A freguesa que trouxe a vizinha

A rede de contatos e a indicação: as pessoas indicam o que viram você fazer

A frente de uma barraca de feira, de manhã. Duas mulheres chegam juntas à barraca, de sacola no braço. Uma das duas mulheres segura um caqui na mão aberta e mostra a fruta para a outra, que olha com atenção, com a mão no queixo. O caqui é desenhado em verde, o único elemento colorido da imagem. Atrás da bancada, uma feirante olha para as duas, com as mãos apoiadas num caixote. Em volta há caixotes de fruta e de verdura, uma balança e o toldo da barraca. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.A frente de uma barraca de feira, de manhã. Duas mulheres chegam juntas à barraca, de sacola no braço. Uma das duas mulheres segura um caqui na mão aberta e mostra a fruta para a outra, que olha com atenção, com a mão no queixo. O caqui é desenhado em verde, o único elemento colorido da imagem. Atrás da bancada, uma feirante olha para as duas, com as mãos apoiadas num caixote. Em volta há caixotes de fruta e de verdura, uma balança e o toldo da barraca. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.
A vizinha veio porque a freguesa tinha uma coisa verdadeira para contar, o caqui que durou até quarta.

O capítulo do caqui terminou com a freguesa nova saindo da barraca lembrando do caqui que dura até quarta. Este capítulo mostra o sábado em que a freguesa volta à barraca com a vizinha, e o caminho que levou a Lia, depois de meses de procura, a uma entrevista marcada.

Você ouve que a maioria das vagas é preenchida por indicação, e desanima. Você não tem parente na área, não estudou numa faculdade conhecida e não conhece ninguém que trabalha em empresa de tecnologia.

Indicação é coisa de quem tem padrinho.
Pedir indicação é pedir favor, e eu tenho vergonha.
Quanto mais gente eu adicionar no perfil, mais chance eu tenho.
Ninguém vai indicar uma pessoa que ainda está começando.

Quem indica você conta o que viu você fazer, e ninguém conta o que nunca viu.

O caqui na mão da freguesa

Na frente da barraca da imagem que abre este capítulo, duas mulheres chegam juntas, de sacola no braço. Uma das duas segura um caqui na mão aberta, em verde, e mostra a fruta para a outra. Atrás da bancada, a feirante olha para as duas, com as mãos apoiadas num caixote.

A feirante é a Dona Zilda, e a mulher do caqui é a freguesa do capítulo anterior, a Dona Celeste. No sábado anterior, a Dona Celeste comprou o caqui que a Dona Zilda disse que ia durar até quarta. O caqui durou até quarta, e a Dona Celeste contou isso à vizinha no portão.

Neste sábado, a vizinha veio junto.

Pare aqui um segundo e responda como se você fosse a Dona Zilda. O que você fez para a vizinha estar na sua barraca, se você nunca pediu que ninguém trouxesse ninguém?

A barraca que manda freguês para a barraca do lado

A Dona Zilda não pediu nada à Dona Celeste. A Dona Zilda fez três coisas que faz toda semana há vinte e seis anos. A Dona Zilda disse uma coisa que dava para conferir, que o caqui durava até quarta, e a coisa se confirmou em casa. A Dona Zilda guardou o nome da freguesa nova e, neste sábado, chamou a Dona Celeste pelo nome. E, quando a vizinha pediu abacate, a Dona Zilda disse que o abacate bom daquela semana estava na barraca do Seu Toninho, duas barracas para baixo.

O Seu Toninho faz o mesmo. Quando falta coentro na barraca dele, o Seu Toninho manda o freguês para a Dona Zilda. Os feirantes que mandam freguês uns para os outros recebem freguês de volta, e a feira inteira fica mais confiável para quem compra.

A Dona Celeste trouxe a vizinha porque tinha uma coisa verdadeira para contar, o caqui que durou até quarta. Na seção 4, o capítulo do jantar mostrou que quem indica empresta uma parte da própria confiança. A Dona Celeste só emprestou a confiança dela porque já tinha provado o caqui.

A vizinha chegou pela boca da Dona Celeste, que contou do caqui que durou até quarta.

A lista de vinte mensagens da Lia

No começo da procura, antes de arrumar o currículo, a Lia adicionou vinte pessoas de empresas de tecnologia no perfil profissional e mandou a mesma mensagem para todas. A mensagem dizia que a Lia procurava a primeira vaga e perguntava se a empresa estava contratando. Duas pessoas responderam que não, e as outras dezoito não responderam.

A Lia achou que o problema era não conhecer ninguém. O problema era outro. As vinte pessoas não tinham visto nada que a Lia fez, e ninguém indica uma pessoa de quem só conhece o pedido.

A mensagem que pede vaga a quem nunca viu o seu trabalho é o grito do corredor, mandado vinte vezes.

O programador do terceiro texto

Meses depois, a rede de contatos (networking) da Lia era outra, e menor. A rede tinha o Vagner, o programador que comentou o terceiro texto de sexta-feira. A rede também tinha o rapaz do encontro de programadores, a moça que a Lia ajudou a instalar o programa de banco de dados no segundo encontro, e duas colegas da turma de estudo da noite.

A Lia nunca pediu vaga ao Vagner. Uma vez por mês, a Lia mandava ao Vagner um texto novo ou uma pergunta sobre o programa, e o Vagner respondia quando podia. Numa segunda-feira de abril, o Vagner mandou à Lia o link de uma vaga do time dele, que faz o programa de agendamento de várias clínicas. O Vagner perguntou se podia indicar a Lia.

A Lia disse que sim, e perguntou ao Vagner o que o time fazia no dia a dia. Com a resposta, a Lia trocou a primeira linha do currículo para falar das consultas confirmadas e da recepção. O Vagner mandou o currículo à recrutadora com duas frases. As frases diziam que o Vagner acompanhava os textos da Lia havia três meses, e que a Lia tinha feito sozinha um programa de confirmação que uma clínica usa até hoje.

Na quinta-feira, a recrutadora ligou para marcar uma entrevista na terça seguinte. A indicação (referral) é alguém contando a uma empresa o que viu você entregar, e o Vagner tinha visto três meses de entregas pequenas.

A Lia chegou à entrevista pela mão do Vagner, que contou à recrutadora os três meses de textos que tinha lido.

Como fazer a freguesa trazer a vizinha

Antes de pedir uma indicação

Quatro perguntas que separam quem viu o seu trabalho de quem só recebeu um pedido

As quatro perguntas cabem numa tarde, e poupam você de mandar a mesma mensagem pedindo vaga para mais vinte pessoas.

1. Quem já viu alguma coisa que eu fiz?

O Vagner leu os textos da Lia. As vinte pessoas da primeira lista não tinham visto nada. Comece pela lista curta de quem já viu o seu trabalho.

2. O que quem já viu o meu trabalho contaria de mim, se alguém perguntasse?

A Dona Celeste contaria do caqui que durou até quarta. Se você não sabe o que a pessoa contaria, ela ainda não viu o bastante para indicar você.

3. O que eu já dei à minha rede de contatos, além de pedido?

A Dona Zilda manda freguês para o Seu Toninho, e a Lia ajudou a moça do segundo encontro. Uma rede de contatos em que você só pede acaba depressa.

4. Eu mantenho a conversa sem pedir nada a cada mensagem?

A Lia mandou ao Vagner um texto por mês durante três meses, sem pedir vaga. Quando a vaga apareceu, o Vagner lembrou da Lia sem precisar ser lembrado.

A indicação chega para quem deixou pessoas verem o trabalho, e não para quem tem a lista de contatos mais comprida.

prática

Levar para a entrevista

Três perguntas sobre como você chegou até a vaga e quem você conhece.
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Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: parecer bem relacionado, citando gente importante. Só que nenhuma das três perguntas está medindo quantas pessoas você conhece. As três estão medindo o que essas pessoas viram você fazer, e o que você faz por elas, como as barracas que mandam freguês umas para as outras.

“Como você ficou sabendo desta vaga?”

A pergunta parece burocrática, e mede se alguém já tinha visto o seu trabalho antes de você chegar.

O que quem entrevista quer ouvir
  • Como você conheceu a pessoa que indicou
  • O que essa pessoa viu do seu trabalho
  • Por que a vaga combina com você
O que derruba
  • Dizer que mandou currículo para todas as vagas
  • Citar alguém da empresa que mal conhece você
  • Não saber nada sobre o time da vaga
Boa resposta

“O Vagner, do time de agendamento, me mandou o link. A gente se conheceu há três meses, quando o Vagner comentou um texto meu sobre mensagens de confirmação que iam duas vezes. Desde então eu mando ao Vagner o que estou fazendo. Antes de aceitar a indicação, perguntei o que o time fazia, e foi aí que a vaga fez sentido.”

Resposta ruim

“Vi num site de vagas. Estou mandando para todas.”

“Estou mandando para todas” diz que esta vaga não tem nada de especial para você, e quem entrevista entende que a empresa também não tem.

“Você participa de alguma comunidade da área?”

Esta pergunta mede se você aprende com outras pessoas, e se dá alguma coisa em troca.

Boa direção
  • Dizer onde você participa e com que frequência
  • Contar uma coisa que aprendeu lá
  • Contar uma vez em que ajudou alguém lá
Direção ruim
  • Listar os grupos de que você faz parte sem participar
  • Dizer que não tem tempo para isso
  • Contar só o que você recebeu
Boa resposta

“Eu fui a quatro encontros de programadores na biblioteca do meu bairro, que acontecem uma vez por mês. No segundo, ajudei uma moça que estava começando a instalar o banco de dados, porque eu tinha apanhado com a mesma coisa. No terceiro, um rapaz me mostrou como ele testa o código antes de publicar, e eu passei a fazer igual.”

Resposta ruim

“Estou em uns dez grupos de programação no celular.”

Estar no grupo não mostra nada. Quem entrevista quer ouvir uma coisa que você fez dentro do grupo.

“Você já indicou alguém para um trabalho?”

A pergunta procura saber se você entende o peso de uma indicação, pelo lado de quem indica.

O avaliador técnico quer ver
  • Que você indicou pelo que viu a pessoa fazer
  • Que você disse com honestidade o que a pessoa sabia
  • Que você acompanhou o resultado
O avaliador de pessoas quer ver
  • Que você ajuda quem está começando
  • Que você não indica qualquer um para agradar
  • Que você entende que a indicação leva o seu nome junto
Boa resposta

“Já. Na clínica, a recepção precisou de mais uma pessoa, e eu indiquei uma colega de outro emprego que eu vi atender cliente com calma por dois anos. Eu disse à gerente que a minha colega era ótima no atendimento e que ia precisar de ajuda com o sistema de agenda. A colega ficou três anos na clínica.”

Resposta ruim

“Indiquei vários amigos, mas nenhum foi chamado.”

A indicação de quem indica todo mundo perde o peso, e a resposta não diz o que você viu nenhum desses amigos fazer.

prática

Levar para o trabalho

Três situações de pedir, receber e dar uma indicação.
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Você quer pedir uma indicação a alguém que conhece pouco

Essa situação vai aparecer quando surgir uma vaga na empresa de alguém que você só conhece de um comentário ou de um encontro. O erro comum é mandar o currículo e pedir que a pessoa indique.

O que ajuda
  • Lembrar a pessoa de onde vocês se conhecem
  • Pedir uma conversa sobre o time antes da indicação
  • Deixar a pessoa à vontade para dizer não
O que atrapalha
  • Mandar só o currículo e o link da vaga
  • Pedir a indicação na primeira mensagem
  • Insistir quando a pessoa não responde
O que dizer

“Oi, Renata. A gente conversou no encontro de março, sobre testes. Vi que o seu time abriu uma vaga para quem está começando. Você teria dez minutos esta semana para me contar como é o trabalho do time? Quero entender se combina comigo antes de me candidatar.”

A mensagem não pede a indicação. A conversa sobre o time mostra à Renata como você pensa, e a Renata decide sozinha se quer indicar você.

Alguém indicou você, e você não foi chamado

Essa situação é frequente, e a forma de tratar a pessoa que indicou decide se ela indica você de novo. O erro comum é sumir.

O que ajuda
  • Agradecer a indicação, mesmo sem resultado
  • Contar o que aconteceu no processo
  • Continuar a conversa que vocês já tinham
O que atrapalha
  • Sumir depois da resposta negativa
  • Culpar a empresa da pessoa
  • Pedir que a pessoa insista com a recrutadora
O que dizer

“Renata, a recrutadora me respondeu que escolheram uma pessoa com mais tempo de programação. Obrigada pela indicação, de verdade. Eu perguntei à recrutadora o que pesou, e vou estudar testes nos próximos meses. Na sexta eu te mando o texto sobre testes.”

Quem agradece e conta o resultado continua na lista de quem indica, e a próxima vaga do time pode chegar pela mesma pessoa.

Um colega de estudo pede uma indicação para uma vaga da sua empresa

Essa situação chega depois que você foi contratado. O erro comum é indicar só para não dizer não, ou recusar sem conversar.

O que ajuda
  • Indicar contando o que você viu o colega fazer
  • Dizer com honestidade o que o colega ainda não sabe
  • Avisar o colega do que você vai escrever
O que atrapalha
  • Indicar dizendo que o colega é ótimo em tudo
  • Indicar alguém de quem você não viu nenhum trabalho
  • Sumir sem responder ao pedido
O que dizer

Para a recrutadora: “Estou indicando o Wesley, que estudou comigo por um ano. Eu vi o Wesley terminar o projeto final da turma quando o grupo dele desistiu, e ele explica o código com paciência. O Wesley ainda não trabalhou em time.”

A indicação conta o que você viu o Wesley fazer e o que ainda falta ao Wesley, e a recrutadora decide com a informação inteira.

A indicação honesta protege a pessoa indicada, a empresa e o seu nome.

O que muda daqui em diante

Indicação
Antes
Coisa de quem tem padrinho
Agora
Alguém contando o que viu você entregar
A rede de contatos
Antes
Uma lista comprida
Agora
As pessoas que já viram alguma coisa que você fez
Pedir indicação
Antes
Pedir favor
Agora
Pedir uma conversa a quem já conhece o seu trabalho
Ajudar quem está começando
Antes
Tempo que você tira da sua procura
Agora
O freguês que você manda para a barraca do lado, e que um dia volta

A vizinha da Dona Celeste voltou no sábado seguinte sozinha, e na terça-feira a Lia entrou na sala da entrevista.