A conversa no balcão
Escrever sobre o que você aprende: ensinar quem está um passo atrás, e conversar com quem responde


O capítulo da manga terminou com o freguês que prova voltando no sábado seguinte. Quem volta toda semana começa a perguntar, e quem chega pela primeira vez também. Este capítulo mostra o que a Dona Zilda conta no balcão, e por que essa conversa deixa a barraca conhecida no bairro inteiro.
Você aprendeu uma coisa nova, pensou em contar, e desistiu. Você pensou que alguém mais experiente ia achar a sua descoberta óbvia, ou que você ia parecer metido.
Quem está um passo à frente consegue ensinar quem está um passo atrás, e aprende de novo ensinando.
A melancia na mão
Na barraca da imagem que abre este capítulo, uma feirante de avental segura uma melancia, em verde, e dá batidinhas na casca. Do outro lado do balcão, um rapaz de mochila presta atenção, e atrás dele duas pessoas esperam na fila, olhando também. Em volta ficam os caixotes de fruta e a balança.
A feirante é a Dona Zilda. Num sábado de dezembro, um rapaz que veio à feira pela primeira vez pergunta como saber se uma melancia está boa. A fila atrás do rapaz tem duas pessoas, e a balança está esperando.
Pare aqui um segundo e responda como se você fosse a Dona Zilda. Você gasta um minuto explicando, com a fila esperando, ou só vende a melancia?
Um minuto com a fila esperando
A Dona Zilda explica, com a melancia na mão. A Dona Zilda bate na casca e mostra o som oco, aponta a mancha amarelada da parte que encostou no chão e pede ao rapaz que bata também. A explicação leva um minuto. As duas pessoas da fila escutam e, quando chega a vez delas, também batem na melancia antes de escolher.
A Dona Zilda faz isso há vinte e seis anos. A Dona Zilda ensina a escolher o abacate maduro, a guardar o coentro num copo d'água e a saber o que está na época. Às vezes a Dona Zilda diz que o abacate daquele sábado não está bom, e que vale esperar a semana seguinte.
A Dona Zilda não sabe tudo sobre fruta. A Dona Zilda sabe o que os fregueses perguntam toda semana, porque aprendeu isso no balcão. A conversa que ensina deixa a barraca lembrada por um motivo que não é o preço. Hoje, quando alguém do bairro tem dúvida sobre fruta, a resposta é “pergunta para a Dona Zilda”.
A barraca que ensina é lembrada mesmo nos sábados em que o freguês não compra nada.
Os textos de sexta-feira da Lia
O capítulo do álbum mostrou como escrever o primeiro post sobre o que você aprende. Este capítulo trata do que vem depois do primeiro post, quando escrever vira costume.
Depois de arrumar o currículo, o perfil e o portfólio, a Lia começou a escrever um texto curto toda sexta-feira, sobre uma coisa que tinha aprendido na semana. A Lia escreve para a Lia de seis meses antes, que não sabia o que a Lia de agora sabe. O mercado chama esse costume de aprender em público (learning in public).
O terceiro texto foi sobre a mensagem de confirmação que tinha ido duas vezes para quarenta pacientes, e sobre como a Lia passou a guardar a data do envio. O texto teve sete curtidas e três comentários. Um dos três comentários era de um programador de uma empresa do bairro, com uma dica sobre como evitar o envio duplicado mesmo se o programa travasse no meio. A Lia respondeu, o programador respondeu de volta, e a conversa continuou por mensagem.
Escrever sobre o que você aprende é a conversa de balcão de quem ainda não tem barraca, e quem responde ao texto pode virar a pessoa que, mais tarde, fala de você para outras pessoas.
O texto de sete curtidas levou a Lia a uma conversa que nenhum currículo teria aberto.
Alguém do outro lado do balcão
Uma inteligência artificial explica a qualquer hora como escolher melancia, e explica bem. A ferramenta também ajuda a Lia a pôr o texto de sexta em ordem e a trocar a palavra difícil antes de publicar. O rapaz da melancia, porém, levou da feira mais que a explicação da fruta, porque a feirante parou a venda por um minuto, olhou para o rapaz e pediu que ele batesse na casca. O programador do bairro comentou um texto, e a conversa que veio depois do comentário foi com a Lia, que respondeu ao programador e continuou a troca por mensagem.
A explicação pode vir de qualquer lugar, e a conversa no balcão só acontece com alguém do outro lado.
Como conversar no balcão escrevendo
Quatro perguntas que transformam o post em conversa de balcão
As quatro perguntas cabem nos dez minutos antes de publicar, e poupam você do texto que fala de tudo e não conversa com ninguém.
A Dona Zilda explica para o rapaz que nunca escolheu melancia, e não para outro feirante. Escreva para quem está seis meses atrás de você.
Só a Lia viveu as quarenta mensagens repetidas. O detalhe vivido é o que separa o texto da Lia do texto que todo mundo pode pedir pronto.
Se a explicação precisa de palavra que você mesmo não usaria no balcão, troque a palavra. O rapaz da melancia entendeu porque bateu na casca.
A conversa com o programador começou numa resposta. O texto sem resposta aos comentários é uma barraca em que a feirante não levanta a cabeça.
O post que ensina e responde vira conversa, e a conversa deixa você conhecido pelo motivo certo.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas sobre escrever em público e o que você ganha com isso.abrir
Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: contar quantas pessoas leram ou curtiram os seus textos. Só que nenhuma das três perguntas está medindo a sua audiência. As três estão medindo se você conversa no balcão, e aprende com quem responde.
“Você escreve sobre o que aprende? Por quê?”
A pergunta parece de passatempo, e mede se você tem o costume de pensar em voz alta.
- Para quem você escreve
- Um texto que virou conversa ou aprendizado
- Que você escreve mesmo com pouca gente lendo
- Contar só o número de curtidas
- Dizer que escreve para ser visto
- Dizer que ainda não sabe o suficiente para escrever
“Escrevo um texto curto toda sexta, para quem está seis meses atrás de mim. No terceiro texto, sobre a mensagem que ia duas vezes para os pacientes, um programador de uma empresa daqui comentou com uma dica, e a gente conversou por mensagem. A dica me poupou uma semana. Tenho quinze textos, e a maioria teve menos de dez curtidas.”
“Não escrevo, porque ainda não sei o suficiente.”
Quem espera saber o suficiente nunca começa, e quem entrevista ouve uma pessoa que esconde o que aprende até ter certeza de tudo.
“Alguém já discordou de um texto seu? O que você fez?”
Esta pergunta mede como você recebe uma correção feita em público.
- Contar o que a pessoa apontou
- Contar como você conferiu se ela tinha razão
- Dizer o que mudou no texto
- Dizer que apagou o comentário
- Dizer que respondeu que no seu computador funcionava
- Dizer que parou de escrever depois disso
“Num texto sobre guardar as consultas, eu escrevi que uma planilha bastava. Um leitor comentou que a planilha ia travar com muitas consultas, e explicou o porquê. Testei com mil consultas inventadas, e o leitor tinha razão. Corrigi o texto com uma nota agradecendo, e o texto corrigido ficou melhor que o original.”
“Eu respondi que no meu computador funcionava.”
A resposta defende o texto e perde a melhor parte de escrever em público, que é alguém mais experiente corrigindo você de graça.
“O que você ganhou escrevendo, se quase ninguém curte?”
A pergunta procura saber se você mede o texto pela curtida ou pela conversa.
- Que escrever fez você entender melhor
- Que algum texto trouxe uma dica ou uma correção
- Que os textos mostram como você pensa
- Que você não depende de aplauso para continuar
- Que você conversa com quem responde
- Que você fala da curtida sem amargura
“Ganhei três coisas. Aprendi melhor, porque para escrever eu tinha de entender de verdade. Ganhei uma conversa com um programador de uma empresa daqui, que me deu uma dica e acompanha os meus textos. E ganhei quinze textos que mostram como eu penso, coisa que o currículo não mostra. A curtida foi a parte menos importante.”
“Ganhei alguns seguidores.”
Seguidor é o tamanho da fila, e não a conversa no balcão. A resposta mede o texto pelo número de pessoas, e não pela conversa que o texto abriu.
práticaLevar para o trabalho
Três situações em que escrever sobre o que você aprende vira conversa.abrir
Alguém fez uma pergunta num texto seu
Essa situação é o rapaz da melancia, por escrito. O erro comum é demorar uma semana para responder, ou responder com uma frase seca.
- Responder no mesmo dia, se der
- Explicar com o exemplo do texto
- Perguntar de volta o que a pessoa está fazendo
- Deixar a pergunta sem resposta
- Mandar a pessoa procurar sozinha
- Responder com palavra que a pessoa não conhece
“Boa pergunta. Eu guardo a data do envio numa coluna da tabela das consultas, e antes de mandar a mensagem o programa confere se a data já é de hoje. Se você quiser, te mando o pedaço do código. Você está fazendo alguma coisa parecida?”
A resposta explica com o exemplo do texto e devolve uma pergunta, e a pergunta de volta é o que transforma o comentário em conversa.
Esta semana você não aprendeu nada grande
Essa situação vai aparecer muitas vezes. O erro comum é pular a semana, e depois a outra, até o costume acabar.
- Escrever um texto curto sobre uma coisa pequena
- Contar uma dúvida que você ainda tem
- Manter o dia da semana
- Esperar uma descoberta grande
- Escrever um texto genérico só para cumprir
- Pedir um texto pronto à ferramenta
Um texto de sexta da Lia: “Esta semana não aprendi nada grande. Aprendi que o programa precisa avisar a recepção quando a internet da clínica cai, porque senão ninguém sabe que as confirmações pararam. Descobri o problema numa terça, quando a recepção da clínica me ligou contando que três pacientes tinham telefonado perguntando.”
O texto é pequeno, tem um detalhe vivido e mantém a sexta-feira, que é o que faz o costume durar.
Uma empresa em que você quer trabalhar publicou sobre um assunto que você estudou
Essa situação é a chance de conversar no balcão de outra barraca. O erro comum é comentar só “parabéns pelo conteúdo”, ou deixar o currículo no comentário.
- Contar a sua experiência com o mesmo problema
- Fazer uma pergunta sobre o texto
- Escrever pouco
- Comentar só parabéns
- Pedir vaga no comentário
- Repetir o que outro comentário já disse
“Passei por um problema parecido no programa que fiz para a clínica onde eu trabalhava: a mensagem de confirmação ia duas vezes quando o programa travava no meio. Eu resolvi guardando a data do envio. Com milhares de mensagens por dia, vocês fazem do mesmo jeito?”
O comentário mostra um detalhe que a Lia viveu e faz uma pergunta que quem escreveu sabe responder. Quem escreveu o texto responde, e passa a lembrar do nome da Lia.
Um comentário com o seu detalhe vivido faz quem escreveu lembrar de você.
O que muda daqui em diante
A Dona Zilda explica a melancia com a fila esperando, e é por isso que o bairro inteiro manda perguntar para ela.