A barraca de toda semana

O perfil profissional na internet: contar a mesma história que o currículo conta

A ponta de uma rua de feira, vista de longe e um pouco de cima. Na última barraca da rua, de toldo de lona e caixotes de verdura, uma fita de pano está amarrada no cano da frente do toldo, balançando. A fita é desenhada em verde, o único elemento colorido da imagem. Uma freguesa com um carrinho de feira caminha em direção a essa barraca. Do lado esquerdo da rua, outras barracas, e uma placa da prefeitura sem nenhuma palavra legível presa num poste de luz. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.A ponta de uma rua de feira, vista de longe e um pouco de cima. Na última barraca da rua, de toldo de lona e caixotes de verdura, uma fita de pano está amarrada no cano da frente do toldo, balançando. A fita é desenhada em verde, o único elemento colorido da imagem. Uma freguesa com um carrinho de feira caminha em direção a essa barraca. Do lado esquerdo da rua, outras barracas, e uma placa da prefeitura sem nenhuma palavra legível presa num poste de luz. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.
A barraca mudou de ponta da rua. A fita no cano, a mesma de sempre, levou os fregueses até a barraca nova.

O capítulo da placa terminou com a placa de uma linha de que o freguês lembra no fim da rua. O freguês que lembra da placa procura a barraca de novo no sábado seguinte, e este capítulo mostra o que esse freguês encontra quando procura.

A recrutadora gostou do seu currículo e procurou o seu nome na internet. A recrutadora encontrou um perfil parado há dois anos, com a foto da formatura e o título "em busca de oportunidades".

Perfil profissional na internet é para quem já trabalha na área.
Eu não tenho nada para pôr no meu perfil.
Escrevo que estou em busca de oportunidades, e as oportunidades aparecem.
O currículo é uma coisa e o perfil é outra, ninguém vai comparar os dois.

Quem gostou do seu currículo vai procurar você na internet, e o que encontrar precisa contar a mesma história.

Vinte e seis anos no mesmo lugar

Na ponta da rua da imagem que abre este capítulo, a última barraca tem uma fita de pano verde amarrada no cano da frente do toldo. Uma freguesa com um carrinho de feira caminha em direção a essa barraca. Do lado esquerdo da rua ficam as outras barracas, e num poste de luz está presa uma placa da prefeitura.

A barraca é da Dona Zilda, a mesma da placa de uma linha. Durante vinte e seis anos, a barraca ficou no mesmo lugar, a quinta da rua, do lado da sombra. Toda semana, a Dona Zilda arruma os caixotes na mesma ordem, a verdura na frente e a fruta atrás, e amarra a mesma fita de pano no cano do toldo. Os fregueses antigos acham a barraca sem olhar.

A barraca vizinha faz o contrário. O dono da barraca vizinha troca a lona do toldo e a arrumação dos caixotes quase todo mês, para chamar atenção, e os fregueses antigos passam reto pela barraca vizinha, porque não reconhecem a barraca de que lembravam.

A feira mudou de lugar

Num mês de março, a prefeitura reorganiza a feira. A barraca da Dona Zilda vai para a outra ponta da rua, a última, do lado do sol. A Dona Zilda passa a semana preocupada com os fregueses antigos, que podem não achar a barraca nova.

Pare aqui um segundo e responda como se você fosse a Dona Zilda. No lugar novo, você arruma a barraca de um jeito diferente, para chamar atenção, ou do mesmo jeito de sempre?

A fita no cano

A Dona Zilda arruma a barraca do mesmo jeito de sempre: a mesma placa de uma linha, os caixotes na mesma ordem e a mesma fita amarrada no cano do toldo. No sábado anterior à mudança, a Dona Zilda avisa cada freguês antigo de que a barraca vai para a última posição da rua.

No primeiro sábado no lugar novo, a freguesa mais antiga, que compra na barraca há vinte anos, procura a fita de longe e acha a barraca. Os outros fregueses também acham. O freguês reconhece a barraca porque a barraca está igual no lugar novo, com a mesma placa, a mesma arrumação e a mesma fita, e a mudança de lugar quase não custa nada.

A barraca que é a mesma em todo lugar é a barraca que o freguês acha.

O perfil da Lia

Depois de reescrever o currículo, a Lia começou a receber respostas, e uma recrutadora contou que tinha procurado o nome da Lia na internet antes de marcar a conversa. A Lia foi olhar o que a recrutadora tinha encontrado.

O perfil profissional da Lia, que no Brasil quase sempre fica no LinkedIn, estava parado havia dois anos. A foto era da formatura do ensino médio, e o título dizia "em busca de oportunidades na área de tecnologia". A experiência da clínica aparecia sem nenhuma linha de descrição. No lugar onde a Lia guardava o código, que o mercado chama de repositório (repository) e que quase sempre fica no GitHub, havia onze exercícios de curso, e o programa da clínica estava escondido no meio dos exercícios.

O currículo dizia uma coisa, e o perfil dizia outra. Quem lê duas histórias diferentes sobre a mesma pessoa acredita na mais fraca das duas.

A Lia pediu licença à dona da clínica para citar o nome e o número das faltas, e arrumou o perfil como a Dona Zilda arrumou a barraca nova. O título passou a dizer o que a Lia fez, com a mesma primeira linha do currículo: o programa que confirma as consultas por mensagem e reduziu as faltas da clínica de vinte para oito por semana. A experiência da clínica ganhou três linhas, e o programa da clínica ficou em destaque no repositório. Ter uma presença coerente na internet é contar a mesma história no currículo, no perfil e no repositório.

O perfil da Lia passou a contar a mesma história do currículo, e a recrutadora encontrou a mesma pessoa nos dois lugares.

Como deixar a sua barraca fácil de reconhecer

Antes de alguém procurar o seu nome

Quatro perguntas que deixam a sua barraca reconhecível

As quatro perguntas cabem numa tarde de domingo, e poupam você de perder uma vaga por causa de um perfil esquecido.

1. O meu perfil diz o mesmo que o meu currículo?

O perfil precisa ter a mesma primeira linha, as mesmas datas e os mesmos projetos do currículo. Uma data diferente nos dois lugares faz quem lê desconfiar dos dois.

2. Quem chega ao meu perfil entende em uma linha o que eu faço?

O título "em busca de oportunidades" diz o que a Lia queria. O título novo diz o que a Lia fez, e é isso que quem procura quer saber.

3. O que está em destaque aguenta uma pergunta?

O programa da clínica em destaque leva quem entrevista a perguntar do programa. Deixe em destaque só o que você consegue explicar inteiro.

4. O que está parado, ou contradiz o resto?

A foto de formatura, a experiência sem descrição e os exercícios na frente do projeto real contavam outra história. A barraca reconhecível não deixa pendurada a placa com o preço do ano passado.

O freguês acha a barraca pela fita, e a recrutadora acha você pela história que se repete.

prática

Levar para a entrevista

Três perguntas de quem já procurou você na internet antes da conversa.
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Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: dizer que o perfil não importa, ou falar dele como se fosse uma vitrine de enfeite. Só que nenhuma das três perguntas está medindo quantos seguidores você tem. As três estão medindo se a barraca da internet conta a mesma história que você conta na conversa.

“Você usa o seu perfil profissional? Para quê?”

A pergunta parece curiosidade, e mede se você entende para que serve o perfil.

O que quem entrevista quer ouvir
  • Que o perfil serve para alguém achar o que você faz
  • Que o perfil conta a mesma história do currículo
  • Que você mexeu no perfil por um motivo
O que derruba
  • Dizer que usa só para ver vagas
  • Dizer que perfil é coisa de quem quer aparecer
  • Não saber o que está escrito no próprio perfil
Boa resposta

“Uso para quem procura o meu nome achar o que eu faço. No começo do ano, o meu perfil dizia só que eu procurava oportunidade. Troquei o título pelo programa da clínica, com o número das faltas, e escrevi a experiência da recepção do jeito que ela foi. Foi pelo perfil que uma recrutadora chegou ao programa da clínica.”

Resposta ruim

“Uso pouco, só para ver vagas.”

A resposta mostra uma barraca sem fita, e quem entrevista entende que ninguém acha você se não for pela vaga.

“No seu perfil está um projeto, e no currículo está outro. Qual é o certo?”

Esta pergunta vem de quem comparou o perfil com o currículo, e essa comparação acontece mais do que parece.

Boa direção
  • Dizer qual é o certo, sem enrolar
  • Assumir que o outro lugar ficou velho
  • Dizer o que você vai fazer para não repetir
Direção ruim
  • Dizer que nunca olha o perfil
  • Inventar uma explicação para a diferença
  • Culpar a ferramenta do perfil
Boa resposta

“O certo é o currículo. Atualizei o currículo semana passada e esqueci o perfil, que ainda mostra o projeto antigo. Obrigada por perceber. Eu corrijo hoje, e a partir de hoje deixo um lembrete para mexer nos dois juntos sempre que um mudar.”

Resposta ruim

“Ah, o perfil eu nem olho.”

A recrutadora olhou. A resposta conta que a barraca da internet ficou com a placa do ano passado, e que a dona nem sabe.

“O que alguém encontra se procurar o seu nome na internet?”

A pergunta procura saber se você já fez a busca que a recrutadora fez.

O avaliador técnico quer ver
  • Que o projeto principal aparece fácil
  • Que o código do projeto tem explicação
  • Que nada do que aparece contradiz o currículo
O avaliador de pessoas quer ver
  • Que você já procurou o próprio nome
  • Que você cuidou do que era antigo ou pessoal demais
  • Que você fala do assunto com naturalidade
Boa resposta

“Quem procurar o meu nome encontra o meu perfil, com o programa da clínica na primeira linha, e o repositório do programa, com a explicação. A busca também mostrava uma conta antiga de jogo, com um apelido que eu usava aos dezesseis anos. Deixei essa conta privada no mês passado, depois de procurar o meu nome como uma recrutadora faria.”

Resposta ruim

“Acho que nada. Eu sou bem reservada.”

Ser reservada é um direito. Quem entrevista, porém, procurou e encontrou alguma coisa, e a resposta mostra que você não sabe o quê.

prática

Levar para o trabalho

Três situações da procura de emprego em que o seu perfil ajuda ou atrapalha.
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O seu perfil está parado desde a formatura

Essa situação é a da maior parte de quem está começando. O erro comum é deixar o perfil para depois do emprego, quando o perfil é parte de como o emprego chega.

O que ajuda
  • Trocar o título pelo que você faz
  • Usar a mesma primeira linha do currículo
  • Descrever o emprego anterior com o que você fez lá
O que atrapalha
  • Escrever “em busca de oportunidades” e parar aí
  • Deixar a experiência sem nenhuma linha
  • Copiar o perfil de outra pessoa
O que dizer

O título novo da Lia: “Fiz o programa que confirma por mensagem as consultas de uma clínica de fisioterapia, e as faltas caíram de vinte para oito por semana. Procuro a primeira vaga em tecnologia.”

O título diz o que a Lia fez e para quem, e repete a primeira linha do currículo, para quem chegar pelos dois lugares reconhecer a mesma barraca.

O seu perfil e o seu currículo contam histórias diferentes

O currículo e o perfil se separam sempre que um dos dois muda e o outro fica para depois. O erro comum é achar que ninguém compara os dois lugares.

O que ajuda
  • Pôr os dois lado a lado e comparar
  • Pedir a alguém de fora que compare também
  • Mexer nos dois juntos sempre que um mudar
O que atrapalha
  • Atualizar só o currículo
  • Deixar datas diferentes nos dois lugares
  • Pôr no perfil um cargo que o currículo não tem
O que dizer

Para uma amiga: “Você pode olhar o meu perfil e o meu currículo lado a lado, e me dizer se os dois contam a mesma história? Tenho medo de ter deixado uma data diferente, ou um projeto num lugar e não no outro.”

Uma pessoa de fora acha em cinco minutos a diferença que você não vê, porque você lê o que quis escrever.

Você vai contar no perfil o que fez no emprego anterior

Contar o emprego anterior parece simples, e tem um cuidado. O programa da clínica é da Lia, e os números são da clínica. O erro comum é publicar o nome da empresa e os números sem perguntar a ninguém.

O que ajuda
  • Avisar quem era o seu chefe antes de publicar
  • Perguntar se pode citar o nome e o número
  • Tirar qualquer dado de paciente ou de cliente
O que atrapalha
  • Publicar números da empresa sem perguntar
  • Mostrar uma tela com dados de pessoas
  • Contar o projeto como se a empresa não existisse
O que dizer

Para a dona da clínica: “Estou procurando o primeiro emprego em tecnologia, e queria pôr no meu perfil o programa de confirmação que eu fiz aí. Posso citar a clínica e o número das faltas? Não vou mostrar nenhum dado de paciente.”

A fala chega antes da publicação, pede licença para o nome e para o número, e tira da conversa o medo que a clínica teria pelos dados dos pacientes.

Pedir licença para contar o que você fez no emprego anterior também faz parte da história que se repete.

O que muda daqui em diante

O perfil profissional
Antes
Um lugar para quem já trabalha na área
Agora
A barraca que quem gostou do currículo vai procurar
“Em busca de oportunidades”
Antes
Um título que ajuda
Agora
Um título que todo mundo usa, e que não diz o que você faz
Mudar tudo para chamar atenção
Antes
Um jeito de aparecer
Agora
Um jeito de o freguês não achar a barraca
O perfil parado
Antes
Um detalhe
Agora
A placa do ano passado, que a recrutadora encontra

A barraca mudou de lugar, e os fregueses acharam a Dona Zilda pela fita de sempre.