O endereço que o passageiro não disse
Pedir à inteligência artificial com contexto: para quem é, o que já existe, as regras e como fica pronto


O capítulo do avião terminou lembrando que, depois de escolher o avião, ainda é preciso dizer o destino a quem vai levar você até lá. Este capítulo entra num táxi e mostra o que acontece quando o passageiro diz só o nome da rua.
Você pede a uma ferramenta de inteligência artificial uma tela de cadastro, e a resposta vem bonita e inútil. A tela usa outra linguagem, pede campos que ninguém precisa e esquece o campo que o seu chefe pediu. Você conclui que a ferramenta é ruim, ou que existe uma frase mágica que você ainda não aprendeu.
A ferramenta só sabe do seu problema o que você escreve no pedido.
Rua das Flores, por favor
No táxi da imagem que abre este capítulo, as mãos de um motorista seguram o volante. No painel, o celular preso no suporte mostra o mapa da cidade com três alfinetes em lugares diferentes, e um dos três está em verde. Pelo para-brisa aparece uma rua de manhã cedo.
As mãos são do Seu Ademir, taxista há trinta e um anos na mesma cidade, que usa o GPS do celular há seis anos. Às seis e quarenta de uma terça-feira, um senhor entra no táxi e pede a Rua das Flores. O Seu Ademir digita o nome no celular, e o GPS mostra três Ruas das Flores na cidade, uma em cada bairro. A Rua das Flores mais perto fica a doze minutos.
Pare aqui um segundo e responda como se você fosse o Seu Ademir. Você escolhe a Rua das Flores mais perto e sai dirigindo, ou pergunta alguma coisa antes?
Perto de quê, e para fazer o quê
O Seu Ademir pergunta. O Seu Ademir quer saber se a Rua das Flores fica perto de alguma coisa, e o que o senhor vai fazer lá. O senhor responde que vai ao hospital fazer um exame de sangue às sete e meia, em jejum.
Com a resposta, a corrida muda. O hospital fica na Rua das Flores do outro lado da cidade, a vinte e cinco minutos, e não na Rua das Flores mais perto. O Seu Ademir também sabe que a entrada dos exames fica na rua de trás do hospital, e não na porta principal. O GPS teria levado o senhor para o bairro errado, ou para a porta errada do lugar certo.
O nome da rua era só o endereço, e o exame das sete e meia era o destino. O GPS sabe chegar a qualquer uma das três ruas. O GPS só não sabe de qual das três ruas o passageiro precisa, e o Seu Ademir descobriu com duas perguntas.
O GPS chega a qualquer endereço, e o Seu Ademir descobre qual endereço o passageiro precisa.
O primeiro pedido da Lia
Na segunda semana de trabalho, a Joana, líder do time de agendamento, passou à Lia a primeira tarefa para a Lia fazer sozinha. A tarefa dizia uma linha: mostrar os horários livres de cada fisioterapeuta na tela da recepção.
A Lia abriu o assistente de inteligência artificial e escreveu um pedido parecido com a tarefa: uma tela que mostra horários livres. A resposta veio em segundos, com uma tela bonita e uma explicação educada. A tela usava uma linguagem que o projeto não usa, mostrava horários de meia em meia hora, das oito às dezoito, de segunda a domingo, e servia para qualquer agenda do mundo.
Nada da resposta encaixava. As clínicas do programa fazem sessões de cinquenta minutos, com dez minutos entre uma e outra. Cada fisioterapeuta tem um horário próprio, e quase todas as clínicas fecham no sábado à tarde. A Lia tinha pedido o nome da rua.
A ferramenta acertou o pedido da Lia, e o pedido da Lia servia para qualquer clínica.
O pedido com o destino dentro
A Lia escreveu o pedido de novo, com quatro partes. A primeira parte dizia para quem era a tela: a recepcionista, que atende o telefone com uma mão e marca a consulta com a outra. A segunda parte dizia o que já existia: o arquivo do projeto onde a agenda é lida, e o jeito como o projeto monta as telas. A terceira parte trazia as regras das sessões de cinquenta minutos, do intervalo de dez e do almoço de cada fisioterapeuta. A quarta parte mostrava como a tela ficava pronta, com o exemplo de uma terça-feira de uma clínica de verdade, com os nomes trocados.
A resposta nova chegou perto do que a recepção precisava. A Lia ajustou duas coisas e mostrou a tela à Joana no fim da tarde. O mercado chama o texto que você escreve para a ferramenta de prompt, e chama o que você conta sobre o problema de contexto (context). Um pedido com contexto diz à ferramenta para quem é, o que já existe, quais são as regras e como fica pronto.
A Lia escreveu um pedido bom porque já tinha sido a recepcionista com o telefone na outra mão. Os quatro anos de recepção da Lia viraram a parte do pedido que nenhuma ferramenta sabia.
A Lia escreveu o pedido bom porque passou quatro anos marcando consulta com o telefone na mão.
Como dizer o destino
Quatro perguntas que transformam o nome da rua num destino
As quatro perguntas levam cinco minutos e poupam você de passar a tarde com respostas bonitas que não servem para o seu projeto.
A recepcionista com o telefone na mão precisa de uma tela diferente da tela de um gerente. Escreva quem vai usar e como essa pessoa trabalha.
A ferramenta não conhece o seu projeto. Mostre o arquivo onde a mudança entra e o jeito como o projeto já faz coisas parecidas.
As sessões de cinquenta minutos e o intervalo de dez eram regras que a Lia sabia e a ferramenta não sabia. Escreva as regras do negócio, mesmo as que parecem óbvias para você.
Um exemplo concreto, como a terça-feira de uma clínica, mostra à ferramenta o resultado esperado melhor que um parágrafo de explicação.
O pedido com as quatro respostas leva a ferramenta à porta certa, e o pedido com o nome da rua leva a qualquer porta.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas sobre pedir com contexto, à ferramenta e às pessoas.abrir
Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: falar da ferramenta, dos truques e das frases certas. Só que nenhuma das três perguntas está medindo o que você sabe sobre a ferramenta. As três estão medindo se você sabe o que precisa ser feito, e se você sabe contar o destino a quem vai fazer o trabalho, como o passageiro que diz ao Seu Ademir aonde vai.
“Uma ferramenta de inteligência artificial te deu uma resposta genérica. O que você faz?”
A pergunta parece técnica, e mede se você procura o que faltou no seu pedido antes de culpar a ferramenta.
- Que você relê o seu pedido
- O que faltava no pedido
- Como ficou a resposta depois
- Culpar a ferramenta
- Pedir de novo com as mesmas palavras
- Usar a resposta genérica assim mesmo
“A resposta genérica apareceu na minha primeira tarefa. Pedi uma tela de horários livres, e veio uma agenda de meia em meia hora que servia para qualquer lugar. Reli o pedido e vi que eu não tinha dito para quem era a tela, nem as regras das sessões de cinquenta minutos. Escrevi de novo com isso, e a segunda resposta precisou de dois ajustes.”
“Eu troco de ferramenta, porque essa não é boa.”
Trocar de ferramenta com o mesmo pedido leva ao mesmo lugar errado, e quem entrevista ouve alguém que não olha o próprio trabalho.
“Que informação você daria a um colega novo para ele fazer esta tarefa?”
Esta pergunta mede se você sabe passar o contexto de uma tarefa, para uma pessoa ou para uma ferramenta.
- Dizer para quem é o resultado
- Mostrar o que já existe
- Contar as regras que só quem conhece o negócio sabe
- Dizer que o colega descobre sozinho
- Mandar só o nome da tarefa
- Explicar tudo do sistema, sem foco na tarefa
“Quando um colega novo pegou uma tarefa da recepção, eu contei como a recepcionista trabalha, com o telefone numa mão e a tela na outra. Mostrei o arquivo onde a agenda é lida e as três regras das sessões. Também dei o exemplo de uma terça-feira cheia. O colega terminou em dois dias, sem me chamar.”
“Eu mandaria o link da tarefa. O resto o colega descobre.”
A resposta deixa o colega no táxi com o nome da rua. Quem entrevista entende que o seu colega vai gastar dias descobrindo o que você sabia.
“O que você conta à ferramenta sobre o projeto antes de pedir código?”
A pergunta procura saber se você trata a ferramenta como alguém que chegou hoje no projeto.
- Que você mostra o código que já existe
- Que você diz a linguagem e o jeito do projeto
- Que você dá um exemplo do resultado esperado
- Que você entende quem vai usar o resultado
- Que você conhece as regras do negócio
- Que você explica o problema em português claro
“Eu conto à ferramenta o que eu contaria a uma pessoa que chegou hoje. Para o relatório de faltas de uma clínica, eu mostrei à ferramenta um relatório que o projeto já tinha e a regra de que falta avisada não conta. A resposta veio no jeito do projeto, e juntar os exemplos me custou meia hora antes de pedir.”
“Nada. A ferramenta é inteligente, ela entende.”
A ferramenta inteligente sem contexto escreve um código bom para outro projeto, e alguém do time gasta horas encaixando o código no projeto de verdade.
práticaLevar para o trabalho
Três situações em que o pedido mal contado custa o dia.abrir
O pedido ficou do tamanho do sistema inteiro
Essa situação aparece em quem já aprendeu que contexto ajuda. O erro comum é mandar à ferramenta o projeto inteiro e a história do sistema desde o começo, e esperar que a ferramenta ache sozinha a parte que importa.
- Mandar só os arquivos que a tarefa toca
- Dizer à ferramenta o que não pode mudar
- Escrever as regras da tarefa, e não a história do sistema
- Mandar o projeto inteiro para garantir
- Contar a história do sistema desde o começo
- Misturar duas tarefas no mesmo pedido
Para a ferramenta: “Esta tarefa mexe só na tela de horários livres da recepção. Os dois arquivos que importam são o da agenda e o da tela de horários, colados abaixo. As sessões têm cinquenta minutos, com dez de intervalo. Nenhum outro arquivo do sistema deve mudar.”
A fala dá à ferramenta o destino e as regras, e deixa de fora o que a tarefa não toca. O Seu Ademir precisou saber do exame das sete e meia, e não do mapa da cidade inteira.
A ferramenta respondeu com um código que não combina com o projeto
Essa situação acontece quando a ferramenta não sabe nada do projeto. O erro comum é reescrever o código à mão para encaixar, ou trocar o projeto para caber no código.
- Mostrar à ferramenta um arquivo parecido do projeto
- Dizer a linguagem e o jeito que o projeto usa
- Pedir de novo com o exemplo junto
- Encaixar o código à força
- Trazer para o projeto um pacote de código de fora, a biblioteca (library), só porque a resposta usava esse pacote
- Desistir da ferramenta na primeira resposta
Para a ferramenta: “O projeto já tem uma tela parecida, neste arquivo. Siga o mesmo jeito de montar a tela e de ler a agenda. Não use nenhuma biblioteca que este arquivo não usa.”
O exemplo do próprio projeto vale mais que três parágrafos de explicação, e a resposta volta no jeito que o time já conhece.
Um colega diz que a ferramenta “não entende nada”
Essa situação é a chance de ajudar sem dar aula. O erro comum é concordar e reclamar junto, ou fazer a tarefa no lugar do colega.
- Pedir para ver o pedido que o colega escreveu
- Perguntar o que o colega sabe e não escreveu
- Deixar o colega escrever o pedido novo
- Reclamar junto da ferramenta
- Escrever o pedido no lugar do colega
- Dizer que o colega não sabe usar
“Me mostra o que você pediu? A tarefa é para a recepção de qual clínica? Essa informação não está no pedido. Coloca o nome da clínica e o exemplo de um dia, e vê o que volta.”
O colega escreve o pedido novo sozinho, e na próxima tarefa já lembra de dizer à ferramenta para qual clínica é.
A pergunta pelo que faltou no pedido ajuda mais o colega do que a resposta pronta.
O que muda daqui em diante
O senhor do exame desceu na porta dos exames às sete e dez, vinte minutos antes do horário.