A fruta cortada para provar

O portfólio: deixar quem não conhece você provar um pedaço do que você faz

O balcão de uma barraca de feira, visto de perto e um pouco de cima. Sobre uma tábua de madeira, uma manga está cortada em cubos, com palitos espetados em alguns pedaços. A manga cortada é desenhada em verde, o único elemento colorido da imagem. Ao lado da tábua, uma faca de cozinha e um caixote de mangas inteiras. A mão de um freguês, entrando pela direita, pega um palito. Ao fundo, fora de foco, um feirante atrás de outra barraca, com uma pilha alta de mangas. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.O balcão de uma barraca de feira, visto de perto e um pouco de cima. Sobre uma tábua de madeira, uma manga está cortada em cubos, com palitos espetados em alguns pedaços. A manga cortada é desenhada em verde, o único elemento colorido da imagem. Ao lado da tábua, uma faca de cozinha e um caixote de mangas inteiras. A mão de um freguês, entrando pela direita, pega um palito. Ao fundo, fora de foco, um feirante atrás de outra barraca, com uma pilha alta de mangas. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.
A placa diz que a manga é doce. O pedaço cortado deixa o freguês descobrir sozinho se a manga é doce.

O capítulo da fita terminou com os fregueses achando a Dona Zilda pela fita de sempre. Achar a barraca ainda não é comprar, e este capítulo mostra o que faz o freguês desconfiado decidir, que é provar antes.

Você tem doze projetos no portfólio e nenhuma entrevista. Os doze projetos são os exercícios dos cursos que você fez, iguais aos de todo mundo que fez os mesmos cursos. A recrutadora abre um projeto, vê a mesma lista de tarefas que viu a manhã inteira, e fecha antes de abrir o segundo.

Quanto mais projeto no portfólio, melhor.
Projeto bom é projeto grande e complicado.
Ninguém lê a explicação do projeto, basta o código.
O meu projeto é pequeno demais para mostrar.

O portfólio que convence é o que deixa a pessoa provar um pedaço do que você faz.

A tábua do balcão

No balcão da imagem que abre este capítulo, uma manga cortada em cubos, desenhada em verde, está sobre uma tábua de madeira, com palitos espetados em alguns pedaços. Ao lado da tábua ficam a faca e um caixote de mangas inteiras, e a mão de um freguês entra pela direita para pegar um palito. Ao fundo, um feirante fica atrás de outra barraca, com uma pilha alta de mangas.

Todo sábado de verão, a Dona Zilda corta uma manga logo cedo e deixa os pedaços na tábua do balcão. O feirante da barraca do lado faz outra coisa. O feirante empilha cinquenta mangas na frente, pendura uma placa escrita “manga doce” e grita “manga doce” a manhã inteira.

O freguês desconfiado

Num sábado, um freguês novo passa pela barraca devagar. Na semana anterior, o freguês comprou um saco de mangas azedas em outra feira, e agora desconfia de toda placa que diz “doce”.

Pare aqui um segundo e responda como se você fosse esse freguês. O que convence você, a placa dizendo que a manga é doce, a pilha de cinquenta mangas, ou o pedaço que você prova?

O freguês pega um palito, prova e compra seis mangas. A placa e o grito diziam a mesma coisa que o pedaço, e só o pedaço deixou o freguês descobrir sozinho que a manga era doce.

A manga do caixote que está à venda

A Dona Zilda tem uma regra para a tábua. A manga cortada sai do caixote que está à venda naquele sábado, e não da manga mais bonita da caixa. Quando o caixote tem manga mais azeda, a Dona Zilda corta do mesmo jeito e avisa que aquela é boa para suco.

Um freguês que prova a fruta escolhida a dedo descobre a diferença em casa, e não volta mais. A amostra honesta mostra a fruta que está à venda, e não a fruta mais bonita da caixa.

O freguês confia no pedaço porque o pedaço é igual ao que vai para a sacola.

Os doze projetos da Lia

O portfólio da Lia tinha doze projetos: uma lista de tarefas, uma calculadora, uma cópia de rede social e outros oito exercícios de curso. Uma recrutadora abriu um dos doze projetos, viu um exercício igual ao de milhares de pessoas e fechou. O programa da clínica, o único que alguém usava, estava no meio da pilha, sem nenhuma explicação.

O portfólio, que em inglês se chama portfolio, é a tábua do balcão. O portfólio bom é o lugar onde quem não conhece você prova um pedaço do que você faz, sem precisar acreditar na placa.

A Lia deixou os exercícios de curso arquivados e ficou com dois projetos: o programa da clínica e uma tabela de horários que a Lia fez depois para a academia do bairro. Cada projeto ganhou um arquivo de explicação, que o mercado chama de README, com o problema, como usar, uma imagem da tela, o que deu errado e o que ainda falta.

E a Lia cortou a manga. A Lia montou uma versão de teste do programa da clínica, com pacientes inventados, que qualquer pessoa abre pelo navegador e usa em dois minutos, sem instalar nada. Ao montar a versão de teste, a Lia descobriu que a versão de teste mostrava letras trocadas quando o nome inventado tinha acento, e consertou antes de mandar o link.

Dois projetos que dá para provar convencem mais que doze que só dá para olhar.

Como cortar a manga do seu portfólio

Antes de mandar o link do seu portfólio

Quatro perguntas que transformam a pilha em fruta cortada

As quatro perguntas cabem num fim de semana, e poupam você de mandar uma pilha de exercícios para quem só tem dois minutos.

1. Alguém usou, ou pode usar, este projeto?

O programa da clínica é usado por seis fisioterapeutas, e a tabela da academia está na parede da academia. Um exercício de curso não tem ninguém do outro lado.

2. Quem abrir o projeto entende o problema em um minuto?

A explicação do projeto conta a quem abre o projeto o que você contaria se estivesse do lado. Sem a explicação, o código é uma manga fechada.

3. Quem abre o projeto consegue provar sem instalar nada?

A versão de teste com dados inventados é a tábua do balcão. Quem tem dois minutos não instala programa para provar uma manga.

4. A amostra é igual ao que eu entrego?

A explicação conta o que deu errado e o que falta, como a Dona Zilda avisa da manga para suco. A amostra enfeitada é descoberta na entrevista.

No portfólio, como na tábua da Dona Zilda, o pedaço honesto vende mais que a pilha.

prática

Levar para a entrevista

Três perguntas em que quem entrevista prova um pedaço do que você fez.
abrir

Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: mostrar o projeto mais bonito e esconder o que deu errado. Só que nenhuma das três perguntas está medindo o tamanho do seu projeto. As três estão medindo se a manga da tábua é igual à manga da sacola.

“Posso testar o seu projeto agora?”

A pergunta parece um pedido simples, e é o freguês pegando o palito.

O que quem entrevista quer ouvir
  • Que dá para testar na hora, sem instalar nada
  • Que os dados do teste são inventados
  • Que você testou antes de mandar
O que derruba
  • Precisar de um passo a passo para instalar
  • Mostrar a tela com dados de pessoas de verdade
  • Pedir para testar outro dia
Boa resposta

“Você pode testar agora. Deixei uma versão de teste com pacientes inventados, e o link está no começo da explicação do projeto. Ao preparar a versão de teste, eu descobri que os nomes inventados com acento apareciam com letras trocadas, e consertei antes de mandar o link. Levei um fim de semana para montar a versão de teste.”

Resposta ruim

“Para testar, precisa instalar algumas coisas no seu computador. Eu te mando o passo a passo.”

Quem entrevista tem dois minutos, e não vai instalar programa para provar uma manga.

“Por que o seu portfólio tem só dois projetos?”

Esta pergunta mede se você escolheu o que mostrar, ou se só sobraram dois.

Boa direção
  • Dizer o que você tirou, e por quê
  • Dizer o que os dois projetos têm que os outros não tinham
  • Mostrar que você explica cada decisão dos dois
Direção ruim
  • Pedir desculpas pelo número pequeno
  • Dizer que tem outros, mas não terminou
  • Dizer que só os dois ficaram bons
Boa resposta

“Os outros onze eram exercícios de curso, iguais aos de milhares de pessoas. Arquivei os exercícios, e ficaram os dois projetos que alguém usa: o programa da clínica e a tabela de horários da academia do meu bairro. Com dois projetos, eu explico cada decisão. Com doze, eu ia explicar a decisão do professor.”

Resposta ruim

“Na verdade eu tenho mais, só não terminei.”

A resposta pede desculpas pela tábua e aponta para uma pilha que ninguém vai ver.

“Qual foi a parte mais difícil desse projeto?”

A pergunta procura a manga para suco: a parte que não ficou doce, e o que você fez com ela.

O avaliador técnico quer ver
  • Um problema de verdade, com a causa
  • O que você mudou para resolver
  • Como você sabe que resolveu
O avaliador de pessoas quer ver
  • Que você conta o erro sem vergonha
  • Que você pensou em quem foi afetado
  • Que o erro está escrito na explicação do projeto
Boa resposta

“A parte mais difícil foi a mensagem de confirmação. Na primeira semana, o programa mandou a confirmação duas vezes para quarenta pacientes, porque eu não guardava quem já tinha recebido. Dois pacientes ligaram reclamando. Passei a guardar a data do envio, e escrevi o erro na explicação do projeto, na parte do que deu errado.”

Resposta ruim

“Nada foi muito difícil, foi tranquilo.”

Quem entrevista sabe que todo projeto tem a parte azeda. A resposta esconde essa parte, e quem esconde a manga para suco não ganha a confiança do freguês.

prática

Levar para o trabalho

Três situações da procura de emprego em que o portfólio decide.
abrir

O seu portfólio só tem exercício de curso

Quase todo mundo que está começando tem só exercício de curso no portfólio. O erro comum é fazer mais exercícios, em vez de procurar um problema de alguém.

O que ajuda
  • Procurar um problema pequeno de alguém perto de você
  • Fazer uma versão simples, que alguém usa de verdade
  • Arquivar os exercícios quando o projeto real ficar pronto
O que atrapalha
  • Fazer o décimo segundo exercício de curso
  • Esperar uma ideia genial para começar
  • Cobrar caro de quem está ajudando você a aprender
O que dizer

Para o dono da academia do bairro: “Estou estudando programação e queria fazer um projeto de verdade. Posso olhar como vocês marcam os horários das aulas e propor um jeito mais simples? Não cobro nada, e se não ajudar vocês não precisam usar.”

A Lia fez assim a tabela da academia. O dono ganhou uma tabela que funciona, e a Lia ganhou a segunda fruta do portfólio.

O seu projeto não tem explicação

Essa situação parece detalhe, e decide se a recrutadora entende o projeto em um minuto. O erro comum é achar que o código fala sozinho.

O que ajuda
  • Abrir a explicação com o problema e o número
  • Pôr o link da versão de teste logo no começo
  • Contar o que deu errado e o que falta
O que atrapalha
  • Explicar só como instalar
  • Escrever com palavras que só programador entende
  • Esconder o que ainda não funciona
O que dizer

O começo da explicação do programa da clínica: “Este programa confirma por mensagem as consultas de uma clínica de fisioterapia, na véspera. A clínica usa o programa há oito meses, e as faltas caíram de vinte para oito por semana. Você pode testar a versão com pacientes inventados no link abaixo.”

O começo tem o problema, o número e o palito para provar, em três frases.

A recrutadora abriu o seu projeto, e a versão de teste estava fora do ar

A versão de teste pode sair do ar por um motivo pequeno, bem no dia em que a recrutadora abre o link. O erro comum é só pedir desculpas, ou pôr o teste de volta no ar sem avisar ninguém.

O que ajuda
  • Pôr a versão de teste de volta no ar no mesmo dia
  • Avisar a recrutadora com o link funcionando
  • Deixar na explicação uma imagem da tela, para quem chegar com o teste fora do ar
O que atrapalha
  • Responder só com um pedido de desculpas
  • Culpar o serviço onde o teste fica guardado
  • Tirar o link da explicação para ninguém mais ver o problema
O que dizer

Para a recrutadora, que escreveu dizendo que o link não abria: “Eu agradeço o aviso. A versão de teste estava fora do ar desde sábado, e eu não tinha percebido. A versão de teste voltou hoje às nove, no mesmo link, e agora eu confiro o link toda segunda-feira. Se você preferir, eu mostro o programa funcionando numa chamada de dez minutos.”

A fala diz quando o teste voltou, o que a Lia passou a conferir toda semana e outro jeito de provar o programa, para a recrutadora não sair da barraca sem provar a manga.

A versão de teste é a tábua do balcão, e a tábua precisa estar cheia no dia em que a recrutadora passar.

O que muda daqui em diante

O portfólio
Antes
A pilha de tudo o que você fez
Agora
A fruta cortada para quem passa provar
O exercício de curso
Antes
Um projeto para mostrar
Agora
O treino, que fica guardado
A explicação do projeto
Antes
Um detalhe que ninguém lê
Agora
O que você contaria se estivesse do lado
Mostrar o que deu errado
Antes
Perder a vaga
Agora
Mostrar que a amostra é igual ao que você entrega

A Dona Zilda corta a manga do caixote que está vendendo, e o freguês que prova volta no sábado seguinte.