A barraca de toda semana
O perfil profissional na internet: contar a mesma história que o currículo conta


O capítulo da placa terminou com a placa de uma linha de que o freguês lembra no fim da rua. O freguês que lembra da placa procura a barraca de novo no sábado seguinte, e este capítulo mostra o que esse freguês encontra quando procura.
A recrutadora gostou do seu currículo e procurou o seu nome na internet. A recrutadora encontrou um perfil parado há dois anos, com a foto da formatura e o título "em busca de oportunidades".
Quem gostou do seu currículo vai procurar você na internet, e o que encontrar precisa contar a mesma história.
Vinte e seis anos no mesmo lugar
Na ponta da rua da imagem que abre este capítulo, a última barraca tem uma fita de pano verde amarrada no cano da frente do toldo. Uma freguesa com um carrinho de feira caminha em direção a essa barraca. Do lado esquerdo da rua ficam as outras barracas, e num poste de luz está presa uma placa da prefeitura.
A barraca é da Dona Zilda, a mesma da placa de uma linha. Durante vinte e seis anos, a barraca ficou no mesmo lugar, a quinta da rua, do lado da sombra. Toda semana, a Dona Zilda arruma os caixotes na mesma ordem, a verdura na frente e a fruta atrás, e amarra a mesma fita de pano no cano do toldo. Os fregueses antigos acham a barraca sem olhar.
A barraca vizinha faz o contrário. O dono da barraca vizinha troca a lona do toldo e a arrumação dos caixotes quase todo mês, para chamar atenção, e os fregueses antigos passam reto pela barraca vizinha, porque não reconhecem a barraca de que lembravam.
A feira mudou de lugar
Num mês de março, a prefeitura reorganiza a feira. A barraca da Dona Zilda vai para a outra ponta da rua, a última, do lado do sol. A Dona Zilda passa a semana preocupada com os fregueses antigos, que podem não achar a barraca nova.
Pare aqui um segundo e responda como se você fosse a Dona Zilda. No lugar novo, você arruma a barraca de um jeito diferente, para chamar atenção, ou do mesmo jeito de sempre?
A fita no cano
A Dona Zilda arruma a barraca do mesmo jeito de sempre: a mesma placa de uma linha, os caixotes na mesma ordem e a mesma fita amarrada no cano do toldo. No sábado anterior à mudança, a Dona Zilda avisa cada freguês antigo de que a barraca vai para a última posição da rua.
No primeiro sábado no lugar novo, a freguesa mais antiga, que compra na barraca há vinte anos, procura a fita de longe e acha a barraca. Os outros fregueses também acham. O freguês reconhece a barraca porque a barraca está igual no lugar novo, com a mesma placa, a mesma arrumação e a mesma fita, e a mudança de lugar quase não custa nada.
A barraca que é a mesma em todo lugar é a barraca que o freguês acha.
O perfil da Lia
Depois de reescrever o currículo, a Lia começou a receber respostas, e uma recrutadora contou que tinha procurado o nome da Lia na internet antes de marcar a conversa. A Lia foi olhar o que a recrutadora tinha encontrado.
O perfil profissional da Lia, que no Brasil quase sempre fica no LinkedIn, estava parado havia dois anos. A foto era da formatura do ensino médio, e o título dizia "em busca de oportunidades na área de tecnologia". A experiência da clínica aparecia sem nenhuma linha de descrição. No lugar onde a Lia guardava o código, que o mercado chama de repositório (repository) e que quase sempre fica no GitHub, havia onze exercícios de curso, e o programa da clínica estava escondido no meio dos exercícios.
O currículo dizia uma coisa, e o perfil dizia outra. Quem lê duas histórias diferentes sobre a mesma pessoa acredita na mais fraca das duas.
A Lia pediu licença à dona da clínica para citar o nome e o número das faltas, e arrumou o perfil como a Dona Zilda arrumou a barraca nova. O título passou a dizer o que a Lia fez, com a mesma primeira linha do currículo: o programa que confirma as consultas por mensagem e reduziu as faltas da clínica de vinte para oito por semana. A experiência da clínica ganhou três linhas, e o programa da clínica ficou em destaque no repositório. Ter uma presença coerente na internet é contar a mesma história no currículo, no perfil e no repositório.
O perfil da Lia passou a contar a mesma história do currículo, e a recrutadora encontrou a mesma pessoa nos dois lugares.
Como deixar a sua barraca fácil de reconhecer
Quatro perguntas que deixam a sua barraca reconhecível
As quatro perguntas cabem numa tarde de domingo, e poupam você de perder uma vaga por causa de um perfil esquecido.
O perfil precisa ter a mesma primeira linha, as mesmas datas e os mesmos projetos do currículo. Uma data diferente nos dois lugares faz quem lê desconfiar dos dois.
O título "em busca de oportunidades" diz o que a Lia queria. O título novo diz o que a Lia fez, e é isso que quem procura quer saber.
O programa da clínica em destaque leva quem entrevista a perguntar do programa. Deixe em destaque só o que você consegue explicar inteiro.
A foto de formatura, a experiência sem descrição e os exercícios na frente do projeto real contavam outra história. A barraca reconhecível não deixa pendurada a placa com o preço do ano passado.
O freguês acha a barraca pela fita, e a recrutadora acha você pela história que se repete.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas de quem já procurou você na internet antes da conversa.abrir
Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: dizer que o perfil não importa, ou falar dele como se fosse uma vitrine de enfeite. Só que nenhuma das três perguntas está medindo quantos seguidores você tem. As três estão medindo se a barraca da internet conta a mesma história que você conta na conversa.
“Você usa o seu perfil profissional? Para quê?”
A pergunta parece curiosidade, e mede se você entende para que serve o perfil.
- Que o perfil serve para alguém achar o que você faz
- Que o perfil conta a mesma história do currículo
- Que você mexeu no perfil por um motivo
- Dizer que usa só para ver vagas
- Dizer que perfil é coisa de quem quer aparecer
- Não saber o que está escrito no próprio perfil
“Uso para quem procura o meu nome achar o que eu faço. No começo do ano, o meu perfil dizia só que eu procurava oportunidade. Troquei o título pelo programa da clínica, com o número das faltas, e escrevi a experiência da recepção do jeito que ela foi. Foi pelo perfil que uma recrutadora chegou ao programa da clínica.”
“Uso pouco, só para ver vagas.”
A resposta mostra uma barraca sem fita, e quem entrevista entende que ninguém acha você se não for pela vaga.
“No seu perfil está um projeto, e no currículo está outro. Qual é o certo?”
Esta pergunta vem de quem comparou o perfil com o currículo, e essa comparação acontece mais do que parece.
- Dizer qual é o certo, sem enrolar
- Assumir que o outro lugar ficou velho
- Dizer o que você vai fazer para não repetir
- Dizer que nunca olha o perfil
- Inventar uma explicação para a diferença
- Culpar a ferramenta do perfil
“O certo é o currículo. Atualizei o currículo semana passada e esqueci o perfil, que ainda mostra o projeto antigo. Obrigada por perceber. Eu corrijo hoje, e a partir de hoje deixo um lembrete para mexer nos dois juntos sempre que um mudar.”
“Ah, o perfil eu nem olho.”
A recrutadora olhou. A resposta conta que a barraca da internet ficou com a placa do ano passado, e que a dona nem sabe.
“O que alguém encontra se procurar o seu nome na internet?”
A pergunta procura saber se você já fez a busca que a recrutadora fez.
- Que o projeto principal aparece fácil
- Que o código do projeto tem explicação
- Que nada do que aparece contradiz o currículo
- Que você já procurou o próprio nome
- Que você cuidou do que era antigo ou pessoal demais
- Que você fala do assunto com naturalidade
“Quem procurar o meu nome encontra o meu perfil, com o programa da clínica na primeira linha, e o repositório do programa, com a explicação. A busca também mostrava uma conta antiga de jogo, com um apelido que eu usava aos dezesseis anos. Deixei essa conta privada no mês passado, depois de procurar o meu nome como uma recrutadora faria.”
“Acho que nada. Eu sou bem reservada.”
Ser reservada é um direito. Quem entrevista, porém, procurou e encontrou alguma coisa, e a resposta mostra que você não sabe o quê.
práticaLevar para o trabalho
Três situações da procura de emprego em que o seu perfil ajuda ou atrapalha.abrir
O seu perfil está parado desde a formatura
Essa situação é a da maior parte de quem está começando. O erro comum é deixar o perfil para depois do emprego, quando o perfil é parte de como o emprego chega.
- Trocar o título pelo que você faz
- Usar a mesma primeira linha do currículo
- Descrever o emprego anterior com o que você fez lá
- Escrever “em busca de oportunidades” e parar aí
- Deixar a experiência sem nenhuma linha
- Copiar o perfil de outra pessoa
O título novo da Lia: “Fiz o programa que confirma por mensagem as consultas de uma clínica de fisioterapia, e as faltas caíram de vinte para oito por semana. Procuro a primeira vaga em tecnologia.”
O título diz o que a Lia fez e para quem, e repete a primeira linha do currículo, para quem chegar pelos dois lugares reconhecer a mesma barraca.
O seu perfil e o seu currículo contam histórias diferentes
O currículo e o perfil se separam sempre que um dos dois muda e o outro fica para depois. O erro comum é achar que ninguém compara os dois lugares.
- Pôr os dois lado a lado e comparar
- Pedir a alguém de fora que compare também
- Mexer nos dois juntos sempre que um mudar
- Atualizar só o currículo
- Deixar datas diferentes nos dois lugares
- Pôr no perfil um cargo que o currículo não tem
Para uma amiga: “Você pode olhar o meu perfil e o meu currículo lado a lado, e me dizer se os dois contam a mesma história? Tenho medo de ter deixado uma data diferente, ou um projeto num lugar e não no outro.”
Uma pessoa de fora acha em cinco minutos a diferença que você não vê, porque você lê o que quis escrever.
Você vai contar no perfil o que fez no emprego anterior
Contar o emprego anterior parece simples, e tem um cuidado. O programa da clínica é da Lia, e os números são da clínica. O erro comum é publicar o nome da empresa e os números sem perguntar a ninguém.
- Avisar quem era o seu chefe antes de publicar
- Perguntar se pode citar o nome e o número
- Tirar qualquer dado de paciente ou de cliente
- Publicar números da empresa sem perguntar
- Mostrar uma tela com dados de pessoas
- Contar o projeto como se a empresa não existisse
Para a dona da clínica: “Estou procurando o primeiro emprego em tecnologia, e queria pôr no meu perfil o programa de confirmação que eu fiz aí. Posso citar a clínica e o número das faltas? Não vou mostrar nenhum dado de paciente.”
A fala chega antes da publicação, pede licença para o nome e para o número, e tira da conversa o medo que a clínica teria pelos dados dos pacientes.
Pedir licença para contar o que você fez no emprego anterior também faz parte da história que se repete.
O que muda daqui em diante
A barraca mudou de lugar, e os fregueses acharam a Dona Zilda pela fita de sempre.