O que fica dentro do carro
O que não se cola numa ferramenta de inteligência artificial, e como resolver sem colar


O capítulo do túnel terminou com o GPS voltando a mostrar o caminho duas ruas depois da saída. Na rua seguinte, uma senhora fez sinal para o táxi. Este capítulo mostra o que o Seu Ademir faz com o que ouve dentro do carro, e o que a Lia quase colou na ferramenta numa tarde de pressa.
Um problema só acontece com os dados de um cliente, e o prazo é hoje. Você tem a tabela inteira na tela, e colar a tabela na ferramenta resolveria em cinco minutos. Você pensa que a ferramenta é só um programa, e que ninguém vai ler o que você colou.
O que você cola numa ferramenta sai da sua mão, e você não sabe por onde o que você colou vai passar.
A senhora do envelope
No banco de trás do táxi da imagem que abre este capítulo, uma senhora fala ao celular e segura no colo um envelope grande de exame, em verde. No banco da frente, o motorista olha para a rua, com as duas mãos no volante.
A senhora fez sinal para o Seu Ademir na rua seguinte à saída do túnel. A senhora fala com a filha o caminho inteiro, em voz alta.
Em vinte minutos, o Seu Ademir fica sabendo do resultado do exame, do nome do médico, do remédio novo, do endereço da senhora e de uma briga antiga com o irmão.
Pare aqui um segundo e responda como se você fosse o Seu Ademir. O que você faz com tudo o que ouviu dentro do carro?
O grupo dos taxistas
O Seu Ademir não faz nada com o que ouviu. Os taxistas do ponto de táxi do Seu Ademir têm um grupo de mensagens no celular, e alguns colegas contam no grupo as corridas curiosas do dia, com detalhes. O Seu Ademir lê o grupo e nunca conta nada de passageiro.
O Seu Ademir tem uma regra desde o primeiro ano de táxi: o que o passageiro fala no carro fica no carro.
O Seu Ademir sabe que uma história contada no grupo passa para outros grupos, e que o bairro é pequeno. Uma história mandada para o grupo deixa de ser do Seu Ademir, e ninguém consegue trazer a história de volta.
A senhora desceu em casa sem saber o que o Seu Ademir tinha ouvido, e o que o Seu Ademir ouviu ficou no carro.
A tabela de trezentas consultas
Numa terça-feira de agosto, uma clínica reclamou que a agenda de um paciente aparecia errada. A Lia exportou a agenda da clínica daquela semana, com trezentas consultas, e cada consulta trazia o nome do paciente, o telefone e o tipo de tratamento.
A Lia selecionou a tabela inteira para colar no assistente de inteligência artificial e pedir que a ferramenta achasse o erro.
A Lia parou antes de colar. No primeiro dia de trabalho, a empresa tinha explicado que o assistente estava liberado para o código, e que dado de paciente não entra em nenhuma ferramenta.
O capítulo da lista de passageiros, na seção do metrô, já mostrou que a lei protege os dados pessoais. Os dados de saúde, como o tipo de tratamento, são os mais protegidos de todos.
Uma ferramenta de inteligência artificial é um serviço de outra empresa, que recebe o que você manda em outro computador. O que você manda para o computador da outra empresa segue regras que você não controla.
Colar dados de pessoas numa ferramenta é contar a história do passageiro no grupo dos taxistas, mesmo quando ninguém parece estar lendo.
A tabela de trezentas consultas ficou na tela da Lia, porque os pacientes da tabela nunca autorizaram a viagem.
Vinte consultas inventadas
A Lia olhou o paciente da reclamação e anotou o que a consulta dele tinha de diferente: a consulta tinha sido remarcada duas vezes no mesmo dia.
A Lia montou uma tabela com vinte consultas inventadas, com nomes como Paciente Um e Paciente Dois e telefones de mentira, e repetiu a remarcação dupla numa das vinte. O mercado chama esse tipo de tabela de dados de teste (test data).
Com a tabela inventada, o erro apareceu do mesmo jeito: a segunda remarcação não liberava o horário da primeira, e o paciente ficava com dois horários ocupados na agenda.
A Lia colou a tabela inventada na ferramenta, consertou o código com um teste e respondeu à clínica no fim da tarde. A tabela inventada levou quinze minutos para ficar pronta.
Quinze minutos de dados inventados resolveram o problema sem tirar do carro a história de ninguém. A Lia guardou a tabela no projeto, para o próximo teste de agenda.
Como resolver sem tirar a história do carro
Quatro perguntas que deixam no carro o que é do passageiro
As quatro perguntas levam um minuto e poupam a empresa de explicar a um paciente por que o tratamento dele foi parar numa ferramenta.
Se o texto tiver um desses dados, o texto não vai para a ferramenta. Dado de saúde, de dinheiro ou de criança pede ainda mais cuidado.
Senha, contrato, número de cliente e a chave de acesso, que é a senha que um programa usa para entrar em outro sistema (API key), também ficam no carro. Apague ou troque esses dados antes de colar.
O assistente da Lia estava liberado para o código, e não para os dados dos pacientes. Pergunte ao líder quando não souber.
Quase sempre o problema aparece com dados inventados. A Lia anotou o que a consulta tinha de diferente e repetiu numa tabela de vinte consultas inventadas.
A ferramenta não precisa conhecer o paciente para achar o erro, e precisa conhecer o que a consulta tinha de diferente.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas sobre o que entra e o que não entra na ferramenta.abrir
Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: recitar a lei de proteção de dados. Só que nenhuma das três perguntas está medindo se você decorou a lei. As três estão medindo se você protege as pessoas na hora da pressa, como o Seu Ademir deixa no carro o que o passageiro conta.
“O que você nunca colaria numa ferramenta de inteligência artificial?”
A pergunta parece de regra, e mede se você reconhece um dado de alguém quando ele está na sua tela.
- Dado que identifica uma pessoa
- Segredo da empresa, como senha e contrato
- Como você resolve o problema sem colar esses dados
- Dizer que cola tudo, porque a ferramenta é segura
- Dizer que não usa ferramenta nenhuma, por medo
- Responder só com o nome da lei
“Eu não colo nada que identifique uma pessoa, nem segredo da empresa. Numa tarefa, pedi à ferramenta que achasse um erro num arquivo de configuração, e o arquivo tinha a chave de acesso do sistema de mensagens. Troquei a chave por um texto qualquer antes de colar. A ferramenta achou o erro igual, e a troca me custou dois minutos.”
“Se a ferramenta for paga, eu colo tudo.”
A ferramenta ser paga não muda de quem é o dado, e quem entrevista ouve uma pessoa que decide pelo paciente sem perguntar a ninguém.
“Como você investiga um problema que só acontece com os dados de um cliente?”
Esta pergunta mede se você sabe separar o problema dos dados da pessoa.
- Descobrir o que aquele caso tem de diferente
- Repetir a diferença com dados inventados
- Deixar o teste com dados inventados no projeto
- Copiar os dados do cliente para o seu computador
- Mandar os dados por mensagem a um colega
- Testar no sistema de verdade, com o cliente usando
“Primeiro, eu olho o que o caso tem de diferente, sem tirar os dados de onde estão. Numa agenda, a consulta errada tinha sido remarcada duas vezes no mesmo dia. Eu montei vinte consultas inventadas, repeti a remarcação dupla numa delas, e o erro apareceu. A tabela inventada me custou quinze minutos, e ficou no projeto para o próximo teste.”
“Peço ao suporte a planilha do cliente e testo no meu computador.”
A planilha sai do lugar protegido e vai parar num computador pessoal, e o problema se resolvia sem ela.
“Você já cuidou de informação sigilosa? Como?”
A pergunta procura saber se você tem o costume de proteger o que é dos outros, antes mesmo da tecnologia.
- Um exemplo com o tipo de informação
- O que você fazia para proteger
- O que você leva desse costume para o código
- Que você entende que a informação é de outra pessoa
- Que você protege mesmo quando ninguém confere
- Que você fala do assunto com naturalidade
“Por quatro anos, na recepção de uma clínica, eu atendi telefone de gente perguntando do exame de outra pessoa. Eu só confirmava consulta com a própria pessoa, mesmo quando um parente ficava bravo do outro lado da linha. No primeiro emprego em tecnologia, eu mantive o costume, e dado de paciente não sai do sistema, nem para uma ferramenta.”
“Nunca precisei cuidar de informação sigilosa, porque eu só mexia com código.”
Quase todo código mexe com a informação de alguém, e a resposta mostra uma pessoa que ainda não reparou nisso.
práticaLevar para o trabalho
Três situações em que os dados de alguém estão a um colar de distância.abrir
O problema só aparece com os dados de verdade
Essa situação é a tabela de trezentas consultas na tela, com o prazo para hoje. O erro comum é colar a tabela inteira na ferramenta para ganhar tempo.
- Anotar o que o caso tem de diferente
- Montar dados inventados com a mesma diferença
- Guardar os dados inventados no projeto
- Colar a tabela de verdade na ferramenta
- Trocar só os nomes e deixar telefone e tratamento
- Desistir de usar a ferramenta no problema
Para a ferramenta: “Esta tabela tem vinte consultas inventadas. A consulta do Paciente Sete foi remarcada duas vezes no mesmo dia, e depois disso o paciente aparece em dois horários ocupados. Ache o erro no código que faz a remarcação.”
O pedido traz a diferença que importa e nenhum dado de paciente, e a ferramenta acha o erro do mesmo jeito.
Você colou na ferramenta uma coisa que não devia
Essa situação acontece com quem está com pressa, uma vez ou outra, e quase sempre com um arquivo copiado inteiro. O erro comum é apagar a conversa com a ferramenta e ficar quieto, torcendo para ninguém perceber.
- Avisar o líder no mesmo dia
- Dizer exatamente o que foi colado
- Seguir o que a empresa manda fazer nesses casos
- Apagar a conversa e não contar
- Diminuir o que foi colado
- Esperar para ver se alguém percebe
“Joana, eu colei na ferramenta, sem querer, um pedaço do arquivo de configuração com a chave de acesso do sistema de mensagens. Eu colei o arquivo às três e dez. Acho que a chave precisa ser trocada. O que eu faço agora?”
Quem avisa no mesmo dia dá ao time tempo de trocar a chave, e quem esconde deixa a chave aberta sem ninguém saber.
Um colega cola dados de clientes na ferramenta para ganhar tempo
Essa situação é o colega que conta a corrida no grupo dos taxistas. O erro comum é fingir que não viu, ou dar bronca na frente do time.
- Falar com o colega em particular
- Mostrar o jeito dos dados inventados
- Oferecer ajuda para montar os dados de teste
- Fingir que não viu
- Dar bronca na frente do time
- Contar ao chefe antes de falar com o colega
Em particular: “Vi que você colou a planilha dos pacientes na ferramenta. Dado de paciente não pode ir para a ferramenta, e a empresa explicou essa regra no primeiro dia. Eu tenho uma tabela de consultas inventadas que repete quase tudo. Quer que eu te mostre?”
A fala traz a regra sem bronca e oferece a tabela pronta, e o colega troca de jeito sem perder o prazo.
A conversa em particular protege os pacientes e o colega ao mesmo tempo.
O que muda daqui em diante
A senhora desceu em casa com o envelope no colo, e a Lia guardou no projeto a tabela de vinte consultas inventadas.