A árvore caída
Refazer o plano quando o caminho muda, sem perder o porquê


O capítulo do bambuzal terminou com a Noemi e a filha seguindo na frente, procurando as faixas de tinta. Meio quilômetro antes do poço, as faixas levaram o grupo a uma árvore enorme caída no meio da trilha. Este capítulo mostra o que o Seu Benedito faz quando o caminho do plano acaba, e o que a Lia fez quando a empresa cancelou o próximo trecho do plano dela.
Você monta um plano com cuidado, e no segundo mês alguma coisa muda: a empresa troca a prioridade, o curso fecha, a vida em casa aperta. Você olha o plano e conclui que o plano não servia, ou que você não serve para planos.
O caminho pode mudar no meio da trilha, e o porquê continua sendo a bússola.
A árvore da noite de chuva
Na trilha da imagem que abre este capítulo, uma árvore enorme está caída de través, com as raízes arrancadas para o alto. Ao lado do tronco, o guia de chapéu amarra uma fita, em verde, num galho baixo, no começo de uma trilha estreita que contorna a árvore pela beira de um riacho. O grupo observa o tronco, e o chão está molhado.
O guia é o Seu Benedito. A árvore caiu na chuva da noite anterior, e o tronco, molhado e liso, passa da altura de uma pessoa. Até o poço faltam quinhentos metros, e o plano não tinha árvore nenhuma.
Pare aqui um segundo e responda como se você fosse o Seu Benedito. O caminho do plano acabou num tronco de dois metros. O que você faz com oito pessoas cansadas?
Três saídas e um porquê
O Seu Benedito vê três saídas. A primeira saída é passar por cima do tronco, que está liso, e o casal de aposentados podia cair. A segunda saída é voltar, e ninguém chegaria ao poço. A terceira saída é um desvio pela beira do riacho, que o Seu Benedito conhece dos tempos da serraria, e que custa quarenta minutos a mais.
Antes de escolher, o Seu Benedito volta aos motivos da primeira parada. A Noemi e a filha querem nadar no poço, e o casal quer chegar. O desvio serve aos dois motivos. A subida do Cláudio ao mirante, que já tinha ficado para depois do almoço, sai do dia, porque os quarenta minutos do desvio ocupam o tempo que era da subida. O Cláudio reclama, e o Seu Benedito diz que o mirante fica para a próxima trilha, e que hoje o motivo do grupo é o poço.
O Seu Benedito amarra a fita no galho, para a Rute e para os próximos grupos, e avisa a sede do parque pelo rádio que a trilha está fechada pela árvore. O caminho mudou, e o motivo da trilha continuou o mesmo.
O Seu Benedito trocou o caminho em cinco minutos, porque sabia por que o grupo estava ali.
O trecho que a empresa cancelou
Em setembro, a Lia ia começar o segundo trecho do plano: levar a remarcação para todas as clínicas, com a sessão dupla que tinha ficado de fora em agosto. Na primeira semana de setembro, a empresa decidiu juntar o time de agendamento ao time de cobrança por três meses, para trocar o sistema de cobrança antigo. O segundo trecho da Lia acabou numa árvore caída.
A primeira reação da Lia foi achar que o plano inteiro não servia mais. Depois, a Lia voltou ao porquê e ao ponto no mapa. O porquê era levar uma solução inteira, conversando com quem usa. No ponto no mapa, a cobrança aparecia como a parte do sistema que a Lia só fazia com ajuda.
O desvio da Lia
A Lia refez o trecho com a Joana. No time de cobrança, a Lia pediu uma parte pequena que desse para levar inteira: a fatura que as clínicas recebem todo mês, de que o suporte mais ouvia reclamação. Os marcos novos eram conversar com cinco clínicas sobre a fatura em setembro, apresentar a fatura nova em outubro e colocar a fatura no ar em novembro.
O desvio levou a Lia exatamente à cobrança, a parte do mapa que a Lia ainda só fazia com ajuda. Refazer o plano é trocar o caminho e manter o porquê, e desistir é trocar o porquê porque o caminho mudou. A remarcação para todas as clínicas voltou para o plano em dezembro, como o terceiro trecho.
A cobrança fechou o caminho da remarcação, e abriu o caminho para a parte do trabalho que a Lia ainda só fazia com ajuda.
Como refazer o plano
Quatro perguntas para refazer o plano sem perder a bússola
As quatro perguntas cabem nos cinco minutos do Seu Benedito na frente da árvore, e poupam semanas esperando tudo assentar para fazer um plano novo.
Mudou o caminho da remarcação. Continuaram iguais o porquê, o ponto no mapa e os três meses do trecho.
Se o porquê continua, o plano não falhou. Se o porquê mudou, a conversa é outra, e começa de novo pelo capítulo do motivo da trilha.
O desvio pela beira do riacho chegava ao mesmo poço. A fatura da cobrança levava a Lia a uma solução inteira, como a remarcação.
O Seu Benedito avisou a sede do parque e marcou o desvio com a fita. Conte ao líder o trecho novo, com os marcos novos.
O plano que muda com o mesmo porquê continua sendo o mesmo plano.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas sobre mudar o caminho e manter o porquê.abrir
Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: mostrar que você nunca muda de ideia, para parecer firme. Só que nenhuma das três perguntas está medindo a sua firmeza. As três estão medindo se você sabe o que manter quando o caminho muda.
“O que você faria se o projeto em que você entrou fosse cancelado no primeiro mês?”
A pergunta parece um teste de humor, e mede se você tem um porquê que sobrevive ao projeto.
- O que você manteria
- Como você procuraria o próximo trecho
- Um caso em que algo parecido aconteceu
- Dizer que ia procurar outro emprego
- Dizer que ia esperar alguém decidir por você
- Dizer que um cancelamento não aconteceria com você
“Uma coisa parecida aconteceu comigo. A empresa juntou o meu time a outro por três meses, e o trecho que eu tinha planejado parou. O meu motivo era levar uma solução inteira, conversando com quem usa. No time novo, eu pedi a fatura das clínicas, conversei com cinco clínicas, e a fatura nova foi ao ar em novembro.”
“Eu ficaria chateado, mas faria o que mandassem.”
Fazer o que mandam sem porquê nenhum entrega o caminho inteiro à sorte, e quem entrevista não ouve o que você levaria para o projeto seguinte.
“Como você sabe a diferença entre insistir e teimar?”
Esta pergunta mede se você sabe quando o caminho ainda leva ao porquê, e quando parou de levar.
- Dizer o que você confere para decidir
- Contar uma vez em que insistiu e deu certo
- Contar uma vez em que parou e foi melhor
- Dizer que nunca desiste
- Dizer que muda sempre que fica difícil
- Responder sem nenhum caso
“Eu confiro se o caminho ainda leva ao motivo. Na recepção da clínica, eu insisti meses para a dona da clínica me deixar testar a confirmação por mensagem, porque as faltas não paravam de subir. Depois, eu quis manter um caderno de recados que ninguém mais lia, por costume, e larguei quando vi que os recados já estavam no sistema.”
“Eu insisto até o fim. Não sou de largar as coisas.”
A resposta não separa a insistência que leva ao porquê da teimosia que leva a lugar nenhum. Quem entrevista não sabe quando você pararia.
“O que você mantém igual quando tudo muda na empresa?”
A pergunta procura saber se você tem uma bússola que não depende da empresa.
- Um jeito de trabalhar que você leva para qualquer time
- Um exemplo de mudança grande
- O que você entregou durante a mudança
- Que você continua cuidando das pessoas na mudança
- Que você não depende de tudo parado para trabalhar
- Que você sabe o seu porquê
“Eu mantenho o costume de conversar com quem usa antes de mudar alguma coisa. Quando o meu time mudou de assunto por três meses, eu passei de agenda para cobrança, e a primeira coisa que fiz foi ligar para cinco clínicas sobre a fatura. A fatura nova reduziu à metade as ligações ao suporte sobre cobrança.”
“O meu salário.”
A resposta pode ser verdadeira e não diz nada sobre como você trabalha, que é o que quem entrevista queria saber.
práticaLevar para o trabalho
Três situações em que o caminho muda no meio.abrir
Uma decisão da empresa cancelou o próximo trecho do seu plano
Essa situação é a árvore caída da Lia. O erro comum é esperar tudo assentar para fazer outro plano, e passar três meses sem trecho nenhum.
- Separar o que mudou do que continua igual
- Procurar no caminho novo um trecho que sirva ao seu porquê
- Propor o trecho novo ao líder na mesma semana
- Esperar tudo assentar
- Reclamar da decisão com o time
- Jogar o plano inteiro fora
“Joana, com o nosso time junto do time de cobrança até novembro, a remarcação para todas as clínicas fica para dezembro. O meu porquê continua sendo levar uma solução inteira. Posso pegar a fatura das clínicas? Em setembro eu converso com cinco clínicas, e em novembro a fatura nova vai ao ar.”
A fala mostra que o porquê ficou e propõe o caminho novo, com marcos, na mesma semana da mudança.
Você insiste num caminho que já não leva ao seu porquê
Essa situação é a teimosia que parece persistência. O erro comum é continuar porque já investiu muito no caminho.
- Perguntar se o caminho ainda leva ao porquê
- Contar o que você já investiu, sem deixar a conta decidir sozinha
- Pedir a opinião de alguém que vê de fora
- Continuar porque já investiu muito
- Esconder do líder que o caminho perdeu o sentido
- Largar sem olhar o que dá para aproveitar
Para a Joana: “Eu passei dois meses estudando a ferramenta de relatórios que o time ia adotar. O time desistiu da ferramenta, e eu continuei mais três semanas, porque já tinha investido muito. A ferramenta não me leva a nenhuma solução inteira. Vou parar e usar as noites para entender a cobrança.”
O tempo investido entra na conta, e o porquê decide para onde vai o próximo mês.
Um colega diz que você muda de ideia demais
Essa situação incomoda, porque parece acusação de falta de firmeza. O erro comum é se defender, ou parar de mudar para não ouvir de novo.
- Contar o porquê que ficou igual
- Mostrar o que mudou e por que mudou
- Perguntar ao colega se a mudança atrapalhou o trabalho dele
- Se defender sem explicar
- Parar de mudar para não ouvir de novo
- Ignorar o colega
“Mudei o caminho duas vezes este ano, e o motivo continuou o mesmo: levar uma solução inteira, conversando com quem usa. A remarcação parou por causa da cobrança, e a fatura entrou no lugar. A troca da remarcação pela fatura atrapalhou alguma coisa do seu lado?”
Mostrar o porquê que ficou igual transforma a mudança de ideia numa mudança de caminho.
O que muda daqui em diante
Às onze e vinte, o grupo chegou ao poço pela beira do riacho, quarenta minutos depois do plano, e a filha da Noemi foi a primeira a entrar na água.