara no que os outros deixam aberto?

O Gilmar viu o calço numa porta que as outras pessoas nem notavam. A área de segurança começa por um olhar que procura a fresta.

2. Você consegue pensar como quem quer entrar sem permissão?

A Dirce preparou o limite de ingressos porque pensou como um cambista. Quem protege precisa imaginar o ataque antes do atacante.

3. Você explica a regra sem fazer a pessoa se sentir culpada?

O Gilmar perguntou o motivo antes de dar a regra. A pessoa que se sente acusada esconde a próxima porta aberta.

4. Você gosta de acompanhar os golpes novos?

A senha do marketing vazou por um site de receitas que a Dirce nem conhecia. Os golpes mudam todo mês, e quem trabalha com segurança lê sobre golpe novo como quem lê o jornal.

Quem cuida das portas procura a fresta antes de quem quer entrar.

prática

Levar para a entrevista

Três perguntas que mostram se você entende o trabalho de quem guarda as portas.
abrir

Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: falar de ataque de filme. Só que nenhuma das três perguntas está medindo o seu conhecimento de filme. As três estão medindo se você enxerga o calço na porta, e se sabe tirar o calço sem brigar com o técnico.

“Como você protegeria as contas de uma empresa pequena, sem atrapalhar o trabalho das pessoas?”

A pergunta parece técnica, e é sobre o equilíbrio entre proteger e deixar trabalhar.

O que quem entrevista quer ouvir
  • Uma medida simples que protege muito
  • Como você faria as pessoas aceitarem a medida
  • O que você faria para o jeito seguro ser o jeito fácil
O que derruba
  • Uma lista de regras duras
  • Ignorar o trabalho das pessoas
  • Prometer proteção total
Boa resposta

“No escritório de contabilidade onde fui auxiliar, todo mundo usava a mesma senha no sistema dos clientes, anotada num caderno. Propus que cada pessoa tivesse a própria senha, guardada num programa de senhas, e ensinei cada colega em quinze minutos. Duas pessoas reclamaram na primeira semana. Quando uma colega saiu do escritório, bastou apagar a senha dela, sem trocar a senha de todo mundo.”

Resposta ruim

“Eu obrigaria todo mundo a trocar a senha toda semana.”

Senha trocada toda semana vira senha anotada no papel. A regra dura demais produz o calço na porta.

“Se uma pessoa mal-intencionada quisesse entrar aqui, por onde ela tentaria?”

Esta pergunta mede se você pensa como quem ataca, e se sabe por onde os ataques costumam começar.

Boa direção
  • Começar pelo caminho mais fácil, e não pelo mais difícil
  • Lembrar que muitas entradas começam por uma pessoa enganada
  • Dizer o que você faria para fechar esse caminho
Direção ruim
  • Descrever um ataque de filme
  • Dizer que é impossível entrar
  • Ensinar a atacar sem falar em proteger
Boa resposta

“Quem quer entrar tenta o jeito mais fácil, que muitas vezes é enganar uma pessoa. No curso, com autorização do professor, mandei para a turma um e-mail falso pedindo para clicar num link e confirmar o cadastro. Onze de trinta colegas clicaram. A gente usou o resultado numa aula sobre e-mail falso, e eu levei uma semana preparando o teste.”

Resposta ruim

“Invadindo o servidor com algum programa avançado.”

A resposta imagina o ataque difícil, e quem entrevista quer alguém que veja primeiro o calço na porta.

“A diretoria pede para desligar a verificação em duas etapas, porque o código no celular atrasa as reuniões. O que você faz?”

A pergunta mede se você sabe segurar a porta sem perder a conversa com quem manda.

O avaliador técnico quer ver
  • Que você explica o risco de abrir a exceção
  • Que você propõe outro jeito de chegar ao mesmo resultado
  • Que você registra a exceção, se ela acontecer
O avaliador de pessoas quer ver
  • Que você não libera só porque o pedido veio de cima
  • Que você não trava a diretoria com um não seco
  • Que você trata a pessoa com respeito
Boa resposta

“Na loja em que trabalhei, o gerente queria passar a senha do cofre para um funcionário novo no primeiro dia. Expliquei o risco e propus que o funcionário abrisse o cofre junto com alguém da casa nas duas primeiras semanas. O gerente topou. O fechamento ficou um pouco mais lento, e ninguém precisou emprestar senha.”

Resposta ruim

“Se o pedido é da diretoria, eu libero.”

A resposta entrega a porta para quem tem o cargo mais alto, e o cargo não diminui o risco.

prática

Levar para o trabalho

Três situações do dia a dia de quem cuida da segurança.
abrir

A senha de um colega está colada no monitor

Essa situação é o calço na porta, no escritório. O erro comum é fingir que não viu, ou expor o colega na frente de todo mundo.

Esperam de você
  • Que você fale com o colega a sós
  • Que você pergunte por que a senha estava ali
  • Que você ofereça um jeito mais fácil e seguro
Não esperam de você
  • Que você finja que não viu
  • Que você conte para o time inteiro
  • Que você entre na conta do colega para provar o risco
O que dizer

“Vi a sua senha colada no monitor. Eu sei que a senha é comprida e que muda de vez em quando. Posso instalar agora um programa que guarda as senhas para você? A instalação leva dez minutos, e você passa a lembrar de uma senha só.”

A fala tira o papel do monitor do mesmo jeito que o Gilmar tirou o calço, e deixa o jeito seguro mais fácil que o papel.

Robôs estão tentando comprar tudo no começo da venda

Essa situação acontece em toda venda disputada. O erro comum é bloquear de um jeito que barra também os fãs de verdade, ou não avisar o resto da empresa do que foi feito.

Esperam de você
  • Que você mostre o número que prova que são robôs
  • Que você bloqueie só o que é suspeito
  • Que você avise o atendimento do efeito do bloqueio
Não esperam de você
  • Que você bloqueie todo mundo para garantir
  • Que você decida sozinho e não conte a ninguém
  • Que você espere a venda acabar para olhar
O que dizer

Para o time da venda: “Às dez e um chegaram oito mil tentativas de compra de quarenta endereços. Pessoa nenhuma compra assim. Liguei a verificação de pessoa só para esses endereços. Quem compra da rede de uma empresa grande, onde muita gente sai pelo mesmo endereço, pode cair na verificação e reclamar, e eu acompanho com o atendimento.”

A fala explica o número, o que foi feito e o efeito colateral, para ninguém descobrir o bloqueio pela reclamação.

Uma senha da empresa apareceu numa lista de senhas vazadas

Essa situação vai chegar, porque as pessoas repetem senha em vários lugares. O erro comum é tratar o vazamento em silêncio, ou culpar em público quem usou a senha repetida.

Esperam de você
  • Que você troque a senha na hora
  • Que você confira se alguém entrou com a senha vazada
  • Que você converse com a dona da conta, a sós
Não esperam de você
  • Que você esconda o vazamento
  • Que você exponha a pessoa no grupo da empresa
  • Que você ache que a senha trocada encerra o assunto
O que dizer

Para a dona da conta: “A senha da sua conta apareceu numa lista vazada, de outro site. Ninguém entrou, porque o código no celular barrou. Troquei a senha agora. Vamos ver juntas quais outros sites usam essa mesma senha?”

A fala chega antes do boato, troca a senha sem expor ninguém e faz da dona da conta uma aliada, como o técnico que deixou de usar o calço.

Quem trata o vazamento a sós ganha uma aliada para a próxima senha vazada.

O que muda daqui em diante

Segurança
Antes
Quem atrapalha o trabalho
Agora
Quem guarda as portas, e deixa o caminho certo fácil
A porta encostada
Antes
Comodidade de cinco minutos
Agora
Uma entrada para quem não devia entrar
A empresa pequena
Antes
Pequena demais para alguém atacar
Agora
Um alvo mais fácil, por ter menos portas fechadas
A senha
Antes
Uma coisa para decorar
Agora
A primeira de duas portas

A porta de serviço fica fechada quando fechar é mais fácil do que deixar aberta.