O sinal que não chegou
Redes: quem cuida do caminho por onde os recados passam de um sistema a outro


O capítulo do pátio terminou com o primeiro trem saindo na hora, porque alguém tirou da linha o trem que não estava pronto. Com o trem na linha, falta o trem saber onde estão os outros trens, e este capítulo desce ao túnel por onde esses avisos passam.
Você clica, a página demora, e a culpa vai para a internet. Quase ninguém sabe o caminho que um clique faz até chegar a um computador do outro lado da cidade, e voltar com a resposta.
Um sistema só funciona se o aviso de uma parte chega na outra parte, na hora certa.
O recado de um ponto a outro
Na parede do túnel da imagem que abre este capítulo correm feixes de cabos, presos por suportes. Uma caixa de ligação está aberta, perto de uma poça d'água, e dela sai um cabo, em verde, até o poste de sinal com três luzes, à direita. No chão ficam uma escada encostada e uma maleta de ferramentas.
O túnel é do mesmo metrô. O Hélio trabalha há onze anos na sinalização, numa equipe de quatro pessoas que cuida de um trecho de seis estações. A linha é dividida em pedaços, e cada pedaço tem um sensor que avisa o sinal seguinte se o pedaço está livre ou ocupado.
Os sinais trocam recados o dia inteiro: “Trem A passou.” “Trem B está a caminho.” “Portas fechadas. Tudo certo.” Um trem só avança para o pedaço seguinte quando o aviso de que o pedaço está livre chega. O Hélio resume o trabalho dele assim: “Eu não cuido dos trens. Eu cuido dos recados.”
A manhã depois da chuva
Choveu a noite inteira. Às sete e dez da manhã, no meio do pico, a água entra por uma rachadura e chega à caixa de ligação entre duas estações. O sinal do pedaço 14 para de receber o aviso do sensor.
O sistema de sinais foi feito para desconfiar. Quando o aviso de que o pedaço está livre não chega, o sistema trata o pedaço como ocupado, e os trens passam por ali bem devagar, com o condutor olhando os trilhos. Nenhum trem bate em outro, e a linha inteira atrasa.
O Hélio chega ao pedaço 14 às sete e quarenta. O Hélio pode fazer uma emenda provisória agora, em vinte minutos, com os trens passando devagar ao lado, ou esperar a madrugada para trocar o cabo inteiro.
Pare aqui um segundo e responda como se você fosse o Hélio. Você faz a emenda agora, no meio do pico, ou deixa a linha devagar até a noite?
Quando o aviso não chega, o trem desconfia
O Hélio faz as duas coisas. Às oito, a emenda provisória está pronta, e os avisos voltam a chegar. Às duas da manhã, a equipe troca o cabo inteiro e veda a rachadura.
O passageiro sentiu cinquenta minutos de trem devagar. O passageiro não ficou sabendo que o sistema certo, quando não recebe um aviso, anda devagar em vez de adivinhar, e que foi isso que impediu dois trens de entrarem no mesmo pedaço.
Cinquenta minutos de trem devagar foram o preço de nenhum trem entrar no pedaço errado.
O pagamento que parou de responder
Na empresa de ingressos, a venda do show abre às dez. O site, o sistema de pagamento, o sistema que manda o ingresso por e-mail e a empresa que aprova o cartão são computadores diferentes, em lugares diferentes. Cada compra vira dezenas de recados de um computador para outro.
O Josué cuida das redes, que em inglês se chamam networking. Redes é o trabalho de cuidar do caminho por onde os recados passam de um computador para outro, e de saber onde esse caminho aperta.
Às dez e cinco, a resposta da empresa que aprova o cartão começa a demorar. O comprador vê “processando” por quase trinta segundos. O Josué mede o caminho em três pontos e descobre o pedaço que apertou: a passagem entre a empresa de ingressos e a empresa do cartão aceitava um número limitado de conversas ao mesmo tempo, e a venda passou desse número. O Josué alarga a passagem em oito minutos.
A parte que ninguém viu foi decidida meses antes. O sistema de pagamento tinha uma regra: se a resposta do cartão não chega em trinta segundos, o sistema avisa o comprador que vai tentar de novo, e não cobra duas vezes. O mercado chama esse tempo máximo de espera de timeout. A regra dos trinta segundos é a mesma desconfiança do sinal do pedaço 14.
O caminho que ninguém vê
Toda área da empresa depende do caminho do Josué, e quase ninguém conta ao Josué que vai usar o caminho. Um time novo liga o sistema dele a um sistema antigo sem perguntar quantos recados por minuto o sistema antigo aguenta, e o Josué descobre no dia do pico.
A equipe dos trilhos conta ao Hélio quando vai mexer perto dos cabos, e o centro de controle conta quando um trecho vai ficar fechado. Um caminho que ninguém conhece quebra no dia em que mais gente passa por ele.
Quem cuida do caminho precisa saber quem vai passar por ele, e quantos vão passar.
Como saber se o túnel combina com você
Quatro perguntas para saber se o túnel é o seu lugar
As quatro perguntas cabem numa conversa de cinco minutos, e poupam você de descobrir no primeiro emprego que procurar onde o recado parou não é o seu tipo de problema.
O Hélio procurou o pedaço 14, e o Josué procurou o trecho entre duas empresas. O trabalho de redes começa quase sempre por achar o lugar exato do problema.
O Josué mediu em três pontos antes de mexer em qualquer coisa. Quem pula para a solução sem medir troca o cabo errado.
Todo mundo diz que a culpa é da internet. A área de redes passa o dia explicando, para quem não vê o túnel, onde o recado parou.
O trem anda devagar, e o pagamento avisa o comprador e não cobra duas vezes. A pergunta “e se não chegar?” separa quem desenha o caminho de quem só liga os cabos.
Na área de redes, a pergunta mais útil do dia é onde o recado parou.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas que mostram se você entende como os avisos viajam.abrir
Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: despejar sigla e nome de equipamento para parecer técnico. Só que nenhuma das três perguntas está medindo quantas siglas você decorou. As três estão medindo se você sabe seguir um recado, trecho por trecho, até o lugar onde ele parou.
“A internet de um escritório inteiro caiu. Como você descobre onde está o problema?”
A pergunta parece ser sobre equipamento, e é sobre o seu jeito de procurar.
- Que você testa do mais perto para o mais longe
- Que você separa o que funciona do que não funciona
- Que você anota o que já testou
- Ligar para a operadora antes de testar qualquer coisa
- Trocar equipamento sem saber qual quebrou
- Responder com uma lista de siglas
“Na escola onde eu trabalhava na secretaria, a internet da sala dos professores caiu numa segunda. Antes de ligar para a operadora, liguei um computador direto no aparelho da internet, e funcionou. O problema era o cabo do corredor, que tinha ficado preso na porta. Levei uma hora, e a escola não esperou o técnico, que só vinha na quinta.”
“Eu ligaria para a operadora.”
Às vezes a operadora é a resposta certa. A operadora vai perguntar primeiro o que você já testou, e a resposta “Eu ligaria para a operadora” mostra uma pessoa que ainda não sabe procurar.
“O que acontece quando você digita o endereço de um site e aperta Enter?”
Essa pergunta é uma das mais antigas das entrevistas de tecnologia. A pergunta mede se você enxerga o caminho, e não se você decorou os nomes.
- Contar o caminho em etapas, na ordem
- Dizer onde cada etapa pode falhar
- Usar o nome técnico depois de explicar a etapa
- Dizer só que o navegador abre o site
- Recitar siglas sem explicar o que cada uma faz
- Fingir que sabe a parte que não sabe
“Entendi o caminho do endereço quando o meu primeiro site só abria pelo número do computador, e não pelo nome. O celular primeiro pergunta a uma espécie de lista telefônica da internet qual é o número do computador daquele site, e só depois manda o pedido para esse número. Essa lista se chama DNS, e o meu site não estava nela. Levei dois dias para descobrir.”
“O navegador abre o site.”
A resposta está certa e não mostra nenhum trecho do caminho, que é justamente o que a pergunta queria ver.
“Me conta de uma vez em que um recado se perdeu no caminho.”
Esta pergunta procura alguém que já pensou no que fazer quando o aviso não chega.
- Que você achou o ponto em que o recado se perdeu
- Que você criou um jeito de confirmar que o recado chegou
- Que você mediu se o problema voltou
- Que você não procurou culpado
- Que você combinou o jeito novo com as outras pessoas
- Que você aceitou perder um pouco de velocidade para ganhar segurança
“No restaurante em que eu trabalhava, os pedidos para a cozinha eram gritados. Num sábado, dois pedidos sumiram no barulho. Propus que a cozinha repetisse cada pedido em voz alta antes de começar. O serviço ficou mais lento nos primeiros dias, e no mês seguinte nenhum pedido sumiu.”
“Recado perdido nunca aconteceu comigo.”
Todo mundo já perdeu um recado. A área de redes existe porque recados se perdem, e quem diz que nunca perdeu um recado mostra que nunca reparou.
práticaLevar para o trabalho
Três situações do dia a dia de quem cuida das redes.abrir
O site está lento, e todo mundo diz que é a internet
Essa frase vai aparecer em quase toda reunião sobre lentidão. O erro comum é aceitar a frase, ou sair trocando coisa sem medir onde o recado está demorando.
- Que você meça o caminho em mais de um ponto
- Que você diga em qual trecho o tempo se perde
- Que você fale com quem cuida daquele trecho
- Que você aceite que é a internet sem medir
- Que você troque equipamento no escuro
- Que você culpe outra área antes de ter o número
“Medi o caminho em três pontos. O trecho do celular até a nossa entrada está normal. Da nossa entrada até a empresa do pagamento, o recado está levando oito segundos, e o normal é meio segundo. O problema está nesse trecho, e eu já estou falando com a empresa do pagamento.”
A fala troca “é a internet” por um trecho com nome e um número, e um trecho com nome alguém consegue consertar.
Um time novo quer ligar o sistema dele a um sistema antigo
Essa situação parece simples, e é onde nascem os problemas do dia de pico. O erro comum é ligar os dois sistemas sem perguntar quanto o sistema antigo aguenta.
- Que você pergunte quantos recados por minuto vão passar
- Que você pergunte o que acontece se o sistema antigo não responder
- Que você diga o limite do caminho antes de abrir a passagem
- Que você barre o time novo sem explicar
- Que você ligue tudo e espere para ver
- Que você descubra o limite no dia de pico
“Antes de ligar os dois, me conta duas coisas: quantos pedidos por minuto o sistema de vocês vai mandar, e o que ele faz se o sistema antigo não responder em dez segundos. O sistema antigo aguenta uns cem pedidos por minuto.”
As duas perguntas são as mesmas que o sinal do túnel responde: quantos trens vão passar, e o que fazer quando o aviso não chega.
A empresa do cartão diz que o seu sistema nunca mandou o aviso
Essa situação aparece sempre que dois sistemas de empresas diferentes conversam. O erro comum é responder que do seu lado está tudo certo, sem mostrar a hora exata em que o recado saiu.
- Que você procure o registro de saída do recado
- Que você diga a hora exata em que o recado saiu
- Que você combine um jeito de confirmar que o recado chegou
- Que você diga que o problema é do outro lado sem olhar
- Que você mande o recado de novo sem avisar ninguém
- Que você encerre a conversa sem um combinado
Para a empresa do cartão: “O nosso registro mostra que o aviso da compra 4.812 saiu às dez e sete, e nenhuma confirmação voltou. Vocês conseguem ver se o aviso chegou? Proponho que cada aviso ganhe uma resposta de recebido, e que o nosso sistema mande de novo depois de trinta segundos sem resposta.”
A fala troca “do nosso lado está tudo certo” por uma hora e um número de compra, e propõe aos dois sistemas a mesma desconfiança do sinal do pedaço 14.
Entre dois sistemas, um recado sem resposta de recebido é um recado que ninguém sabe se chegou.
O que muda daqui em diante
Quando o sinal não chega, o trem anda devagar até alguém consertar o caminho do aviso.