A feira dos gritos

Falar de si em trinta segundos: três frases e um detalhe que faz a pessoa perguntar

Um corredor de feira livre, de manhã, visto de frente. Dos dois lados, feirantes gritam com a mão em concha perto da boca, e linhas em zigue-zague saem de cada um, como som alto. No meio, atrás de uma bancada de frutas, uma feirante conversa com uma freguesa que segura uma sacola. Entre as duas, um balão de fala pequeno e vazio. Esse balão é desenhado em verde, o único elemento colorido da imagem. Em volta há caixotes, toldos e uma balança. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.Um corredor de feira livre, de manhã, visto de frente. Dos dois lados, feirantes gritam com a mão em concha perto da boca, e linhas em zigue-zague saem de cada um, como som alto. No meio, atrás de uma bancada de frutas, uma feirante conversa com uma freguesa que segura uma sacola. Entre as duas, um balão de fala pequeno e vazio. Esse balão é desenhado em verde, o único elemento colorido da imagem. Em volta há caixotes, toldos e uma balança. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.
Num corredor de gritos, a freguesa para na barraca que responde baixo, em três frases.

O capítulo da melancia terminou com o bairro inteiro mandando perguntar para a Dona Zilda. Este capítulo mostra como a Dona Zilda responde em três frases num corredor em que todo mundo grita.

Alguém pergunta o que você faz, e você trava. Você responde que ainda está estudando e muda de assunto, ou despeja a lista de tudo o que já estudou até a pessoa olhar para o lado.

Falar de mim é vender um produto, e eu não sou produto.
Eu não tenho nada interessante para contar.
Se eu falar todas as tecnologias que sei, alguma vai chamar a atenção.
Se eu disser que estou começando, ninguém vai me levar a sério.

Quem pergunta o que você faz quer um motivo para lembrar de você, e uma lista não dá esse motivo.

Um corredor em que todo mundo grita

Na imagem que abre este capítulo, os feirantes dos dois lados do corredor gritam com a mão em concha perto da boca, e as linhas em zigue-zague saem de cada um. No meio do corredor, atrás de uma bancada de frutas, uma feirante conversa com uma freguesa que segura uma sacola. Entre as duas, há um balão de fala pequeno, em verde, e o balão está vazio.

A feirante do meio é a Dona Zilda. Às sete da manhã de sábado, o corredor da feira é um concurso de grito. Um feirante grita o preço da laranja, o outro grita mais alto o preço da banana, e o terceiro grita que o dele é o mais barato. O freguês passa pelo corredor ouvindo todos e, no fim da rua, não lembra de nenhum.

Uma freguesa que nunca tinha comprado ali para na barraca da Dona Zilda e pergunta o que tem de bom hoje.

Pare aqui um segundo e responda como se você fosse a Dona Zilda. O que você diria para essa freguesa, com a barraca cheia de fruta e o tempo de um troco?

Três frases e uma pergunta de volta

A Dona Zilda não lista a barraca. A Dona Zilda diz: “Esse caqui chegou ontem de um sítio aqui perto. O caqui está doce. E o caqui dura até quarta fora da geladeira.” Depois a Dona Zilda pergunta se o caqui é para hoje, porque, se for, a freguesa deve levar o mais mole.

A resposta tem três frases. A primeira frase diz o que chegou, a segunda diz por que o caqui é bom, e a terceira diz o que a freguesa pode fazer com o caqui. A pergunta de volta transforma a resposta numa conversa. A Dona Zilda escolhe uma coisa só para contar, e conta a coisa de que tem certeza.

A freguesa leva quatro caquis, dois moles para o almoço e dois firmes para o resto da semana.

O grito chega a todo mundo no corredor, e a freguesa só guarda as três frases que alguém disse para ela.

A pergunta que fizeram à Lia num encontro de programadores

Enquanto escrevia os textos de sexta-feira, a Lia começou a ir a um encontro de programadores, que acontece uma quinta por mês na biblioteca do bairro. No primeiro encontro, uma moça perguntou à Lia o que ela fazia. A Lia respondeu que ainda estava estudando, que não trabalhava na área, e a conversa acabou ali.

Em casa, a Lia escreveu a resposta que queria ter dado, em três frases. A primeira frase dizia o que a Lia tinha feito: quatro anos na recepção de uma clínica de fisioterapia, e um ano e meio estudando programação à noite. A segunda frase dizia o resultado: o programa que confirma as consultas por mensagem, que reduziu as faltas de vinte para oito por semana. A terceira frase dizia o que a Lia procurava: a primeira vaga, de preferência num time que atende cliente.

A Lia leu as três frases em voz alta, marcando no relógio, e a leitura levou vinte e cinco segundos. O mercado chama essa apresentação curta de pitch de elevador (elevator pitch), porque ela cabe numa subida de elevador.

No encontro seguinte, a Lia disse as três frases a um rapaz que perguntou o que ela fazia. O rapaz quis saber como um programa de mensagens tinha derrubado as faltas, e os dois conversaram vinte minutos. A apresentação curta funciona quando deixa um detalhe para a outra pessoa perguntar, e o detalhe da Lia eram as faltas que caíram.

A primeira resposta da Lia encerrou a conversa, e as três frases abriram uma conversa de vinte minutos.

As três frases não são para decorar

A Lia não repete as três frases palavra por palavra. A Lia guardou as três partes, o que fez, o que deu certo e o que procura, e muda as palavras conforme quem pergunta. Para o rapaz do encontro, a Lia fala do programa. Para a tia no almoço de domingo, a Lia fala dos pacientes que deixaram de faltar.

A apresentação decorada soa como o grito do corredor, porque serve para qualquer um que passa. A Dona Zilda também não tem uma frase pronta. A Dona Zilda tem o caqui da semana, e conta o caqui do jeito que serve para a freguesa da frente.

Como responder sem gritar

Antes de se apresentar

Quatro perguntas que montam a sua apresentação de trinta segundos

As quatro perguntas cabem numa folha, e poupam você de despejar a lista inteira na próxima vez que alguém perguntar o que você faz.

1. O que eu fazia, ou faço hoje, numa frase?

A Lia diz o lugar e o tempo, quatro anos na recepção de uma clínica. Você não precisa ter trabalhado com tecnologia para responder a primeira pergunta.

2. O que eu fiz que alguém usa?

Escolha uma coisa só, com o resultado. A Dona Zilda fala do caqui, e não da barraca inteira.

3. O que eu procuro agora?

Diga o que você procura, numa frase. A pessoa que ouve só consegue ajudar você se souber o que você quer.

4. Que detalhe eu deixo para a pessoa perguntar?

As faltas que caíram de vinte para oito fizeram o rapaz perguntar. A sua apresentação precisa de um detalhe assim, que dá vontade de saber mais.

A apresentação de trinta segundos não conta tudo sobre você, e deixa a pessoa com vontade de perguntar o resto.

prática

Levar para a entrevista

Três perguntas que pedem você em poucas palavras.
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Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: encher a resposta com tudo o que você já estudou, para não esquecer nada. Só que nenhuma das três perguntas está medindo o tamanho da sua lista. As três estão medindo se você sabe escolher o caqui da semana, em vez de gritar a barraca inteira.

“Se você tivesse de se descrever em uma frase, qual seria?”

A pergunta parece de revista, e mede se você sabe resumir o que entrega.

O que quem entrevista quer ouvir
  • Uma frase sobre o que você faz
  • Um fato que confirma a frase
  • Nenhum adjetivo sem fato atrás
O que derruba
  • Três adjetivos seguidos
  • Uma frase que serve para qualquer pessoa
  • Pedir para responder com mais de uma frase
Boa resposta

“Eu sou a recepcionista que aprendeu a programar para acabar com as faltas da clínica. Na recepção da clínica, os pacientes faltavam muito, e eu fiz um programa que confirmava as consultas por mensagem. As faltas caíram de vinte para oito por semana. O programa da clínica foi o primeiro que eu fiz e que alguém usou.”

Resposta ruim

“Sou proativa, comunicativa e apaixonada por aprender.”

Três adjetivos sem fato servem para qualquer candidato, e quem entrevista esquece a frase antes da próxima pergunta.

“Como você explicaria o seu projeto para alguém que não é da área?”

Esta pergunta mede se você entende o seu projeto bem o bastante para contar sem palavra técnica.

Boa direção
  • Começar pelo problema de quem usa
  • Dizer o que mudou para essa pessoa
  • Deixar a parte técnica para quando perguntarem
Direção ruim
  • Começar pela tecnologia que você usou
  • Usar sigla sem explicar
  • Dizer que é difícil explicar para quem não é da área
Boa resposta

“Eu explicaria do jeito que expliquei para a minha tia. Na clínica onde eu trabalhava, muita gente esquecia a consulta, e o horário ficava vazio. O programa que eu fiz mandava uma mensagem no dia anterior, e a pessoa respondia se ia ou não. Com o horário livre avisado, a recepção chamava outro paciente.”

Resposta ruim

“O programa é um sistema com banco de dados e integração com a interface de mensagens.”

A resposta está certa, e a pessoa que não é da área não entende nada. Quem entrevista conclui que você só consegue conversar com quem já sabe o que você sabe.

“O que você está procurando agora?”

A pergunta procura saber se você sabe o que quer, ou se aceita qualquer coisa.

O avaliador técnico quer ver
  • Que você sabe em que tipo de trabalho começar
  • Que você sabe o que ainda precisa aprender
  • Que a vaga combina com o que você já fez
O avaliador de pessoas quer ver
  • Que a resposta é curta e clara
  • Que você não pede qualquer coisa
  • Que você tem um motivo para a escolha
Boa resposta

“Eu escolhi procurar a primeira vaga num time que faz programa para quem atende cliente, porque passei quatro anos do outro lado do balcão. Eu sei o que a recepcionista sente quando o sistema trava com a fila esperando. Quero aprender com gente mais experiente, e esta vaga tem um time que atende cliente e gente mais experiente para eu aprender.”

Resposta ruim

“Qualquer oportunidade na área, eu topo tudo.”

Quem topa tudo não dá à empresa um motivo para escolher, e quem entrevista não sabe em que time colocar você.

prática

Levar para o trabalho

Três situações em que alguém pergunta o que você faz.
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A recrutadora ligou e pediu que você se apresente rapidinho

Essa situação pega você no ônibus ou na cozinha, sem tempo de pensar. O erro comum é ler o currículo em voz alta, de cima para baixo.

O que ajuda
  • Dizer as três partes: o que fez, o que deu certo e o que procura
  • Parar depois de trinta segundos
  • Perguntar se a recrutadora quer saber mais de alguma parte
O que atrapalha
  • Ler o currículo de cima para baixo
  • Pedir desculpa por estar começando
  • Falar sem parar até ela interromper
O que dizer

“Claro. Trabalhei quatro anos na recepção de uma clínica e estudo programação há um ano e meio. Fiz um programa que confirma as consultas por mensagem, e as faltas caíram de vinte para oito por semana. Procuro a primeira vaga num time que atende cliente. Quer que eu conte mais de alguma parte?”

A pergunta do fim devolve a conversa para a recrutadora, e ela escolhe o que quer ouvir em seguida.

Um parente perguntou, no almoço de domingo, o que você faz agora

Essa situação parece sem importância, e um parente que entende o que você faz é um parente que lembra de você quando ouve falar de uma vaga. O erro comum é responder “mexo com computador”.

O que ajuda
  • Contar o problema que o seu programa resolveu
  • Usar um exemplo da vida do parente
  • Dizer o que você procura
O que atrapalha
  • Responder “mexo com computador”
  • Explicar com palavra técnica
  • Dizer que é complicado de explicar
O que dizer

“A senhora sabe quando o consultório liga para confirmar a sua consulta? Eu fiz um programa que manda essa mensagem sozinho, e a clínica onde eu trabalhava passou a ter menos falta. Agora eu procuro emprego fazendo programas assim. Se a senhora souber de alguém que trabalha com isso, me avisa.”

O parente entende, e o pedido do fim transforma o parente numa pessoa que procura junto com você.

No primeiro dia, o time pede que você se apresente na reunião

Essa situação chega depois da contratação, e a apresentação curta continua valendo. O erro comum é falar só o nome e o cargo, ou contar a vida inteira.

O que ajuda
  • Dizer de onde você veio, numa frase
  • Contar uma coisa que você sabe e pode ajudar o time
  • Dizer o que você quer aprender ali
O que atrapalha
  • Falar só o nome e o cargo
  • Contar a história inteira da sua transição
  • Dizer que não sabe nada ainda
O que dizer

“Eu sou a Lia, e trabalhei quatro anos na recepção de uma clínica antes de vir para a programação. Eu conheço bem o lado de quem atende o cliente com a fila esperando, e posso ajudar quando o assunto for esse. Quero aprender como vocês testam o código antes de publicar.”

A fala diz de onde a Lia veio, o que ela pode dar ao time e o que quer aprender, e cabe em trinta segundos.

Uma frase sobre o que você pode dar ao time faz o time saber quando chamar você.

O que muda daqui em diante

A pergunta “o que você faz?”
Antes
Uma prova
Agora
Uma porta para uma conversa
Estar começando
Antes
Motivo para se encolher
Agora
Uma parte da história, contada numa frase
A lista do que você estudou
Antes
A resposta
Agora
O grito do corredor, que ninguém guarda
A apresentação curta
Antes
Um texto decorado
Agora
Três partes que mudam conforme quem pergunta

A freguesa nova não lembrou de nenhum preço gritado, e saiu da barraca lembrando do caqui que dura até quarta.