Sem sinal no túnel
Continuar aprendendo enquanto usa a ferramenta, para saber o caminho quando o sinal cai


O capítulo da avenida do córrego terminou com a moça da mala chegando ao aeroporto pelo morro, com tempo para despachar a mala. Na volta do aeroporto, sem passageiro, o Seu Ademir pegou o túnel novo da avenida para voltar ao ponto de táxi da praça. Este capítulo mostra o que sobra para o motorista quando o GPS fica mudo, e o que sobrou para a Lia na manhã em que a ferramenta saiu do ar.
Você usa a ferramenta para tudo, e as tarefas saem mais rápido a cada semana. Um dia, você abre uma tarefa nova e percebe que não sabe por onde começar sem perguntar à ferramenta. Você pensa que depender da ferramenta para começar é normal agora, porque a ferramenta está sempre ali.
O que você entrega com a ferramenta fica no projeto, e o que você aprende com a ferramenta fica com você.
O túnel novo da avenida
No táxi da imagem que abre este capítulo, as mãos do motorista seguram o volante dentro de um túnel. O celular no painel mostra uma tela parada, sem rota. Mais à frente, ainda dentro do túnel e perto do fim, a pista se divide em três saídas, cada uma entrando numa boca escura. No chão da faixa da direita há uma seta pintada, em verde.
O Seu Ademir conhece bem o túnel novo da avenida, aberto no ano passado, com pouco mais de um quilômetro. Quase sempre, o GPS avisa qual saída pegar antes de o carro entrar no túnel.
Nesta volta do aeroporto, o celular perdeu o sinal antes do aviso, e o GPS congelou no último ponto que conhecia. As três saídas aparecem em duzentos metros, perto do fim do túnel, e o GPS só volta a calcular quando o carro já saiu do túnel.
Pare aqui um segundo e responda como se você fosse o motorista. O GPS está mudo e as três saídas estão chegando. Como você sabe qual saída pegar?
O que o Seu Ademir aprendeu com o GPS
O Seu Ademir pega a saída da direita sem pensar duas vezes. Nas primeiras semanas depois da abertura do túnel, o Seu Ademir passou por ali seguindo o aviso do GPS, e prestou atenção em cada saída.
O Seu Ademir reparou que a saída da direita leva ao bairro da praça, a do meio ao centro, e a da esquerda volta para a avenida. Na quarta vez, o Seu Ademir já sabia o caminho sem o GPS.
O Seu Ademir tem dois costumes. Antes de uma corrida para um lugar novo, o Seu Ademir olha o caminho inteiro no mapa por trinta segundos.
Durante a corrida, quando o GPS escolhe uma rua que o Seu Ademir não usaria, o Seu Ademir se pergunta por que o GPS foi por ali. O GPS ensinou ao Seu Ademir os caminhos novos da cidade, porque o Seu Ademir prestava atenção no caminho enquanto seguia o GPS.
Muitos motoristas passam pelo mesmo túnel todo dia esperando só o aviso do GPS. Esses motoristas pegam a saída certa enquanto o aviso chega, e erram a saída no dia em que o sinal cai antes do aviso.
O Seu Ademir usa o GPS todo dia e continua conhecendo a cidade, porque presta atenção no caminho que o GPS escolhe.
Duas linhas antes de pedir
Depois da tarefa dos horários livres, a Lia criou um costume parecido com o do Seu Ademir. Antes de pedir uma tarefa à ferramenta, a Lia escreve em duas linhas como faria sozinha.
Quando a resposta da ferramenta chega, a Lia compara. Quando a ferramenta faz de um jeito que a Lia não conhece, a Lia pede à ferramenta que explique por que fez daquele jeito, e anota num caderno o que aprendeu.
O costume custa uns dez minutos por tarefa. Em dois meses, o caderno da Lia tinha quarenta e poucas anotações, como o jeito de juntar duas agendas numa só e o motivo de guardar a hora junto com a data.
Usar a ferramenta como extensão do raciocínio é pensar antes, comparar depois e guardar a diferença.
A manhã sem a ferramenta
Numa quinta-feira de julho, o assistente de inteligência artificial da empresa ficou fora do ar a manhã inteira, o que acontece de vez em quando com qualquer serviço.
Às nove horas, uma clínica ligou para o suporte. A agenda mostrava o mesmo horário livre duas vezes para uma fisioterapeuta que atende em duas unidades da mesma rede. O Vagner estava de férias.
A Lia abriu o código dos horários livres, que conhecia linha por linha, e achou o problema em quarenta minutos. O código juntava as agendas das duas unidades sem perceber que era a mesma fisioterapeuta, e mostrava o mesmo horário livre uma vez por unidade.
A Lia escreveu um teste com a fisioterapeuta das duas unidades, consertou o código, e a Joana revisou antes das onze.
O que a Lia aprendeu usando a ferramenta ficou com a Lia quando a ferramenta saiu do ar. O conserto daquela quinta-feira saiu do caderno, das duas linhas e das conferências das semanas anteriores.
Na manhã sem sinal, a Lia pegou a saída certa porque tinha prestado atenção nas outras vezes.
Como conhecer a cidade enquanto segue o GPS
Quatro perguntas que fazem a ferramenta ensinar o caminho
As quatro perguntas acrescentam uns dez minutos a cada tarefa, e poupam você do dia em que o sinal cai e você não sabe sair do túnel.
Duas linhas bastam. A Lia escreve como faria sozinha antes de abrir a ferramenta, mesmo quando o jeito dela está incompleto.
A diferença entre as duas respostas é onde mora o aprendizado. Se as duas respostas forem iguais, você já sabia o caminho.
O Seu Ademir se pergunta por que o GPS foi por uma rua. A Lia pergunta à ferramenta por que o código foi escrito daquele jeito.
O caderno da Lia tinha quarenta e poucas anotações em dois meses. O que não é anotado some na semana seguinte.
A ferramenta pode responder por você todo dia, e só ensina a quem presta atenção no caminho.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas sobre aprender com a ferramenta, e não só entregar com ela.abrir
Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: falar do que a ferramenta faz, e não do que você aprendeu. Só que nenhuma das três perguntas está medindo se você usa ou não usa a ferramenta. As três estão medindo se você continua aprendendo enquanto usa a ferramenta, como o Seu Ademir continua conhecendo a cidade enquanto segue o GPS.
“Como você aprende uma coisa nova hoje, com a inteligência artificial por perto?”
A pergunta parece sobre a ferramenta, e mede se você tem um jeito de aprender que não depende só de perguntar.
- Que você tenta pensar antes de pedir
- Que você pergunta por que, e não só como
- Que você guarda o que aprende
- Dizer que pergunta tudo à ferramenta
- Dizer que nunca usa a ferramenta
- Não ter um exemplo concreto
“Na minha primeira tarefa, escrevi em duas linhas como eu faria antes de pedir à ferramenta. A ferramenta juntou duas agendas de um jeito novo para mim, e pedi que a ferramenta explicasse por quê e anotei num caderno. O costume me custa uns dez minutos por tarefa, e em dois meses o caderno chegou a quarenta e poucas anotações.”
“Pergunto para a inteligência artificial, que explica melhor que qualquer curso.”
A resposta descreve a ferramenta ensinando, e não diz o que a pessoa faz para aprender. Quem entrevista não sabe se sobra alguma coisa quando a ferramenta sai do ar.
“O que você faria se a ferramenta saísse do ar no meio de um problema urgente?”
Esta pergunta mede se você conhece o seu trabalho o bastante para continuar sem a ferramenta.
- Contar como você acharia o problema no código
- Dizer a quem você pediria ajuda
- Contar uma vez em que a ferramenta saiu do ar
- Dizer que esperaria a ferramenta voltar
- Dizer que procuraria outra ferramenta e mais nada
- Dizer que a ferramenta nunca sai do ar
“Numa quinta-feira, a ferramenta ficou fora do ar a manhã inteira, e uma clínica ligou com horário duplicado na agenda. Eu conhecia o código dos horários linha por linha, achei o problema em quarenta minutos, escrevi um teste e consertei. A líder do time revisou antes das onze.”
“Esperaria a ferramenta voltar.”
A clínica esperaria junto. Quem entrevista ouve que o trabalho para quando a ferramenta para.
“Me conta de uma coisa que a ferramenta te ensinou.”
A pergunta procura saber se você usa a ferramenta para aprender, e se sabe dizer o que aprendeu.
- Uma coisa técnica concreta
- O porquê da coisa, e não só o como
- Onde você usou depois
- Que você pergunta quando não sabe
- Que você reconhece de onde veio o aprendizado
- Que você explica em palavras simples
“A ferramenta guardou a hora das consultas junto com a data, e eu teria guardado separado. Perguntei por quê, e a ferramenta explicou que a data e a hora, separadas, se confundem quando a consulta passa da meia-noite ou muda de fuso. Anotei, e usei a mesma ideia uma semana depois, no horário de chegada dos pacientes.”
“A ferramenta me ensinou a programar mais rápido.”
Mais rápido não é uma coisa que se aprende, e quem entrevista não ouve nenhum conhecimento que ficou com a pessoa.
práticaLevar para o trabalho
Três situações em que o aprendizado decide o que sobra quando o sinal cai.abrir
A ferramenta resolveu de um jeito que você nunca viu
Essa situação é o GPS escolhendo uma rua que você não usaria. O erro comum é aceitar e seguir para a próxima tarefa, sem saber por que a ferramenta foi por ali.
- Pedir à ferramenta que explique por que escolheu aquele jeito
- Comparar com o jeito que você tinha pensado
- Anotar a diferença
- Aceitar sem entender
- Trocar pelo seu jeito só porque é o seu
- Deixar para entender depois
Para a ferramenta: “Eu teria guardado a data e a hora em dois campos separados. Por que você juntou a data e a hora num campo só? Em que caso o meu jeito daria problema?”
A pergunta transforma a resposta pronta numa aula de cinco minutos, e a resposta vai para o caderno.
A ferramenta saiu do ar no meio da tarefa
Essa situação acontece com qualquer serviço, uma hora ou outra, e costuma chegar no meio de um problema urgente. O erro comum é parar tudo e esperar a ferramenta voltar, sem avisar ninguém de que o trabalho parou.
- Voltar às duas linhas do seu jeito
- Consultar as suas anotações e a documentação
- Pedir ajuda a um colega se o assunto for urgente
- Esperar a ferramenta voltar sem avisar ninguém
- Trocar por outra ferramenta sem contar o contexto
- Esconder do time que o trabalho parou
“Joana, a ferramenta está fora do ar desde as oito. Estou seguindo a tarefa da agenda pelas minhas anotações, e devo terminar o conserto até as onze. Se a clínica ligar de novo antes disso, me chama.”
A mensagem conta o que parou, o que continua e quando termina, e a Joana não precisa perguntar.
Você percebeu que não consegue começar uma tarefa sem a ferramenta
Essa situação chega devagar, sem aviso. O erro comum é achar que depender da ferramenta é normal e deixar a dependência como está, ou largar a ferramenta de vez por culpa.
- Começar uma tarefa por semana com vinte minutos sem a ferramenta
- Usar a ferramenta depois, para comparar
- Contar ao líder o que você está treinando
- Fingir que não percebeu
- Largar a ferramenta de vez
- Fazer tudo sem a ferramenta e atrasar o time
Para a Joana: “Percebi que eu abro a ferramenta antes de pensar. Uma tarefa por semana, eu vou passar os primeiros vinte minutos sem a ferramenta, e depois comparar com o jeito da ferramenta. O treino pode ser na tarefa menor da semana, para não atrasar nada.”
A fala avisa a Joana antes de a Joana perceber, e o treino cabe numa tarefa pequena, sem atrasar o time.
Vinte minutos sem a ferramenta por semana mantêm você conhecendo a cidade.
O que muda daqui em diante
O Seu Ademir saiu do túnel pela direita, e o GPS só voltou a mostrar o caminho duas ruas depois.