O motivo da trilha
O porquê da próxima etapa: o que você quer fazer no dia a dia escolhe o caminho


O capítulo do ponto no mapa terminou com o grupo entrando na mata às sete e meia. Meia hora depois, na primeira parada, o Seu Benedito fez uma pergunta que parecia fora de hora. Este capítulo mostra por que essa pergunta mudou o caminho do grupo, e por que a Lia precisou responder a mesma pergunta antes de escolher o próximo passo da carreira.
Alguém pergunta qual é o seu próximo passo, e a resposta sai rápido: ganhar mais, ser promovido, mudar para uma empresa maior, aprender a tecnologia nova. A resposta parece óbvia, porque é a resposta de quase todo mundo em volta.
O destino diz aonde você vai, e o porquê diz qual caminho vale a pena para você.
A primeira parada
Na clareira da imagem que abre este capítulo, cinco pessoas do grupo descansam sentadas em troncos e pedras, e o guia de chapéu fala de pé, no meio das cinco pessoas. Atrás das pessoas sentadas, a trilha se abre em dois caminhos, um que sobe um morro íngreme, à esquerda, e outro que segue plano pela beira de um riacho, à direita. Lá longe, entre as árvores, aparece a cachoeira, em verde, caindo num poço.
O guia é o Seu Benedito. Às oito horas, na primeira parada, o Seu Benedito pergunta a cada pessoa por que quer chegar à cachoeira. O Cláudio quer a foto lá de cima, para mandar aos amigos. A Noemi trouxe a filha de doze anos, e as duas querem nadar no poço. Um casal de aposentados quer só chegar, porque o médico mandou os dois andarem mais.
Pare aqui um segundo e responda como se você fosse do grupo. Por que você iria até a cachoeira?
Dois caminhos até a mesma cachoeira
O Seu Benedito explica que a trilha tem dois caminhos até a cachoeira. O caminho do morro é curto e íngreme, e chega ao mirante, lá no alto, de onde sai a foto bonita. O caminho do morro termina no mirante, e do mirante ao poço só se desce por uma escada de pedra íngreme, que o Seu Benedito não usa com o grupo inteiro. O caminho do riacho é mais longo e plano, e chega ao poço, embaixo da queda.
Com os motivos na mesa, o plano fica claro. O grupo inteiro vai pelo caminho do riacho, que serve ao casal e à Noemi. No poço, o Cláudio sobe com a Rute até o mirante, por uma escada de pedra de vinte minutos, e desce para o almoço. Sem a pergunta do porquê, o grupo teria seguido o caminho mais curto, e a filha da Noemi não teria nadado.
A cachoeira era a mesma para todo mundo, e os motivos de cada pessoa escolheram caminhos diferentes.
A pergunta da Joana
Na conversa do plano do segundo ano, depois do ponto no mapa, a Joana perguntou à Lia aonde a Lia queria chegar, e por quê. A Lia respondeu rápido que queria ser promovida, de júnior para plena, que são os nomes que o mercado dá às etapas da carreira (júnior, pleno e sênior).
A Joana perguntou por quê. A Lia disse que o salário ia ajudar em casa, e que as duas pessoas que entraram com ela no time também queriam a promoção. A Joana disse que o salário era um motivo de verdade, e que a Lia devia escrever o salário no plano. Depois, a Joana perguntou o que a Lia queria fazer no dia a dia que ainda não fazia.
O motivo que escolhe o caminho
A Lia pensou no ano que tinha passado. A parte de que a Lia mais tinha gostado era a manhã com o suporte, ouvindo as clínicas, e a semana em que o problema dos pacientes que não respondiam mensagem virou o campo de contato preferido. A Lia queria pegar um problema de uma clínica e levar a solução inteira, do pedido até entrar no ar, conversando com as pessoas no caminho.
Esse motivo escolheu o caminho. Para levar uma solução inteira, a Lia precisava aprender a estimar prazo, falar nas reuniões de planejamento e entender a cobrança, que eram justamente os pontos do mapa que a Lia evitava ou só fazia com ajuda. A promoção continuou no plano, como consequência do caminho. O porquê que escolhe o caminho é o que você quer fazer no dia a dia, e não só o cargo que você quer ter.
Os três estudos do plano da Lia saíram do motivo de levar uma solução inteira.
Como achar o porquê
Quatro perguntas que acham o porquê que escolhe o caminho
As quatro perguntas cabem numa caminhada, e poupam um ano subindo o morro quando o seu motivo estava no poço.
A Lia queria levar uma solução inteira, do pedido até entrar no ar. O cargo vem depois; comece pelo trabalho que você quer fazer.
A manhã com o suporte e o contato preferido apontaram o motivo da Lia. O que você já gostou de fazer é uma pista melhor que o que você imagina gostar.
As duas pessoas que entraram com a Lia queriam a promoção. Um motivo emprestado escolhe o caminho de outra pessoa.
O motivo da Lia escolheu três estudos: prazo, reuniões e cobrança. Se o seu motivo não escolhe nada, ele ainda é um destino, e não um porquê.
Quem sabe por que quer chegar à cachoeira sabe se vai pelo morro ou pelo riacho.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas sobre aonde você quer chegar, e por quê.abrir
Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: dar a resposta que todo mundo dá, com cargo e salário, porque parece a resposta esperada. Só que nenhuma das três perguntas está medindo a sua ambição. As três estão medindo se você sabe por que quer chegar aonde quer, como o grupo precisou saber antes de escolher entre o morro e o riacho.
“Onde você quer estar daqui a dois anos?”
A pergunta parece pedir um cargo, e mede se você tem um motivo que escolhe o caminho.
- O trabalho que você quer fazer no dia a dia
- O motivo, com um fato que mostra o motivo
- O que você precisa aprender para chegar lá
- Só o nome de um cargo
- Dizer que quer o lugar de quem entrevista
- Dizer que não pensou nisso
“Quero estar levando um problema do cliente do pedido até entrar no ar, conversando com quem usa. No meu primeiro ano, a parte de que mais gostei foi uma manhã com o suporte, que virou uma mudança no cadastro dos pacientes. Para levar um problema inteiro, eu preciso aprender a estimar prazo e a falar mais nas reuniões de planejamento.”
“Eu quero ser sênior até lá.”
O cargo sozinho diz aonde você quer chegar e não diz nada de como você vai trabalhar até lá.
“O que você mais gostou de fazer no seu último trabalho?”
Esta pergunta mede se você conhece o seu próprio motivo, pelo que já viveu.
- Uma tarefa concreta, com o que aconteceu
- Por que essa tarefa deu vontade de voltar
- Como isso combina com a vaga
- Falar do ambiente ou do salário só
- Dizer que gostou de tudo
- Falar mal do trabalho anterior
“Na recepção da clínica, o trabalho de que eu mais gostei foi o mês em que eu reorganizei a agenda dos sábados. As faltas eram altas, e eu liguei para os pacientes de sábado perguntando o melhor horário. Em um mês, o sábado lotou. Foi ali que eu percebi que gosto de resolver o problema conversando com quem tem o problema.”
“O pessoal. A equipe era ótima.”
A equipe boa é um motivo de verdade, e a resposta para nele. Quem entrevista não descobre o que você gosta de fazer.
“E se a promoção não vier este ano?”
A pergunta parece testar a sua paciência, e mede se o seu porquê é o cargo ou o trabalho.
- Que você sabe o que quer aprender, com ou sem cargo
- Que você tem um plano para o ano
- Que você pergunta o que faltou
- Que você não ameaça sair
- Que você fala do salário sem drama
- Que você tem um motivo seu
“Eu perguntaria o que faltou e seguiria o plano. No meu primeiro ano, eu queria a promoção porque as pessoas que entraram comigo queriam. Quando eu escrevi o que gosto de fazer, o plano virou levar uma solução inteira, do pedido até a clínica usar. Se a promoção atrasar, eu perco salário e continuo no mesmo caminho.”
“Aí eu começo a procurar outra empresa.”
Quem tem só o cargo como motivo vai embora no primeiro atraso, e quem entrevista percebe que a resposta não tem um porquê.
práticaLevar para o trabalho
Três situações em que o porquê escolhe o caminho.abrir
O líder pergunta aonde você quer chegar, e você não sabe
Essa situação parece um teste, e é um convite. O erro comum é inventar um cargo na hora, para ter o que responder ao líder.
- Dizer que ainda não sabe, com clareza
- Contar a parte do trabalho de que você mais gostou
- Pedir uma semana para voltar com a resposta
- Inventar um cargo na hora
- Responder o que você acha que o líder quer ouvir
- Deixar a conversa morrer
“Eu ainda não sei responder com certeza. A parte de que eu mais gostei neste ano foi a manhã com o suporte. Posso pensar uma semana e trazer, na nossa próxima conversa, o que eu quero fazer no dia a dia?”
A fala troca uma resposta inventada por uma resposta pensada, e marca o dia em que a resposta chega.
Todos os colegas da sua turma querem a mesma coisa
Essa situação empurra você para o caminho da turma sem ninguém perceber. O erro comum é escolher o caminho da turma para não ficar para trás.
- Perguntar a você mesmo se o motivo é seu
- Olhar o que você gostou de fazer, e não o que a turma quer
- Conversar com alguém que já está no destino da turma
- Seguir a turma para não ficar para trás
- Escolher o contrário da turma só para ser diferente
- Esconder do líder o que você quer
Para um colega que já é pleno: “As duas pessoas que entraram comigo no time querem a promoção para pleno. Antes de eu querer junto, você me conta como é o seu dia de pleno? Eu quero saber se o trabalho combina com o que eu gosto de fazer.”
A conversa troca o motivo da turma por um fato sobre o dia a dia, e a escolha volta a ser da Lia.
Aparece uma oportunidade que paga mais e não combina com o seu porquê
Essa situação é a mais difícil das três, porque o salário é um motivo de verdade. O erro comum é decidir só pelo salário, ou recusar sem fazer a conta.
- Escrever o que a oportunidade muda no seu dia a dia
- Fazer a conta do quanto o salário a mais pesa em casa
- Perguntar se dá para chegar ao seu porquê pelo caminho novo
- Decidir no mesmo dia
- Esconder do seu líder que recebeu a proposta
- Recusar por orgulho, sem fazer a conta
Para a empresa que fez a proposta: “Obrigada pela proposta. Antes de responder, eu queria entender o dia a dia da vaga: eu vou conversar com quem usa o sistema, ou vou trabalhar só com o código? Conversar com quem usa o sistema é o trabalho que eu quero fazer nos próximos dois anos.”
A fala mostra interesse pela vaga e põe o porquê da Lia na conversa antes de o salário decidir sozinho.
O salário a mais entra na conta, e o porquê decide o que a conta vale para você.
O que muda daqui em diante
Na saída da primeira parada, o grupo tinha um plano: o poço primeiro, e o mirante para quem quisesse a foto.