A placa da barraca
O currículo: dizer em uma linha o que você entrega, antes da lista do que você estudou


O capítulo do álbum terminou pedindo que você não se compare com as fotos dos outros e mostre um pedaço do seu filme. O primeiro lugar onde você mostra alguma coisa a quem não conhece você é o currículo, e este capítulo vai a uma feira para mostrar por que uma placa pequena diz mais que uma lista comprida.
Você manda o currículo para trinta vagas e não recebe resposta de nenhuma. O currículo tem três páginas, com todos os cursos que você fez, e mesmo assim ninguém liga.
Quem lê o currículo procura o que você entrega, e não a lista do que você estudou.
A feira de sábado
Na rua da imagem que abre este capítulo, as barracas da esquerda e da direita têm muitas placas penduradas, cheias de linhas, umas sobre as outras. No meio, a barraca de verduras tem uma placa pequena pendurada no toldo, em verde, com uma linha só e o desenho de uma folha. Na bancada dessa barraca ficam a balança e duas etiquetas de preço, e uma feirante arruma as verduras. Na frente das barracas, uma freguesa passa com a sacola.
A barraca do meio é da Dona Zilda, que vende verdura e fruta na feira de sábado do bairro há vinte e seis anos. A feira tem quarenta barracas e vai das seis da manhã à uma da tarde. A barraca da Dona Zilda tem três caixotes de largura, e é uma das mais procuradas da rua.
As barracas vizinhas penduram placas com tudo o que vendem: o preço de cada verdura, as promoções, os dias de entrega e o telefone. A placa da Dona Zilda diz uma coisa só: verdura do sítio, colhida na sexta.
Dois segundos por barraca
O freguês entra na feira com pressa e com a lista na cabeça. O freguês passa por cada barraca em uns dois segundos, olhando de lado, e não lê placa de quarenta linhas. O freguês procura uma razão para parar.
Pare aqui um segundo e responda como se você fosse esse freguês. No fim da rua, depois de quarenta barracas, de qual placa você lembra?
Quase sempre, o freguês lembra da placa que coube nos dois segundos. A placa da Dona Zilda responde à única pergunta que o freguês tinha ao passar, que é se a verdura está fresca. O resto, o preço, a variedade e o troco, o freguês descobre depois de parar.
O que a placa não diz
A Dona Zilda vende trinta coisas diferentes, e a placa não fala de nenhuma delas. A Dona Zilda aprendeu que a placa não serve para vender tudo. O trabalho da placa é só fazer o freguês parar.
A placa de uma linha faz o freguês parar, e a conversa vende o resto.
As três páginas da Lia
A Lia trabalhou quatro anos na recepção de uma clínica de fisioterapia e estuda programação há um ano e meio, à noite. O currículo da Lia tinha três páginas: catorze cursos com a carga horária de cada um, uma lista de vinte tecnologias com a palavra "noções" na frente, e o emprego da clínica descrito em duas palavras, "atendimento ao público". A Lia mandou o currículo para trinta vagas, e nenhuma respondeu.
Uma recrutadora, amiga de uma amiga, aceitou ler o currículo da Lia. A recrutadora contou que lê cada currículo por uns dez segundos antes de decidir se continua, e que nos dez segundos do currículo da Lia só tinha visto cursos. O currículo, que em inglês se chama resume ou CV, era uma placa de quarenta linhas.
A Lia tinha uma fruta boa escondida no fim da segunda página. À noite, a Lia tinha feito um programa que manda a confirmação das consultas por mensagem, e a clínica usa esse programa até hoje. Com o programa, as faltas caíram de vinte para oito por semana.
A Lia reescreveu o currículo em uma página. Na primeira linha ficou o programa da clínica, com o número das faltas. Os cursos viraram uma linha no fim, e das vinte tecnologias ficaram as quatro que a Lia usou no programa. O currículo bom funciona como a placa, que diz em uma linha o que você entregou e deixa o resto para a conversa. Em duas semanas, três empresas responderam.
O currículo que todo mundo tem
Hoje qualquer pessoa pode pedir a uma inteligência artificial um currículo inteiro em um minuto, e a ferramenta ajuda de verdade a revisar a ortografia e arrumar a ordem. O currículo que sai só do pedido fica parecido com o de todo mundo que fez o mesmo pedido, como as placas cheias das barracas vizinhas, que dizem todas as mesmas coisas. A linha do programa da clínica, com as vinte faltas que viraram oito, só a Lia tem, porque só a Lia fez esse programa na recepção da clínica.
A ferramenta ajuda a escrever a placa, e a linha que faz o freguês parar vem do que você fez.
Como escrever a placa do seu currículo
Quatro perguntas que separam a placa da lista
As quatro perguntas cabem numa tarde, e poupam você de mandar o mesmo currículo de três páginas para mais trinta vagas.
Todo candidato terminou algum curso, e quem lê o currículo já sabe disso. O programa que a clínica usa até hoje mostra uma coisa que você entregou. Comece pelo que alguém usou, mesmo que seja pequeno.
As faltas de vinte para oito por semana fazem a recrutadora parar nos dez segundos. Sem número, a linha vira mais uma promessa.
Catorze cursos e vinte tecnologias com "noções" enchem a página e escondem a fruta boa. Tire o que você não usaria numa conversa.
A placa da Dona Zilda fala com quem procura verdura fresca. O currículo para uma clínica pode abrir com o programa da clínica, e o currículo para uma loja pode abrir pelo que você aprendeu com quem usa o sistema.
O currículo é a placa da barraca, e precisa caber em dez segundos e fazer alguém parar.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas em que o que está no seu currículo precisa aguentar uma conversa.abrir
Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: repetir em voz alta a lista do currículo. Só que nenhuma das três perguntas está medindo quantos cursos você fez. As três estão medindo se a placa do seu currículo tem uma barraca de verdade por trás.
“De onde vem esse número que está no seu currículo?”
A pergunta parece desconfiança, e é o teste da placa, porque quem entrevista quer ver se a primeira linha do currículo aguenta uma conversa.
- Como o número foi contado, e em quanto tempo
- Quem pode confirmar o número
- O que o número não mostra
- Não lembrar de onde o número saiu
- Aumentar o número na hora da conversa
- Dar ao programa o crédito de tudo o que melhorou
“A agenda da clínica marcava quem faltou. Eu contei as faltas das quatro semanas antes do programa, e as faltas davam umas vinte por semana. Depois de dois meses com o programa, a média ficou em oito. A dona da clínica pode confirmar o número. A conta não separa as faltas por doença, que o programa não evita.”
“O número foi mais ou menos esse, eu não lembro direito.”
A resposta mostra uma placa sem barraca por trás, e quem entrevista passa a duvidar da linha inteira do currículo.
“O que você fazia no seu emprego anterior, e o que isso tem a ver com tecnologia?”
Esta pergunta mede se você enxerga o que trouxe do emprego anterior, ou se acha que o emprego anterior não conta.
- Contar o que você fazia, com um número
- Ligar o emprego anterior a um problema que a tecnologia resolve
- Dizer o que ainda falta, sem diminuir o que você fez
- Dizer que não tem nada a ver
- Falar mal do emprego anterior
- Esconder o emprego anterior
“Eu era recepcionista de uma clínica de fisioterapia. Eu marcava, confirmava e remarcava umas oitenta consultas por dia, e aprendi onde o agendamento travava. Foi esse problema que virou o meu primeiro programa. Os quatro anos na recepção não contam como programação, e me ensinaram como trabalha quem usa o sistema.”
“Não tem nada a ver. Eu quero mudar de área justamente para sair de lá.”
A resposta joga fora os quatro anos da clínica, que eram justamente a parte do currículo que ninguém mais tinha.
“Se o seu currículo tivesse uma linha só, o que estaria nela?”
Esta pergunta mede se você sabe escolher a única linha que faria a recrutadora parar, como a placa da Dona Zilda.
- Uma entrega, e não um curso
- Um número que dá para conferir
- Que você escolheu de propósito o que ficou de fora
- Que você não se diminui nem se exagera
- Que você explica a escolha com calma
- Que você sabe o que tem de melhor
“Eu já precisei escolher essa linha. Uma recrutadora me contou que lia cada currículo em uns dez segundos, e eu reescrevi o meu. A linha que ficou foi esta: fiz o programa que reduziu as faltas da clínica de vinte para oito por semana. Tirei doze cursos para o currículo caber em uma página, e as respostas começaram a chegar.”
“Eu poria os cursos que fiz, porque mostram que eu estudo.”
Estudar é o que todo candidato faz. A linha dos cursos é a placa de quarenta linhas da barraca vizinha.
práticaLevar para o trabalho
Três situações da procura de emprego em que o currículo decide se você é chamado.abrir
Uma vaga pede o currículo num formulário que não aceita arquivo
Muitas empresas pedem o currículo num formulário, com um campo para cada parte e um limite de letras em cada campo. O erro comum é colar o currículo inteiro no primeiro campo, ou largar o formulário pela metade.
- Pôr no campo de resumo a primeira linha do currículo
- Responder em cada campo só o que o campo pergunta
- Guardar as respostas num arquivo, para a próxima vaga
- Colar o currículo inteiro no primeiro campo
- Escrever “ver currículo” num formulário sem anexo
- Deixar em branco o campo do emprego anterior
No campo “Conte a sua experiência”, que aceita quinhentas letras: “Eu trabalhei quatro anos na recepção de uma clínica de fisioterapia, marcando umas oitenta consultas por dia. Na clínica, eu fiz o programa que confirma as consultas por mensagem, e as faltas caíram de vinte para oito por semana.”
O campo pequeno funciona como a placa da Dona Zilda. A resposta da Lia cabe no limite, junta os quatro anos da recepção ao programa da clínica, e quem lê o formulário encontra o número sem abrir arquivo nenhum.
O seu currículo ficou com três páginas
O currículo de quem está começando cresce para três páginas por medo de parecer que a pessoa sabe pouco. O erro comum é cortar a letra e a margem, em vez de cortar o conteúdo.
- Abrir com a entrega que alguém usou
- Deixar os cursos numa linha, no fim
- Manter só as tecnologias que você usou de verdade
- Diminuir a letra para caber tudo
- Listar cada curso com a carga horária
- Escrever “noções de” na frente de vinte coisas
A primeira linha do currículo novo da Lia: “Fiz o programa de confirmação de consultas de uma clínica de fisioterapia, usado há oito meses por seis fisioterapeutas, que reduziu as faltas de vinte para oito por semana.”
A linha tem para quem foi feito, há quanto tempo é usado e o número, e cabe nos dez segundos da recrutadora.
Você mandou o currículo para trinta vagas e ninguém respondeu
Trinta vagas sem resposta desanimam, e quase sempre têm conserto. O erro comum é mandar o mesmo currículo para mais trinta vagas, ou concluir que o problema é você.
- Pedir a alguém de fora que leia o currículo por dez segundos
- Perguntar o que essa pessoa entendeu
- Mudar a primeira linha antes de mandar de novo
- Mandar o mesmo currículo para mais trinta vagas
- Concluir que nenhuma empresa contrata iniciante
- Pedir a opinião só de quem já conhece você
Para alguém que lê currículo no trabalho: “Mandei o currículo para trinta vagas e não tive resposta de nenhuma. Você teria dez minutos para ler o meu currículo como se fosse a primeira vez, e me dizer o que você entendeu nos primeiros dez segundos?”
A pergunta pede à pessoa os mesmos dez segundos que a recrutadora deu ao currículo da Lia, e é nesses dez segundos que o currículo se decide.
Dez segundos de leitura de alguém de fora explicam o que trinta vagas sem resposta não explicam.
O que muda daqui em diante
A placa da Dona Zilda tem uma linha, e é a placa de que o freguês lembra no fim da rua.