O motivo da trilha

O porquê da próxima etapa: o que você quer fazer no dia a dia escolhe o caminho

Uma clareira na mata. Cinco pessoas de mochila descansam sentadas, duas num tronco caído à esquerda, duas em pedras no meio e uma noutro tronco à direita. De pé entre as cinco pessoas, um guia de chapéu e mochila fala com elas e estende a mão aberta. Atrás das pessoas, a trilha se abre em dois caminhos. À esquerda, um caminho com degraus de pedra sobe um morro íngreme. À direita, o outro caminho segue plano pela beira de um riacho cheio de pedras. Lá longe, entre as árvores, uma cachoeira alta cai de um paredão de pedra num poço. A cachoeira e o poço são desenhados em verde, os únicos elementos coloridos da imagem. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.Uma clareira na mata. Cinco pessoas de mochila descansam sentadas, duas num tronco caído à esquerda, duas em pedras no meio e uma noutro tronco à direita. De pé entre as cinco pessoas, um guia de chapéu e mochila fala com elas e estende a mão aberta. Atrás das pessoas, a trilha se abre em dois caminhos. À esquerda, um caminho com degraus de pedra sobe um morro íngreme. À direita, o outro caminho segue plano pela beira de um riacho cheio de pedras. Lá longe, entre as árvores, uma cachoeira alta cai de um paredão de pedra num poço. A cachoeira e o poço são desenhados em verde, os únicos elementos coloridos da imagem. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.
Todo mundo queria chegar à cachoeira. Cada pessoa queria chegar por um motivo diferente, e o motivo escolheu o caminho.

O capítulo do ponto no mapa terminou com o grupo entrando na mata às sete e meia. Meia hora depois, na primeira parada, o Seu Benedito fez uma pergunta que parecia fora de hora. Este capítulo mostra por que essa pergunta mudou o caminho do grupo, e por que a Lia precisou responder a mesma pergunta antes de escolher o próximo passo da carreira.

Alguém pergunta qual é o seu próximo passo, e a resposta sai rápido: ganhar mais, ser promovido, mudar para uma empresa maior, aprender a tecnologia nova. A resposta parece óbvia, porque é a resposta de quase todo mundo em volta.

O próximo passo é óbvio: ganhar mais.
Todo mundo quer subir de cargo, então eu também quero.
Pensar no porquê é perda de tempo, o importante é andar.
Se eu escolher o motivo errado, eu perco o caminho todo.

O destino diz aonde você vai, e o porquê diz qual caminho vale a pena para você.

A primeira parada

Na clareira da imagem que abre este capítulo, cinco pessoas do grupo descansam sentadas em troncos e pedras, e o guia de chapéu fala de pé, no meio das cinco pessoas. Atrás das pessoas sentadas, a trilha se abre em dois caminhos, um que sobe um morro íngreme, à esquerda, e outro que segue plano pela beira de um riacho, à direita. Lá longe, entre as árvores, aparece a cachoeira, em verde, caindo num poço.

O guia é o Seu Benedito. Às oito horas, na primeira parada, o Seu Benedito pergunta a cada pessoa por que quer chegar à cachoeira. O Cláudio quer a foto lá de cima, para mandar aos amigos. A Noemi trouxe a filha de doze anos, e as duas querem nadar no poço. Um casal de aposentados quer só chegar, porque o médico mandou os dois andarem mais.

Pare aqui um segundo e responda como se você fosse do grupo. Por que você iria até a cachoeira?

Dois caminhos até a mesma cachoeira

O Seu Benedito explica que a trilha tem dois caminhos até a cachoeira. O caminho do morro é curto e íngreme, e chega ao mirante, lá no alto, de onde sai a foto bonita. O caminho do morro termina no mirante, e do mirante ao poço só se desce por uma escada de pedra íngreme, que o Seu Benedito não usa com o grupo inteiro. O caminho do riacho é mais longo e plano, e chega ao poço, embaixo da queda.

Com os motivos na mesa, o plano fica claro. O grupo inteiro vai pelo caminho do riacho, que serve ao casal e à Noemi. No poço, o Cláudio sobe com a Rute até o mirante, por uma escada de pedra de vinte minutos, e desce para o almoço. Sem a pergunta do porquê, o grupo teria seguido o caminho mais curto, e a filha da Noemi não teria nadado.

A cachoeira era a mesma para todo mundo, e os motivos de cada pessoa escolheram caminhos diferentes.

A pergunta da Joana

Na conversa do plano do segundo ano, depois do ponto no mapa, a Joana perguntou à Lia aonde a Lia queria chegar, e por quê. A Lia respondeu rápido que queria ser promovida, de júnior para plena, que são os nomes que o mercado dá às etapas da carreira (júnior, pleno e sênior).

A Joana perguntou por quê. A Lia disse que o salário ia ajudar em casa, e que as duas pessoas que entraram com ela no time também queriam a promoção. A Joana disse que o salário era um motivo de verdade, e que a Lia devia escrever o salário no plano. Depois, a Joana perguntou o que a Lia queria fazer no dia a dia que ainda não fazia.

O motivo que escolhe o caminho

A Lia pensou no ano que tinha passado. A parte de que a Lia mais tinha gostado era a manhã com o suporte, ouvindo as clínicas, e a semana em que o problema dos pacientes que não respondiam mensagem virou o campo de contato preferido. A Lia queria pegar um problema de uma clínica e levar a solução inteira, do pedido até entrar no ar, conversando com as pessoas no caminho.

Esse motivo escolheu o caminho. Para levar uma solução inteira, a Lia precisava aprender a estimar prazo, falar nas reuniões de planejamento e entender a cobrança, que eram justamente os pontos do mapa que a Lia evitava ou só fazia com ajuda. A promoção continuou no plano, como consequência do caminho. O porquê que escolhe o caminho é o que você quer fazer no dia a dia, e não só o cargo que você quer ter.

Os três estudos do plano da Lia saíram do motivo de levar uma solução inteira.

Como achar o porquê

Antes de escolher o próximo passo

Quatro perguntas que acham o porquê que escolhe o caminho

As quatro perguntas cabem numa caminhada, e poupam um ano subindo o morro quando o seu motivo estava no poço.

1. O que eu quero fazer no dia a dia que ainda não faço?

A Lia queria levar uma solução inteira, do pedido até entrar no ar. O cargo vem depois; comece pelo trabalho que você quer fazer.

2. Que parte do último ano me deu vontade de voltar no dia seguinte?

A manhã com o suporte e o contato preferido apontaram o motivo da Lia. O que você já gostou de fazer é uma pista melhor que o que você imagina gostar.

3. Esse motivo é meu, ou é o de todo mundo em volta?

As duas pessoas que entraram com a Lia queriam a promoção. Um motivo emprestado escolhe o caminho de outra pessoa.

4. Que caminho esse motivo escolhe?

O motivo da Lia escolheu três estudos: prazo, reuniões e cobrança. Se o seu motivo não escolhe nada, ele ainda é um destino, e não um porquê.

Quem sabe por que quer chegar à cachoeira sabe se vai pelo morro ou pelo riacho.

prática

Levar para a entrevista

Três perguntas sobre aonde você quer chegar, e por quê.
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Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: dar a resposta que todo mundo dá, com cargo e salário, porque parece a resposta esperada. Só que nenhuma das três perguntas está medindo a sua ambição. As três estão medindo se você sabe por que quer chegar aonde quer, como o grupo precisou saber antes de escolher entre o morro e o riacho.

“Onde você quer estar daqui a dois anos?”

A pergunta parece pedir um cargo, e mede se você tem um motivo que escolhe o caminho.

O que quem entrevista quer ouvir
  • O trabalho que você quer fazer no dia a dia
  • O motivo, com um fato que mostra o motivo
  • O que você precisa aprender para chegar lá
O que derruba
  • Só o nome de um cargo
  • Dizer que quer o lugar de quem entrevista
  • Dizer que não pensou nisso
Boa resposta

“Quero estar levando um problema do cliente do pedido até entrar no ar, conversando com quem usa. No meu primeiro ano, a parte de que mais gostei foi uma manhã com o suporte, que virou uma mudança no cadastro dos pacientes. Para levar um problema inteiro, eu preciso aprender a estimar prazo e a falar mais nas reuniões de planejamento.”

Resposta ruim

“Eu quero ser sênior até lá.”

O cargo sozinho diz aonde você quer chegar e não diz nada de como você vai trabalhar até lá.

“O que você mais gostou de fazer no seu último trabalho?”

Esta pergunta mede se você conhece o seu próprio motivo, pelo que já viveu.

Boa direção
  • Uma tarefa concreta, com o que aconteceu
  • Por que essa tarefa deu vontade de voltar
  • Como isso combina com a vaga
Direção ruim
  • Falar do ambiente ou do salário só
  • Dizer que gostou de tudo
  • Falar mal do trabalho anterior
Boa resposta

“Na recepção da clínica, o trabalho de que eu mais gostei foi o mês em que eu reorganizei a agenda dos sábados. As faltas eram altas, e eu liguei para os pacientes de sábado perguntando o melhor horário. Em um mês, o sábado lotou. Foi ali que eu percebi que gosto de resolver o problema conversando com quem tem o problema.”

Resposta ruim

“O pessoal. A equipe era ótima.”

A equipe boa é um motivo de verdade, e a resposta para nele. Quem entrevista não descobre o que você gosta de fazer.

“E se a promoção não vier este ano?”

A pergunta parece testar a sua paciência, e mede se o seu porquê é o cargo ou o trabalho.

O avaliador técnico quer ver
  • Que você sabe o que quer aprender, com ou sem cargo
  • Que você tem um plano para o ano
  • Que você pergunta o que faltou
O avaliador de pessoas quer ver
  • Que você não ameaça sair
  • Que você fala do salário sem drama
  • Que você tem um motivo seu
Boa resposta

“Eu perguntaria o que faltou e seguiria o plano. No meu primeiro ano, eu queria a promoção porque as pessoas que entraram comigo queriam. Quando eu escrevi o que gosto de fazer, o plano virou levar uma solução inteira, do pedido até a clínica usar. Se a promoção atrasar, eu perco salário e continuo no mesmo caminho.”

Resposta ruim

“Aí eu começo a procurar outra empresa.”

Quem tem só o cargo como motivo vai embora no primeiro atraso, e quem entrevista percebe que a resposta não tem um porquê.

prática

Levar para o trabalho

Três situações em que o porquê escolhe o caminho.
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O líder pergunta aonde você quer chegar, e você não sabe

Essa situação parece um teste, e é um convite. O erro comum é inventar um cargo na hora, para ter o que responder ao líder.

O que ajuda
  • Dizer que ainda não sabe, com clareza
  • Contar a parte do trabalho de que você mais gostou
  • Pedir uma semana para voltar com a resposta
O que atrapalha
  • Inventar um cargo na hora
  • Responder o que você acha que o líder quer ouvir
  • Deixar a conversa morrer
O que dizer

“Eu ainda não sei responder com certeza. A parte de que eu mais gostei neste ano foi a manhã com o suporte. Posso pensar uma semana e trazer, na nossa próxima conversa, o que eu quero fazer no dia a dia?”

A fala troca uma resposta inventada por uma resposta pensada, e marca o dia em que a resposta chega.

Todos os colegas da sua turma querem a mesma coisa

Essa situação empurra você para o caminho da turma sem ninguém perceber. O erro comum é escolher o caminho da turma para não ficar para trás.

O que ajuda
  • Perguntar a você mesmo se o motivo é seu
  • Olhar o que você gostou de fazer, e não o que a turma quer
  • Conversar com alguém que já está no destino da turma
O que atrapalha
  • Seguir a turma para não ficar para trás
  • Escolher o contrário da turma só para ser diferente
  • Esconder do líder o que você quer
O que dizer

Para um colega que já é pleno: “As duas pessoas que entraram comigo no time querem a promoção para pleno. Antes de eu querer junto, você me conta como é o seu dia de pleno? Eu quero saber se o trabalho combina com o que eu gosto de fazer.”

A conversa troca o motivo da turma por um fato sobre o dia a dia, e a escolha volta a ser da Lia.

Aparece uma oportunidade que paga mais e não combina com o seu porquê

Essa situação é a mais difícil das três, porque o salário é um motivo de verdade. O erro comum é decidir só pelo salário, ou recusar sem fazer a conta.

O que ajuda
  • Escrever o que a oportunidade muda no seu dia a dia
  • Fazer a conta do quanto o salário a mais pesa em casa
  • Perguntar se dá para chegar ao seu porquê pelo caminho novo
O que atrapalha
  • Decidir no mesmo dia
  • Esconder do seu líder que recebeu a proposta
  • Recusar por orgulho, sem fazer a conta
O que dizer

Para a empresa que fez a proposta: “Obrigada pela proposta. Antes de responder, eu queria entender o dia a dia da vaga: eu vou conversar com quem usa o sistema, ou vou trabalhar só com o código? Conversar com quem usa o sistema é o trabalho que eu quero fazer nos próximos dois anos.”

A fala mostra interesse pela vaga e põe o porquê da Lia na conversa antes de o salário decidir sozinho.

O salário a mais entra na conta, e o porquê decide o que a conta vale para você.

O que muda daqui em diante

O próximo passo
Antes
Um cargo ou um salário
Agora
Um trabalho que você quer fazer no dia a dia
O salário
Antes
Um motivo para esconder
Agora
Um motivo de verdade, que entra no plano junto com os outros
O motivo da turma
Antes
O caminho natural
Agora
Um motivo para conferir antes de seguir
O porquê
Antes
Uma pergunta de filosofia
Agora
A pergunta que escolhe a trilha

Na saída da primeira parada, o grupo tinha um plano: o poço primeiro, e o mirante para quem quisesse a foto.