O trabalhador que aprendeu a ensinar
Ensinar quem está um passo atrás, e o que fica do trabalho de uma pessoa


O capítulo da árvore caída terminou com a filha da Noemi entrando primeiro na água do poço. Este é o último capítulo do livro. O capítulo mostra o que o Seu Benedito faz na volta de toda trilha, há vinte anos, sem ninguém pedir, e o que a Lia foi fazer numa quinta-feira à noite na biblioteca do bairro.
Você ainda está aprendendo, e ensinar parece coisa para depois, para quando você souber muito. Ensinar parece trabalho de professor, ou de gente que já chegou. Por enquanto, o importante parece ser o seu próprio caminho.
O que fica do trabalho de uma pessoa é o que ela ensinou a quem vem depois.
O rádio na volta
Na beira do poço da imagem que abre este capítulo, o grupo se prepara para voltar depois do almoço. Em primeiro plano, o guia mais velho entrega um rádio de mão, em verde, à guia jovem, que estende a mão para pegar. Atrás dos dois, a cachoeira cai sobre as pedras.
O guia é o Seu Benedito, e a guia jovem é a Rute. Na volta, o Seu Benedito entrega à Rute o rádio que liga o grupo à sede do parque, e pede que a Rute leve o grupo de volta pelo desvio do riacho. O Seu Benedito vai andar no fim da fila.
Na ponte do riacho, a Rute para o grupo e conta as pessoas, uma por uma, antes de atravessar. O Seu Benedito nunca pediu à Rute que contasse as pessoas. A Rute viu o Seu Benedito contar as pessoas em todas as pontes das dez trilhas que fez com ele.
Pare aqui um segundo e responda como se você fosse o Seu Benedito. Você conhece a trilha melhor que qualquer pessoa. Por que deixar a Rute levar o grupo?
Trinta anos de serraria
O Seu Benedito trabalhou trinta anos na serraria que ficava na beira da mata, cortando árvore. Quando o parque foi criado, há vinte anos, a serraria fechou, e o Seu Benedito tinha quarenta e quatro anos. O Seu Benedito achava que só sabia cortar árvore.
Um biólogo do parque pediu ao Seu Benedito que mostrasse as trilhas da mata, que o Seu Benedito conhecia a pé desde menino. Nas primeiras trilhas, o Seu Benedito falava pouco, porque achava que não sabia explicar. O Seu Benedito aprendeu com os grupos: o que as pessoas perguntavam, onde as pessoas cansavam, que palavra fazia uma criança olhar para a árvore.
Em vinte anos, o Seu Benedito ensinou seis guias, e a Rute é a sétima. O trabalhador que cortava a mata aprendeu a mostrar a mata, e depois aprendeu a ensinar outras pessoas a mostrar a mata. O Seu Benedito diz que a trilha mais importante dele é a que a Rute vai fazer sozinha, quando ele não estiver mais lá.
O Seu Benedito andou no fim da fila porque a volta era o treino da Rute, e não a trilha dele.
Quinta-feira à noite na biblioteca
Numa quinta-feira de novembro, a Lia voltou ao encontro de programadores da biblioteca do bairro, onde, dois anos antes, uma moça tinha perguntado o que a Lia fazia. Agora a Lia cuida da mesa dos iniciantes, uma vez por mês. Naquela noite, a mesa tinha três pessoas: um rapaz que trabalha numa farmácia, uma recepcionista de academia e uma mãe que estuda à noite, depois que os filhos dormem.
A recepcionista perguntou por onde começar. A Lia não deu uma lista de cursos. A Lia perguntou o que a recepcionista fazia todo dia na academia que um programa podia fazer por ela. A recepcionista disse que passava a manhã conferindo numa planilha quem estava com a mensalidade atrasada.
A Lia contou que tinha começado de um lugar parecido, com as faltas da clínica, e mostrou o plano que tinha montado com a Joana em maio, com o ponto marcado no mapa, o porquê e o primeiro trecho. A Lia ensina o caminho que acabou de fazer, um passo à frente de quem pergunta, como o livro mostrou na conversa no balcão da Dona Zilda.
A Lia ensinou à recepcionista o trecho que a Lia tinha acabado de andar.
O último passo do plano
Quem ensina não precisa ter chegado. Ao ensinar, a pessoa usa de novo tudo o que este livro mostrou: o porquê, o mapa, as perguntas, o trabalho com outras pessoas e a coragem de mostrar o processo. Quem ensina descobre o que realmente aprendeu, porque precisa explicar o porquê de cada passo.
O Seu Benedito aprendeu a ensinar depois de trinta anos de serraria. A Lia começou a ensinar um ano e meio depois do primeiro emprego na programação. Os dois ensinaram o que tinham vivido, e os dois aprenderam de novo enquanto ensinavam.
Como ensinar quem vem depois
Quatro perguntas para ensinar quem está um passo atrás
As quatro perguntas cabem numa conversa, e poupam você de esperar o dia em que vai saber tudo, que não chega.
A Lia sabia montar um plano com ponto, porquê e marcos. Um ano antes, a Lia não sabia montar um plano assim. O que você aprendeu no último ano é o que alguém precisa agora.
A recepcionista da academia estava onde a Lia esteve na clínica. A pessoa que está um passo atrás entende a sua explicação melhor que a explicação de um especialista.
A Lia perguntou o que a recepcionista fazia todo dia, em vez de dar uma lista de cursos. Ensine a pessoa a achar o próprio ponto no mapa.
O Seu Benedito entregou o rádio na volta, num caminho que a Rute já conhecia, e andou no fim da fila. Deixe a pessoa liderar onde o erro custa pouco.
Ensinar é o último passo do seu plano e o primeiro passo do plano de outra pessoa.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas sobre o que fica do seu trabalho.abrir
Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: falar só das suas conquistas, porque a entrevista parece ser sobre você. Só que nenhuma das três perguntas está medindo o que você conquistou sozinho. As três estão medindo o que fica do seu trabalho nas outras pessoas.
“O que você deixou no seu último trabalho que continua lá sem você?”
A pergunta parece sobre entregas, e mede se o seu trabalho continua de pé quando você sai.
- Uma coisa que continua funcionando
- Uma pessoa que aprendeu com você
- Como você preparou a sua saída
- Dizer que tudo dependia de você
- Contar só o que você fez sozinho
- Dizer que não sabe o que aconteceu depois
“Na clínica onde eu trabalhei, eu passei duas semanas ensinando a recepcionista nova a mexer no programa de confirmação de consultas. No começo deste ano, a recepcionista nova ensinou sozinha a moça que entrou depois dela. O programa continua rodando, e quem explica o programa agora é alguém que aprendeu com quem aprendeu comigo.”
“Quando eu saí, ficou tudo bagunçado. Mostra o quanto eu fazia falta.”
O trabalho que desmorona quando você sai mostra o que você não ensinou, e quem entrevista enxerga o mesmo risco para a empresa dele.
“Por que você ajuda quem está começando, se isso não conta na sua avaliação?”
Esta pergunta mede se você sabe o que ganha ensinando, além da avaliação.
- Contar onde e como você ajuda
- Dizer o que você aprendeu ensinando
- Lembrar quem ajudou você no começo
- Dizer que ajuda para aparecer
- Dizer que não tem tempo para ajudar
- Responder como se fosse caridade
“Eu cuido da mesa de iniciantes de um encontro de programadores, uma vez por mês. Comecei porque um programador que eu nem conhecia respondeu um texto meu, e a conversa com esse programador mudou o meu caminho. Ensinando, eu descobri que não sabia explicar por que se escrevem testes, e fui estudar de novo.”
“Porque fica bom no perfil.”
A resposta mede a ajuda pelo que ela parece, e não pelo que ela faz. Quem entrevista desconfia da ajuda que precisa de plateia.
“O que você diria a você mesmo, no dia em que começou a estudar?”
A pergunta procura saber o que você aprendeu do caminho inteiro, e se você sabe dizer em poucas palavras.
- Um erro de caminho que você não repetiria
- Uma coisa concreta que você faria antes
- O que você faz hoje por causa do erro
- Que você olha para trás sem amargura
- Que você reconhece quem ajudou
- Que o conselho serve para outra pessoa
“Eu diria para escrever onde eu estava antes de abrir o primeiro curso. Eu fiz catorze cursos e mandei trinta currículos com três páginas, antes de entender que a primeira linha devia ser o programa da clínica. Hoje, na mesa de iniciantes, a primeira coisa que eu peço é que a pessoa escreva onde está.”
“Eu diria para estudar mais.”
Estudar mais sem mapa foi o que levou o Carlos a projetar motores sem saber lixar, e a resposta repete o conselho que não ajudou.
práticaLevar para o trabalho
Três situações em que ensinar é o próximo passo.abrir
Você deixa a pessoa nova liderar uma parte, e ela vai errar
Essa situação é a volta da trilha com o rádio na mão da Rute. O erro comum é tomar a frente no primeiro tropeço, ou largar a pessoa sozinha num trecho perigoso.
- Escolher um trecho em que o erro custa pouco
- Ficar por perto, no fim da fila
- Conversar sobre o erro depois, e não no meio
- Tomar a frente no primeiro tropeço
- Largar a pessoa num trecho perigoso
- Corrigir na frente de todo mundo
Para o colega novo, antes de começar: “Esta semana você leva a reunião com a clínica de teste. Eu vou estar na reunião, quieta, e só entro se você me chamar. Depois a gente conversa dez minutos sobre o que funcionou.”
A fala dá a frente ao colega num trecho seguro, e combina antes onde o seu papel começa e termina.
Você tem medo de ensinar e perder o seu lugar
Essa situação é um medo comum, e quase sempre quem ensina ganha espaço, em vez de perder o lugar. O erro comum é guardar o que você sabe para ficar indispensável.
- Ensinar e contar ao líder o que ensinou
- Pegar o trabalho novo que o ensino deixa livre
- Escrever o que você sabe num lugar que o time acha
- Guardar o que você sabe para ficar indispensável
- Ensinar pela metade
- Esconder do líder que alguém aprendeu com você
O Wesley, o colega de estudo que a Lia indicou para uma vaga da empresa, entrou no time de agendamento naquele ano. Para a Joana, depois que a Lia ensinou ao Wesley as tarefas de agenda: “Joana, o Wesley já faz sozinho as tarefas de agenda que eram minhas. Com o Wesley nas tarefas de agenda, eu fico livre para pegar o próximo trecho do meu plano. Posso conversar com você sobre o que eu pego agora?”
A fala mostra à Joana o que o Wesley aprendeu com a Lia, e pede no mesmo minuto o próximo trecho do plano.
Você quer retribuir, e não sabe por onde começar
Essa situação chega quando alguém já ajudou você no caminho. O erro comum é esperar ter tempo e conhecimento de sobra.
- Responder uma pergunta de iniciante por semana
- Ir a um encontro e sentar na mesa de quem está começando
- Escrever o que você gostaria de ter lido há um ano
- Esperar ter tempo de sobra
- Montar um curso inteiro antes de ajudar alguém
- Achar que precisa saber tudo
Na mesa de iniciantes: “Eu comecei há três anos, na recepção de uma clínica. Não sei tudo, e sei o caminho que fiz. Me conta onde você está hoje, e a gente marca juntos o seu ponto no mapa.”
A primeira ajuda cabe numa conversa, e não precisa esperar você chegar.
O que muda daqui em diante
No encontro de dezembro, a recepcionista da academia voltou à biblioteca com uma folha na mão, e na folha estava o primeiro ponto marcado no mapa dela.