Avião ou navio?
Saber para que uma coisa serve antes de saber como ela é feita


A abertura desta seção terminou dizendo que saber o que precisa existir vem antes de pedir à ferramenta. Este capítulo começa por uma viagem, com uma pergunta que quase todo mundo acerta sem ser especialista em nada.
Você vê uma lista de tecnologias numa vaga, ou ouve um colega comparar duas ferramentas, e pensa que não tem direito a opinião. Você acha que, para escolher entre duas coisas, precisa saber fazer as duas por dentro.
Você não precisa saber construir uma coisa para saber quando ela serve.
A viagem para a Europa
Na imagem que abre este capítulo, um mapa-múndi mostra um navio grande no meio do oceano Atlântico, com a espuma da água atrás dele. Acima do navio, um avião, em verde, voa da América do Sul para a Europa e deixa uma linha tracejada entre os dois continentes.
Imagine que você precisa sair de São Paulo e chegar à Europa do jeito mais rápido e mais barato possível. O carro nem entra na conversa, porque carro não atravessa o oceano.
Pare aqui um segundo e responda como se fosse você viajando. Você vai de avião ou de navio?
Quem respondeu navio
Quase todo mundo responde avião. Quando alguém responde navio, vale olhar o navio de perto. O navio vai pela água, muito mais devagar, e a viagem leva dias. Durante esses dias, os passageiros precisam comer e dormir, e o navio precisa de cozinha, de camareiras, de limpeza, de saneamento e até de entretenimento.
Com essas características na mesa, quem respondeu navio muda de ideia rapidinho. A resposta certa é avião. Bastaram algumas características para a pessoa ajustar a decisão, e ninguém precisou ensinar a pessoa a pilotar nada.
Quem respondeu navio não precisou de uma aula de navegação, e sim de duas ou três características do navio.
Você é engenheiro aeronáutico?
Depois que todo mundo concorda com o avião, vem a segunda pergunta: você é engenheiro aeronáutico, ou engenheiro naval? A resposta é não.
Mesmo assim, você escolheu a solução mais adequada. Você não precisou saber construir um avião nem um navio para chegar à resposta certa. Você precisou saber para que o avião e o navio servem, o que cada um dos dois custa e o que cada um dos dois exige. Numa sala de aula, é nesse momento que as pessoas sorriem, porque a pergunta que parecia de especialista era de bom senso.
A escolha certa veio de saber para que o avião serve, e não de saber como o avião voa.
Com tecnologia é a mesma coisa
Você não precisa dominar uma tecnologia em profundidade para saber quando a tecnologia deve ser usada. Para escolher, você precisa entender cinco coisas sobre a tecnologia. A primeira é por que a tecnologia foi criada, e a segunda são as características dela. As outras três são os problemas que a tecnologia resolve, os que ela não resolve e os que ela pode causar.
Só depois de entender essas cinco coisas faz sentido estudar a tecnologia a fundo, e só se o projeto ou o seu objetivo pedirem. No capítulo da construção civil, você viu que vale estudar a coisa certa no momento certo. A história do avião e do navio acrescenta uma regra sobre a ordem do estudo. Primeiro você entende o que a tecnologia faz e por que ela existe, e depois você aprende como ela funciona por dentro. Você não precisa carregar a pressão de ser especialista em tudo.
A ferramenta que sabe o como
Na época da inteligência artificial, a ordem entre entender o que fazer e aprender como fazer pesa ainda mais. A inteligência artificial sabe muito bem como fazer. A ferramenta escreve com a mesma facilidade o código de uma solução do tamanho do avião e o de uma solução do tamanho do navio. Se ninguém disser para onde a viagem vai e com que pressa, a ferramenta pode montar um navio caprichado quando a viagem pedia um avião.
Por isso, saber o porquê nunca valeu tanto. Hoje existem ferramentas especialistas em executar, e o mercado continua precisando de pessoas que saibam o que precisa ser feito. A ordem do trabalho fica assim: primeiro, entender o que fazer, e depois, aprender a fundo como fazer.
A ferramenta constrói o avião ou o navio, e quem escolhe a viagem ainda é uma pessoa.
Como escolher sem saber construir
Cinco perguntas que escolhem o avião sem saber construir um avião
As cinco perguntas cabem numa folha e poupam você de estudar a fundo uma tecnologia que o problema nem pede. O exemplo é uma confeitaria pequena que quer receber encomendas pela internet.
Um formulário de encomendas na internet foi criado para juntar pedidos num lugar só. Um aplicativo feito do zero foi criado para quem precisa de coisas que nenhum produto pronto oferece.
O formulário fica pronto numa tarde e não custa nada. O aplicativo leva meses, precisa de alguém para manter e custa caro.
O formulário resolve as encomendas perdidas no meio das mensagens, que é o problema da confeitaria.
O formulário não cobra o cliente sozinho. Se a confeitaria precisar receber o pagamento na hora, a escolha da tecnologia volta para a mesa, agora com o pagamento junto.
O aplicativo feito do zero pode deixar a confeitaria dependente de uma pessoa que sabe mexer nele. O navio também chega à Europa, e chega com a conta da cozinha.
Quem responde as cinco perguntas sabe quando pedir o avião, mesmo sem saber construir um.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas sobre saber o que fazer antes de saber como fazer.abrir
Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: fingir que você conhece tudo a fundo, para parecer preparado. Só que nenhuma das três perguntas está medindo quantas tecnologias você domina. As três estão medindo se você sabe para que as coisas servem, como quem escolhe o avião sem ser engenheiro.
“O que você sabe sobre uma tecnologia que ainda não usou?”
A pergunta parece uma armadilha para pegar quem não sabe, e mede se você entende para que uma coisa serve antes de saber usar.
- Por que a tecnologia foi criada
- Um problema que a tecnologia resolve e um que ela não resolve
- Que você diz com clareza que ainda não usou
- Fingir que já usou
- Repetir o nome das funções sem saber para que servem
- Dizer que não sabe nada sobre a tecnologia
“Eu nunca usei um banco de dados de documentos (document database). No controle de estoque da loja do meu pai, li que esse tipo de banco foi criado para dados que mudam de forma o tempo todo. O estoque tinha sempre os mesmos campos, então fiquei com uma tabela comum e deixei para depois a tecnologia que todo mundo comentava.”
“Já usei, sim.” (E a pessoa nunca usou.)
A segunda pergunta de quem entrevista descobre o fingimento, e a vaga se perde por uma mentira que nem era necessária.
“Quando você não deixaria a ferramenta decidir?”
Esta pergunta mede se você sabe separar o que a ferramenta faz bem do que continua sendo uma decisão sua.
- Dizer que o que precisa existir é decisão sua
- Contar uma vez em que você perguntou a quem ia usar
- Dizer o que você deixou de fora, e por quê
- Dizer que a ferramenta decide melhor que você
- Dizer que você nunca usa a ferramenta, para não errar
- Falar só de como pedir, e não do que decidir
“Eu não deixo a ferramenta decidir o que precisa existir. Fiz a lista de presença de um grupo de corrida, e a ferramenta sugeriu cadastro com foto e uma classificação dos corredores. O organizador só queria saber quem vinha no sábado. Deixei de fora a classificação, que eu tinha vontade de fazer, e a lista ficou pronta numa noite.”
“Quando a ferramenta não tem certeza, aí eu decido.”
A resposta deixa a decisão com a ferramenta sempre que a ferramenta parece segura, e a ferramenta parece segura até quando erra.
“Você já desistiu de usar uma tecnologia que estava estudando? Por quê?”
A pergunta procura saber se você escolhe pela necessidade do problema ou pela vontade de usar o que está na moda.
- Um problema que a tecnologia causaria
- A comparação entre o que o projeto pedia e o que a tecnologia oferecia
- A escolha que você fez no lugar
- Que você aceita deixar de lado o que estudou
- Que você não escolhe para se exibir
- Que você explica a decisão sem jargão
“Desisti. Eu estava estudando uma tecnologia para fazer aplicativo de celular e queria usar no controle de estoque da loja do meu pai. O meu pai só usava o computador do balcão, e o aplicativo ia exigir publicar na loja do celular e manter duas versões. Fiz uma página simples que abre no navegador do balcão, e o meu pai usa a página até hoje.”
“Nunca desisti de nenhuma. Gosto de usar tudo o que aprendo.”
Quem usa tudo o que aprende escolhe o navio só porque estudou navio, e quem entrevista enxerga um projeto maior e mais caro do que o problema pedia.
práticaLevar para o trabalho
Três situações em que entender para que uma coisa serve vale mais que saber construir.abrir
O time pede que você compare duas soluções que você nunca usou
Essa situação é o avião e o navio no trabalho, e costuma chegar como um pedido para a reunião de sexta. O erro comum é passar a semana num tutorial de cada solução e chegar sem recomendação.
- Responder as cinco perguntas para cada uma das duas soluções
- Pôr as respostas das duas soluções lado a lado numa folha
- Recomendar uma solução e dizer o que ainda falta saber
- Fazer o curso completo das duas soluções antes de opinar
- Comparar a lista de funções, e não o problema do projeto
- Entregar a comparação sem recomendar nenhuma solução
“Eu nunca usei nenhuma das duas soluções, então comparei as duas pelas cinco perguntas. As duas soluções mandam o aviso de cobrança, e só a segunda solução exige um computador nosso, que alguém precisa manter. Para os duzentos clientes de hoje, eu escolheria a primeira solução. Falta o preço por mensagem, e eu confirmo o preço até quinta.”
A fala traz a recomendação, o motivo e o que ainda falta saber. Ninguém precisou virar especialista nas duas soluções para chegar lá, do mesmo jeito que ninguém precisou ser engenheiro para escolher o avião.
A ferramenta de inteligência artificial propôs uma solução enorme para um problema pequeno
Essa situação é o navio para uma viagem curta. O erro comum é aceitar a solução grande porque ela veio pronta e parece profissional.
- Lembrar qual era o problema
- Perguntar à ferramenta pela solução mais simples que resolve
- Mostrar ao time as duas opções, com o custo de cada uma
- Aceitar a solução grande porque está pronta
- Jogar fora a ideia sem olhar o que ela traz de bom
- Decidir sozinho sem contar ao time
“A ferramenta sugeriu criar um serviço novo, com banco de dados próprio, só para mandar o lembrete de aniversário dos clientes. O lembrete cabe numa tarefa que roda uma vez por dia no sistema que já existe. Eu faria pela tarefa diária. Vocês concordam?”
O time decide com as duas opções na mesa, e a viagem curta não ganha cozinha, camareira e entretenimento.
Um colega experiente defende uma tecnologia que você não conhece
Essa situação parece um lugar onde você não tem nada a dizer. O erro comum é ficar quieto, ou discordar sem saber do que se trata.
- Perguntar que problema a tecnologia resolve aqui
- Perguntar que problema a tecnologia pode causar
- Anotar a resposta para estudar depois
- Ficar quieto por achar que não pode perguntar
- Discordar sem saber para que a tecnologia serve
- Concordar sem entender
“Eu não conheço essa tecnologia. Que problema essa tecnologia resolve no nosso caso, e que problema ela pode trazer para quem vai manter o sistema daqui a um ano?”
A fala não discute a escolha do colega, e mesmo assim põe na mesa o que a tecnologia vai custar a quem fica com ela.
A pergunta sobre o problema que a tecnologia pode causar é a pergunta do navio, e qualquer pessoa do time pode fazer.
O que muda daqui em diante
Quem sabe aonde quer chegar escolhe o avião, e ainda precisa dizer o destino a quem vai levar você até lá.