O ponto no mapa
Saber onde você está, com fatos, antes de montar qualquer plano


O capítulo do mecânico terminou com a oficina mostrando a porta de entrada, e com o Carlos olhando só para o desenho do motor. Para achar a porta de entrada, você precisa primeiro marcar no mapa o lugar onde está. Este capítulo começa na entrada de um parque, às sete da manhã de um sábado.
Alguém pede que você diga onde está na carreira, ou o que você sabe fazer. Você responde com uma sensação. Num dia, você diz que não sabe nada. Em outro dia, você diz que já sabe mais do que o seu cargo pede.
O mapa só ajuda depois que você marca nele o lugar onde está, e esse lugar é feito do que você fez, e não do que você sente.
Oito pessoas na entrada do parque
Na entrada do parque da imagem que abre este capítulo, um painel grande de madeira mostra o mapa das trilhas, com um rio e uma cachoeira. No pé do mapa, um ponto, em verde, marca o lugar onde o painel está. Um guia de chapéu aponta para o ponto, e um grupo de oito pessoas de mochila olha o mapa.
O guia é o Seu Benedito, de sessenta e quatro anos, guia do parque há vinte. Neste sábado, o Seu Benedito vai levar um grupo de iniciantes até a cachoeira, por uma trilha de seis quilômetros, com a Rute, a guia nova que está aprendendo com ele.
Antes de entrar na mata, o Seu Benedito aponta o ponto verde e diz que a trilha começa ali para todo mundo. Depois, o Seu Benedito diz que cada pessoa também começa de um lugar próprio, e que ele precisa saber qual é.
Pare aqui um segundo e responda como se você fosse o Seu Benedito. Que pergunta você faria a cada pessoa antes de entrar na trilha?
A pergunta pelo fato
O Seu Benedito não pergunta se as pessoas estão em forma. O Seu Benedito pergunta quanto cada pessoa andou a pé na semana anterior, quanta água traz na mochila, se o sapato já foi usado antes e se alguém tem dor no joelho.
As respostas mudam a trilha. O Cláudio, que disse que corria toda semana, estava de bota nova, comprada na véspera e nunca usada. A Noemi, que disse que não aguentava andar muito, vai a pé para o trabalho todo dia, três quilômetros na ida e três na volta. O Seu Benedito pede ao Cláudio que troque a bota pelo tênis que ficou no carro, e põe a Noemi logo atrás da Rute, na frente da fila, para puxar o ritmo.
A pergunta pelo fato mostra onde a pessoa está, e a pergunta pela opinião mostra só como a pessoa se sente. O Cláudio se sentia pronto, e a bota nova ia fazer bolha no terceiro quilômetro. A Noemi se sentia fraca, e andava seis quilômetros por dia.
A bota nova do Cláudio apareceu antes do primeiro quilômetro, porque o Seu Benedito perguntou pela semana de cada pessoa.
O primeiro rascunho da Lia
Em maio, a Lia completou um ano no time de agendamento. A Joana chamou a Lia para montar o plano do segundo ano, o que o mercado chama de plano de desenvolvimento individual (PDI), em inglês individual development plan. A primeira pergunta do plano era onde a Lia estava.
O primeiro rascunho da Lia tinha duas linhas. A Lia escreveu que programava bem a parte da agenda e que precisava melhorar em todo o resto. A Joana leu e pediu fatos.
O segundo rascunho, sem adjetivo
A Lia escreveu de novo. Sozinha, a Lia tinha feito seis tarefas da agenda, do pedido até entrar no ar. Com ajuda, a Lia tinha feito duas tarefas na cobrança, que ainda não conhecia. A Lia nunca tinha estimado o prazo de uma tarefa grande, e das cinco tarefas médias que estimou, três atrasaram. A Lia evitava falar nas reuniões de planejamento, e no ano tinha falado duas vezes. O Vagner tinha dito, em três revisões, que os testes da Lia eram os mais cuidadosos do time.
O ponto no mapa é feito de fatos: o que você fez sozinho, o que fez com ajuda, o que nunca fez e o que as outras pessoas viram. O segundo rascunho da Lia não tinha nenhum adjetivo, e a Joana disse que era o primeiro plano do ano que a Joana conseguia usar.
O primeiro rascunho dizia como a Lia se sentia, e o segundo mostrava onde a Lia estava.
Como marcar o seu ponto
Quatro perguntas que marcam no mapa onde você está
As quatro perguntas cabem numa tarde e poupam um plano inteiro montado em cima de uma sensação, para cima ou para baixo.
A Lia contou seis tarefas da agenda, do pedido até entrar no ar. Conte o que você terminou, e não o que você começou.
As duas tarefas da cobrança não são fracasso. As tarefas feitas com ajuda mostram o pedaço do mapa que você já viu e por onde ainda não anda sozinho.
As estimativas de prazo e as reuniões de planejamento eram o pedaço do mapa que a Lia evitava. Escreva com o número, como as três tarefas atrasadas em cinco.
O Vagner falou dos testes em três revisões. A opinião de outra pessoa, com o exemplo junto, corrige o que você acha de você.
Quem marca o ponto com fatos não precisa se diminuir nem se enfeitar.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas sobre dizer onde você está, com fatos.abrir
Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: responder com uma sensação, para cima, para parecer pronto, ou para baixo, para parecer humilde. Só que nenhuma das três perguntas está medindo a sua confiança. As três estão medindo se você sabe onde está no mapa.
“De zero a dez, quanto você sabe de programação?”
A pergunta parece pedir um número, e mede se você troca o número por fatos.
- O que você já faz sozinho
- O que você faz com ajuda
- O que você ainda não sabe, com clareza
- Um número alto sem nada atrás
- Um número baixo para parecer humilde
- Dizer que não dá para responder
“O número muda conforme o assunto, então eu prefiro contar o que eu faço. No meu primeiro ano, eu fiz sozinha seis tarefas de agenda, do pedido até entrar no ar. Na cobrança, eu fiz duas, com ajuda. Estimar prazo de tarefa grande eu nunca fiz, e das cinco tarefas médias que estimei, três atrasaram.”
“Eu me daria uns oito.”
O número sozinho obriga quem entrevista a adivinhar o que ele quer dizer, e o oito de uma pessoa é o cinco de outra.
“O que você já faz sozinho, e o que ainda faz com ajuda?”
Esta pergunta mede se você conhece a fronteira do que sabe.
- Dar um exemplo de cada lado
- Dizer quem ajudou e como
- Dizer o que você está fazendo para andar sozinho
- Dizer que faz tudo sozinho
- Dizer que ainda precisa de ajuda em tudo
- Responder sem nenhum exemplo
“Na recepção da clínica, no começo, eu remarcava paciente sozinha e chamava a gerente para qualquer cobrança. No sexto mês, a gerente me deixou fechar o caixa do dia, e eu errei duas vezes na primeira semana. A gerente conferiu comigo por um mês, e depois eu fechava sozinha. Hoje, na programação, eu faço a cobrança com ajuda, como fazia o caixa no sexto mês.”
“Eu faço tudo sozinha. Só peço ajuda em último caso.”
A resposta apaga a fronteira. Quem entrevista entende que você não vai pedir ajuda nem quando precisar.
“Que parte do seu trabalho você ainda evita?”
A pergunta procura saber se você enxerga o que evita, que costuma ser o próximo pedaço do mapa.
- Uma parte do trabalho, e não um traço de personalidade
- Um número que mostra quanto você evita
- O primeiro passo que você vai dar
- Que você fala do assunto sem drama
- Que você não transforma o defeito em elogio
- Que você já começou a mudar
“Eu evito as reuniões de planejamento. No ano passado, eu falei duas vezes nessas reuniões, e numa delas eu sabia que o prazo estava curto e fiquei quieta. A tarefa atrasou uma semana. Agora eu levo escrita uma pergunta por reunião, e na última eu perguntei sobre o prazo.”
“Eu evito deixar as coisas pela metade, porque sou perfeccionista.”
O defeito transformado em elogio esconde o ponto do mapa que a pergunta queria ver, e quem entrevista percebe a manobra.
práticaLevar para o trabalho
Três situações em que você precisa marcar o seu ponto no mapa.abrir
Pedem a sua autoavaliação, e você não sabe o que escrever
Essa situação chega uma ou duas vezes por ano em quase toda empresa. O erro comum é escrever adjetivos, ou copiar a descrição do cargo.
- Listar o que você fez sozinho, com número
- Listar o que fez com ajuda e o que nunca fez
- Juntar o que as pessoas disseram, com exemplo
- Escrever adjetivos sobre você
- Copiar a descrição do cargo
- Escrever só o que deu certo
Na autoavaliação: “Fiz sozinha seis tarefas da agenda, do pedido até entrar no ar. Fiz duas na cobrança, com a ajuda do Vagner. Das cinco tarefas médias que estimei, três atrasaram. Falei duas vezes nas reuniões de planejamento.”
As quatro frases dão à Joana um ponto no mapa, e a conversa sobre o próximo ano começa do lugar certo.
Uma tarefa mostrou que você sabia menos do que achava
Essa situação dá um susto, e é das mais úteis. O erro comum é esconder o tropeço, ou concluir que você não serve para a área.
- Anotar o que exatamente você não sabia
- Mudar o ponto no mapa, com o fato novo
- Contar ao líder o que descobriu
- Esconder o tropeço
- Concluir que você não serve para a área
- Fingir que a tarefa era fácil
“Joana, a tarefa da cobrança me mostrou que eu não sei ler as regras de desconto das clínicas. Eu achava que a tarefa era só código. Queria uma hora com alguém da cobrança na semana que vem.”
O tropeço vira um fato novo no mapa da Lia, e a Joana sabe exatamente que ajuda oferecer.
Um colega diz que você se diminui demais
Essa situação é a da Noemi, que andava seis quilômetros por dia e se achava fraca. O erro comum é agradecer e continuar se diminuindo.
- Perguntar ao colega em que fato ele viu isso
- Conferir o fato com a sua lista
- Corrigir o ponto no mapa
- Responder que o colega está sendo gentil
- Discordar sem olhar os fatos
- Mudar de assunto
“Você disse que eu me diminuo. Em que fato você viu que eu me diminuo? Se foi nos testes, o Vagner elogiou os meus testes em três revisões, e mesmo assim eu não tinha escrito os testes no plano como uma coisa que eu faço bem.”
A pergunta pelo fato troca um elogio vago por um exemplo, e o exemplo vai para o plano.
A pergunta pelo fato corrige o ponto no mapa nos dois sentidos, para cima e para baixo.
O que muda daqui em diante
O Cláudio trocou a bota nova pelo tênis do carro, a Noemi foi para a frente da fila, e o grupo entrou na mata às sete e meia.