O mecânico e o caminho sem mapa
Estudar com direção, no nível do seu momento, e entrar pela porta de entrada


A abertura desta seção terminou dizendo que dar o próximo passo sabendo o porquê não depende de saber programar. Este capítulo mostra o que acontece com quem estuda muito, com vontade de sobra, e sem saber onde está nem aonde o próximo passo leva.
Você estuda todo dia, faz curso atrás de curso e aprende coisas cada vez mais difíceis. Mesmo assim, as vagas não respondem, e as poucas entrevistas perguntam coisas que você achou simples demais para estudar. Você começa a achar que o mercado não reconhece quem se esforça.
Estudar sem direção é andar depressa numa floresta, sem mapa e sem bússola.
Dois anos estudando motores
Na oficina da imagem que abre este capítulo, um rapaz está de pé perto do portão, segurando uma folha grande com o desenho de um motor esportivo. Do outro lado, um mecânico mais velho, de macacão, aponta para um carro sem pintura e para uma lixa, em verde, em cima da bancada.
O rapaz se chama Carlos. Aos dezesseis anos, o Carlos decidiu que queria ser mecânico, e não um mecânico qualquer. O Carlos queria projetar motores de carros esportivos. O Carlos passava horas assistindo a vídeos, comprou livros de engenharia mecânica, fez cursos sobre motores pela internet e passava as noites ajustando projetos num programa de desenho em três dimensões.
Aos dezoito anos, o Carlos sabia muita coisa sobre motores. O Carlos conhecia cada peça, cada função e cada cálculo, e projetava modificações que, no papel, funcionavam perfeitamente. Empolgado, o Carlos mandou currículo para fábricas, para oficinas de carros de corrida e até para equipes de automobilismo. Ninguém chamou.
A pergunta da oficina
Meses depois, uma oficina respondeu. O dono da oficina perguntou se o Carlos sabia trocar pneu, preparar um carro para a pintura e lixar a carroceria.
Pare aqui um segundo e responda como se você fosse o Carlos. Você estudou dois anos sobre motores, e a oficina pergunta se você sabe lixar uma carroceria. O que você responde?
O Carlos se irritou. O Carlos disse que sabia projetar motores, que tinha estudado dois anos sem parar, e perguntou por que perderia tempo com tarefas básicas. A oficina agradeceu, e a oportunidade não veio. Frustrado, o Carlos concluiu que o mercado de carros era injusto, e que as empresas não reconheciam o esforço de quem estuda de verdade.
O que a oficina via
O problema não estava no mercado. O Carlos tinha conhecimento de livro e de vídeo demais para o momento de vida dele, e nenhuma experiência prática, nenhum costume de trabalhar com outras pessoas e nenhuma maturidade de quem já trabalhou. Nenhuma oficina coloca um rapaz sem histórico para mexer num motor que, se falhar, causa prejuízo e põe vidas em risco. Um motor não pode quebrar em alta velocidade porque alguém quis testar o que aprendeu nos vídeos.
O que a oficina esperava de um iniciante era simples. A oficina esperava alguém para ajudar nas tarefas básicas, lixar e preparar os carros para a pintura, limpar as ferramentas. Se o iniciante tivesse carteira de motorista para buscar peças no fornecedor, melhor ainda. Essas tarefas básicas eram o caminho natural de entrada, e das tarefas básicas o Carlos poderia crescer.
O Carlos quis começar do topo. O Carlos estudou sem mapa, que mostra onde você está e por onde se entra, e sem bússola, que mostra a direção de verdade.
O caminho do Carlos até os motores passava pela lixa, e o Carlos não tinha um mapa que mostrasse isso.
O mesmo caminho na tecnologia
Na área de tecnologia acontece o mesmo que aconteceu com o Carlos. Muitos cursos prometem transformar a pessoa em especialista depressa, e ensinam a publicar programas em servidores na internet, a montar sistemas complexos e a usar as ferramentas da moda. Os cursos quase nunca mostram onde cada assunto se encaixa no momento real de quem está estudando.
O resultado é uma pessoa que sabe como fazer e não sabe quando nem por que fazer. No primeiro emprego, o mercado pede para corrigir erros, escrever consultas ao banco de dados (SQL) e investigar sistemas antigos, que o mercado chama de sistemas legados (legacy systems). Quem estudou só o topo leva um susto com a porta de entrada, como o Carlos com a lixa. Quem estuda sem direção anda depressa e acha que está avançando, sem saber se está indo para o lugar certo.
No capítulo da construção civil, você viu que vale estudar a coisa certa no momento certo. A história do Carlos acrescenta o que faltava para escolher sozinho a coisa certa no momento certo: um mapa, para saber onde você está e por onde se entra, e uma bússola, para saber por que você quer chegar lá.
Como desenhar o mapa
Quatro perguntas que desenham o mapa e calibram a bússola
As quatro perguntas cabem numa folha, e poupam meses estudando o motor esportivo quando a oficina pede a lixa.
O Carlos sabia muito sobre motores e nunca tinha trabalhado numa oficina. Escreva o que você já fez, e não só o que você já estudou.
A oficina tinha uma porta de entrada, e a porta era a lixa. Leia as vagas de entrada da sua área e anote o que elas pedem.
O próximo estudo é a distância entre o que você já fez e o que a porta de entrada pede, e não o assunto mais difícil da lista.
O porquê é a bússola. Quem sabe por que quer os motores aceita a lixa, porque sabe que a lixa leva aos motores.
O mapa mostra a porta de entrada, e a bússola faz você aceitar entrar por ela.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas sobre começar pela porta de entrada.abrir
Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: mostrar tudo o que você estudou de mais difícil, para parecer acima da vaga. Só que nenhuma das três perguntas está medindo o tamanho do que você estudou. As três estão medindo se você sabe onde está e aceita entrar pela porta de entrada, que para o Carlos era a lixa.
“Você estudou coisas mais avançadas. Por que se candidatou a uma vaga de entrada?”
A pergunta parece um elogio, e mede se você vai ficar frustrado com o trabalho que a vaga oferece.
- Que você sabe o que a vaga de entrada faz
- Que você entende por que se começa por ali
- Aonde você quer chegar, e como a vaga leva até lá
- Dizer que a vaga é só um começo até coisa melhor
- Mostrar desprezo pelas tarefas básicas
- Não saber o que a vaga faz no dia a dia
“Eu passei um ano estudando como montar sistemas grandes, e mandei currículo para vagas que pediam cinco anos de experiência. Ninguém respondeu. Li as vagas de entrada e vi que pediam corrigir erros e escrever consultas ao banco de dados. Estudei correção de erros e banco de dados por três meses, e foi aí que entendi o que as empresas fazem de verdade.”
“A vaga é só para entrar. Daqui a pouco eu quero ir para a parte de desenhar os sistemas grandes.”
Quem trata a vaga como escada deixa claro que vai se irritar com o trabalho dela, e quem entrevista prefere a pessoa que quer fazer o trabalho que a vaga tem.
“Esta vaga começa com muita tarefa simples. Tudo bem para você?”
A pergunta parece de disponibilidade, e mede se você vai tratar a tarefa simples como o Carlos tratou a lixa.
- Dizer o que a tarefa simples ensina
- Contar uma tarefa simples que você fez bem feita
- Perguntar quanto tempo dura essa fase
- Aceitar com cara de quem não gostou
- Dizer que já sabe coisa mais difícil
- Perguntar quando vai poder sair da fase simples
“Tudo bem. Quando eu fui repositor num mercado, os dois primeiros meses foram só conferir validade, e eu achei pouco. Conferindo a validade, eu vi que o mercado jogava fora uma caixa de iogurte por semana, e propus pôr o lote mais antigo na frente. Eu reclamei um mês da tarefa que me mostrou onde o mercado perdia dinheiro.”
“A tarefa simples está bem, desde que a fase dure pouco tempo.”
A resposta aceita a vaga já marcando a data de sair dela. Quem entrevista ouve o Carlos perguntando por que perderia tempo com tarefas básicas.
“Como você decide o que estudar a seguir?”
A pergunta procura saber se você tem um mapa, ou se estuda o que aparece na frente.
- Que você compara o que sabe com o que o trabalho pede
- Que você escolhe um assunto de cada vez
- Que você usa o que estuda logo depois
- Que você sabe por que quer chegar aonde quer
- Que você pede ajuda para escolher
- Que você reconhece o que ainda não sabe
“Eu olho o que o meu trabalho pede e o que eu ainda não sei fazer. No ano passado, eu tinha uma lista de dez assuntos. Peguei as vinte vagas de entrada da minha cidade, contei o que mais aparecia, e banco de dados estava em dezoito. Estudei banco de dados primeiro, e deixei os outros nove para depois.”
“Eu estudo o que está em alta. Agora é tudo inteligência artificial.”
Quem estuda o que está em alta corre atrás da moda e perde a porta de entrada, que quase nunca é o assunto da moda.
práticaLevar para o trabalho
Três situações em que o mapa decide o próximo estudo.abrir
A sua primeira tarefa é num sistema antigo em que ninguém quer mexer
Essa situação é a lixa do Carlos, no primeiro emprego. O erro comum é fazer a tarefa de má vontade, ou pedir para trocar por uma tarefa mais interessante.
- Perguntar quem conhece o sistema antigo
- Anotar o que o sistema ensina sobre a empresa
- Entregar a tarefa bem feita, mesmo sendo pequena
- Reclamar do sistema na frente do time
- Pedir uma tarefa mais interessante logo no começo
- Reescrever o sistema por conta própria
“Peguei a tarefa no sistema de cobrança antigo. Quem conhece melhor essa parte? Queria quinze minutos para entender por que a cobrança é calculada desse jeito antes de mexer.”
A pergunta mostra vontade de aprender com o sistema, e não de fugir dele, e quem conhece o sistema passa a confiar mais em você.
Um colega iniciante quer pular a porta de entrada
Essa situação vai chegar quando você já estiver um passo à frente. O erro comum é dizer só que o colega está errado, sem mostrar o mapa.
- Mostrar ao colega as vagas de entrada de verdade
- Contar o que você fez no começo
- Perguntar ao colega por que ele quer o destino
- Desanimar o colega
- Dizer que o caminho dele é impossível
- Dar uma lista de cursos sem conversar
“Vamos abrir juntos dez vagas para quem está começando aqui na cidade? Conta comigo o que as dez vagas pedem. Depois a gente olha o que você já sabe da lista, e o que falta.”
O colega desenha o próprio mapa, com as vagas de verdade na frente, e chega sozinho à porta de entrada.
Você tem uma hora por dia e dez assuntos na lista
Essa situação é a de quase todo mundo que estuda depois do trabalho. O erro comum é estudar um pouco de cada assunto e não terminar nenhum.
- Contar o que mais aparece nas vagas de entrada
- Escolher um assunto e ir até usar
- Guardar os outros nove numa lista para depois
- Dividir a hora entre os dez assuntos
- Escolher pelo assunto mais difícil
- Trocar de assunto a cada vídeo novo
Para você mesmo, no caderno: “Banco de dados apareceu em dezoito das vinte vagas. Nos próximos dois meses, a minha hora do dia é de banco de dados. Os outros nove assuntos ficam na lista de depois.”
A fala escolhe pelo que as vagas pedem, como a oficina pedia a lixa, e guarda os outros nove assuntos sem jogar nenhum fora.
Uma hora por dia num assunto só leva mais longe que dez assuntos de seis minutos.
O que muda daqui em diante
A oficina mostrou ao Carlos a porta de entrada, e o Carlos só tinha olhos para o desenho do motor.