A árvore caída

Refazer o plano quando o caminho muda, sem perder o porquê

Uma trilha na mata fechada por uma árvore enorme caída de través, com as raízes arrancadas para o alto e os galhos ainda com folhas. Um guia de chapéu, de pé ao lado do tronco, amarra uma fita num galho baixo, no começo de uma trilha estreita que contorna a árvore pela beira de um riacho. A fita é desenhada em verde, o único elemento colorido da imagem. Um grupo de pessoas de mochila observa o tronco. O chão está molhado, com poças e folhas. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.Uma trilha na mata fechada por uma árvore enorme caída de través, com as raízes arrancadas para o alto e os galhos ainda com folhas. Um guia de chapéu, de pé ao lado do tronco, amarra uma fita num galho baixo, no começo de uma trilha estreita que contorna a árvore pela beira de um riacho. A fita é desenhada em verde, o único elemento colorido da imagem. Um grupo de pessoas de mochila observa o tronco. O chão está molhado, com poças e folhas. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.
A árvore caída fechou o caminho do plano. A fita no galho marcou o caminho novo até o mesmo poço.

O capítulo do bambuzal terminou com a Noemi e a filha seguindo na frente, procurando as faixas de tinta. Meio quilômetro antes do poço, as faixas levaram o grupo a uma árvore enorme caída no meio da trilha. Este capítulo mostra o que o Seu Benedito faz quando o caminho do plano acaba, e o que a Lia fez quando a empresa cancelou o próximo trecho do plano dela.

Você monta um plano com cuidado, e no segundo mês alguma coisa muda: a empresa troca a prioridade, o curso fecha, a vida em casa aperta. Você olha o plano e conclui que o plano não servia, ou que você não serve para planos.

Se o plano mudou, é porque o plano não servia.
Agora eu espero tudo assentar para fazer outro plano.
Mudar de plano é desistir.
Eu sigo o plano original até o fim, custe o que custar.

O caminho pode mudar no meio da trilha, e o porquê continua sendo a bússola.

A árvore da noite de chuva

Na trilha da imagem que abre este capítulo, uma árvore enorme está caída de través, com as raízes arrancadas para o alto. Ao lado do tronco, o guia de chapéu amarra uma fita, em verde, num galho baixo, no começo de uma trilha estreita que contorna a árvore pela beira de um riacho. O grupo observa o tronco, e o chão está molhado.

O guia é o Seu Benedito. A árvore caiu na chuva da noite anterior, e o tronco, molhado e liso, passa da altura de uma pessoa. Até o poço faltam quinhentos metros, e o plano não tinha árvore nenhuma.

Pare aqui um segundo e responda como se você fosse o Seu Benedito. O caminho do plano acabou num tronco de dois metros. O que você faz com oito pessoas cansadas?

Três saídas e um porquê

O Seu Benedito vê três saídas. A primeira saída é passar por cima do tronco, que está liso, e o casal de aposentados podia cair. A segunda saída é voltar, e ninguém chegaria ao poço. A terceira saída é um desvio pela beira do riacho, que o Seu Benedito conhece dos tempos da serraria, e que custa quarenta minutos a mais.

Antes de escolher, o Seu Benedito volta aos motivos da primeira parada. A Noemi e a filha querem nadar no poço, e o casal quer chegar. O desvio serve aos dois motivos. A subida do Cláudio ao mirante, que já tinha ficado para depois do almoço, sai do dia, porque os quarenta minutos do desvio ocupam o tempo que era da subida. O Cláudio reclama, e o Seu Benedito diz que o mirante fica para a próxima trilha, e que hoje o motivo do grupo é o poço.

O Seu Benedito amarra a fita no galho, para a Rute e para os próximos grupos, e avisa a sede do parque pelo rádio que a trilha está fechada pela árvore. O caminho mudou, e o motivo da trilha continuou o mesmo.

O Seu Benedito trocou o caminho em cinco minutos, porque sabia por que o grupo estava ali.

O trecho que a empresa cancelou

Em setembro, a Lia ia começar o segundo trecho do plano: levar a remarcação para todas as clínicas, com a sessão dupla que tinha ficado de fora em agosto. Na primeira semana de setembro, a empresa decidiu juntar o time de agendamento ao time de cobrança por três meses, para trocar o sistema de cobrança antigo. O segundo trecho da Lia acabou numa árvore caída.

A primeira reação da Lia foi achar que o plano inteiro não servia mais. Depois, a Lia voltou ao porquê e ao ponto no mapa. O porquê era levar uma solução inteira, conversando com quem usa. No ponto no mapa, a cobrança aparecia como a parte do sistema que a Lia só fazia com ajuda.

O desvio da Lia

A Lia refez o trecho com a Joana. No time de cobrança, a Lia pediu uma parte pequena que desse para levar inteira: a fatura que as clínicas recebem todo mês, de que o suporte mais ouvia reclamação. Os marcos novos eram conversar com cinco clínicas sobre a fatura em setembro, apresentar a fatura nova em outubro e colocar a fatura no ar em novembro.

O desvio levou a Lia exatamente à cobrança, a parte do mapa que a Lia ainda só fazia com ajuda. Refazer o plano é trocar o caminho e manter o porquê, e desistir é trocar o porquê porque o caminho mudou. A remarcação para todas as clínicas voltou para o plano em dezembro, como o terceiro trecho.

A cobrança fechou o caminho da remarcação, e abriu o caminho para a parte do trabalho que a Lia ainda só fazia com ajuda.

Como refazer o plano

Quando o caminho do plano acaba

Quatro perguntas para refazer o plano sem perder a bússola

As quatro perguntas cabem nos cinco minutos do Seu Benedito na frente da árvore, e poupam semanas esperando tudo assentar para fazer um plano novo.

1. O que mudou de verdade, e o que continua igual?

Mudou o caminho da remarcação. Continuaram iguais o porquê, o ponto no mapa e os três meses do trecho.

2. O meu porquê continua valendo?

Se o porquê continua, o plano não falhou. Se o porquê mudou, a conversa é outra, e começa de novo pelo capítulo do motivo da trilha.

3. Que caminho novo serve ao mesmo porquê?

O desvio pela beira do riacho chegava ao mesmo poço. A fatura da cobrança levava a Lia a uma solução inteira, como a remarcação.

4. O que eu aviso, e a quem?

O Seu Benedito avisou a sede do parque e marcou o desvio com a fita. Conte ao líder o trecho novo, com os marcos novos.

O plano que muda com o mesmo porquê continua sendo o mesmo plano.

prática

Levar para a entrevista

Três perguntas sobre mudar o caminho e manter o porquê.
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Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: mostrar que você nunca muda de ideia, para parecer firme. Só que nenhuma das três perguntas está medindo a sua firmeza. As três estão medindo se você sabe o que manter quando o caminho muda.

“O que você faria se o projeto em que você entrou fosse cancelado no primeiro mês?”

A pergunta parece um teste de humor, e mede se você tem um porquê que sobrevive ao projeto.

O que quem entrevista quer ouvir
  • O que você manteria
  • Como você procuraria o próximo trecho
  • Um caso em que algo parecido aconteceu
O que derruba
  • Dizer que ia procurar outro emprego
  • Dizer que ia esperar alguém decidir por você
  • Dizer que um cancelamento não aconteceria com você
Boa resposta

“Uma coisa parecida aconteceu comigo. A empresa juntou o meu time a outro por três meses, e o trecho que eu tinha planejado parou. O meu motivo era levar uma solução inteira, conversando com quem usa. No time novo, eu pedi a fatura das clínicas, conversei com cinco clínicas, e a fatura nova foi ao ar em novembro.”

Resposta ruim

“Eu ficaria chateado, mas faria o que mandassem.”

Fazer o que mandam sem porquê nenhum entrega o caminho inteiro à sorte, e quem entrevista não ouve o que você levaria para o projeto seguinte.

“Como você sabe a diferença entre insistir e teimar?”

Esta pergunta mede se você sabe quando o caminho ainda leva ao porquê, e quando parou de levar.

Boa direção
  • Dizer o que você confere para decidir
  • Contar uma vez em que insistiu e deu certo
  • Contar uma vez em que parou e foi melhor
Direção ruim
  • Dizer que nunca desiste
  • Dizer que muda sempre que fica difícil
  • Responder sem nenhum caso
Boa resposta

“Eu confiro se o caminho ainda leva ao motivo. Na recepção da clínica, eu insisti meses para a dona da clínica me deixar testar a confirmação por mensagem, porque as faltas não paravam de subir. Depois, eu quis manter um caderno de recados que ninguém mais lia, por costume, e larguei quando vi que os recados já estavam no sistema.”

Resposta ruim

“Eu insisto até o fim. Não sou de largar as coisas.”

A resposta não separa a insistência que leva ao porquê da teimosia que leva a lugar nenhum. Quem entrevista não sabe quando você pararia.

“O que você mantém igual quando tudo muda na empresa?”

A pergunta procura saber se você tem uma bússola que não depende da empresa.

O avaliador técnico quer ver
  • Um jeito de trabalhar que você leva para qualquer time
  • Um exemplo de mudança grande
  • O que você entregou durante a mudança
O avaliador de pessoas quer ver
  • Que você continua cuidando das pessoas na mudança
  • Que você não depende de tudo parado para trabalhar
  • Que você sabe o seu porquê
Boa resposta

“Eu mantenho o costume de conversar com quem usa antes de mudar alguma coisa. Quando o meu time mudou de assunto por três meses, eu passei de agenda para cobrança, e a primeira coisa que fiz foi ligar para cinco clínicas sobre a fatura. A fatura nova reduziu à metade as ligações ao suporte sobre cobrança.”

Resposta ruim

“O meu salário.”

A resposta pode ser verdadeira e não diz nada sobre como você trabalha, que é o que quem entrevista queria saber.

prática

Levar para o trabalho

Três situações em que o caminho muda no meio.
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Uma decisão da empresa cancelou o próximo trecho do seu plano

Essa situação é a árvore caída da Lia. O erro comum é esperar tudo assentar para fazer outro plano, e passar três meses sem trecho nenhum.

O que ajuda
  • Separar o que mudou do que continua igual
  • Procurar no caminho novo um trecho que sirva ao seu porquê
  • Propor o trecho novo ao líder na mesma semana
O que atrapalha
  • Esperar tudo assentar
  • Reclamar da decisão com o time
  • Jogar o plano inteiro fora
O que dizer

“Joana, com o nosso time junto do time de cobrança até novembro, a remarcação para todas as clínicas fica para dezembro. O meu porquê continua sendo levar uma solução inteira. Posso pegar a fatura das clínicas? Em setembro eu converso com cinco clínicas, e em novembro a fatura nova vai ao ar.”

A fala mostra que o porquê ficou e propõe o caminho novo, com marcos, na mesma semana da mudança.

Você insiste num caminho que já não leva ao seu porquê

Essa situação é a teimosia que parece persistência. O erro comum é continuar porque já investiu muito no caminho.

O que ajuda
  • Perguntar se o caminho ainda leva ao porquê
  • Contar o que você já investiu, sem deixar a conta decidir sozinha
  • Pedir a opinião de alguém que vê de fora
O que atrapalha
  • Continuar porque já investiu muito
  • Esconder do líder que o caminho perdeu o sentido
  • Largar sem olhar o que dá para aproveitar
O que dizer

Para a Joana: “Eu passei dois meses estudando a ferramenta de relatórios que o time ia adotar. O time desistiu da ferramenta, e eu continuei mais três semanas, porque já tinha investido muito. A ferramenta não me leva a nenhuma solução inteira. Vou parar e usar as noites para entender a cobrança.”

O tempo investido entra na conta, e o porquê decide para onde vai o próximo mês.

Um colega diz que você muda de ideia demais

Essa situação incomoda, porque parece acusação de falta de firmeza. O erro comum é se defender, ou parar de mudar para não ouvir de novo.

O que ajuda
  • Contar o porquê que ficou igual
  • Mostrar o que mudou e por que mudou
  • Perguntar ao colega se a mudança atrapalhou o trabalho dele
O que atrapalha
  • Se defender sem explicar
  • Parar de mudar para não ouvir de novo
  • Ignorar o colega
O que dizer

“Mudei o caminho duas vezes este ano, e o motivo continuou o mesmo: levar uma solução inteira, conversando com quem usa. A remarcação parou por causa da cobrança, e a fatura entrou no lugar. A troca da remarcação pela fatura atrapalhou alguma coisa do seu lado?”

Mostrar o porquê que ficou igual transforma a mudança de ideia numa mudança de caminho.

O que muda daqui em diante

O plano que mudou
Antes
Um plano que não servia
Agora
Um caminho novo para o mesmo porquê
Mudar de caminho
Antes
Desistir
Agora
Seguir a bússola por outra trilha
Esperar tudo assentar
Antes
Prudência
Agora
Três meses sem trecho nenhum
O tempo já investido
Antes
Motivo para continuar
Agora
Uma parte da conta, que o porquê decide

Às onze e vinte, o grupo chegou ao poço pela beira do riacho, quarenta minutos depois do plano, e a filha da Noemi foi a primeira a entrar na água.