O plantão sem chefe
Quando falta direção, alguém precisa organizar, mesmo sem ter o cargo


O capítulo do Renato terminou dizendo que toda caixa de sugestões cheia começou com uma pessoa que falou e ninguém ouviu. Este capítulo fecha a seção numa noite em que todo mundo fala ao mesmo tempo, ninguém organiza, e alguém sem cargo precisa organizar.
Todo mundo no time está trabalhando, e ninguém está organizando o trabalho. Cada pessoa resolve a própria parte, o telefone não para, e ninguém sabe o que fazer primeiro.
Quando falta direção, alguém precisa organizar, mesmo sem ter o cargo.
Uma sexta-feira à noite
No posto de enfermagem da imagem que abre este capítulo, a cadeira do coordenador está vazia atrás do balcão, com o jaleco pendurado no encosto. Na parede ao lado, o quadro do plantão, em verde, tem os ímãs redondos em ordem dentro de cada coluna. Em volta ficaram as macas, os suportes de soro e as caixas de soro empilhadas.
O quadro em ordem é o fim da noite. A noite começou bem diferente.
A história se passa numa sexta-feira à noite, num pronto-atendimento. O movimento está intenso, com a sala de espera cheia, o telefone tocando e pacientes chegando sem parar. O coordenador do plantão, que costuma organizar as filas e dividir as tarefas, foi chamado para uma emergência em outro hospital.
De repente, o plantão fica sem comando. As enfermeiras se olham, o técnico da triagem não sabe a quem atender primeiro, e o ritmo começa a se perder. Ninguém está errado. O que está faltando é direção.
Pare aqui um segundo e responda como se você estivesse naquele plantão, sem cargo nenhum. A sala de espera está cheia, e o coordenador saiu. O que você faz primeiro?
Quase todo mundo faz a própria parte e espera alguém resolver. Um enfermeiro daquele plantão fez outra coisa.
O enfermeiro sem cargo
Entre as pessoas do plantão está o Wagner, um enfermeiro mais antigo. O Wagner conhece bem o caminho de cada paciente, e já viu aquela confusão antes. O Wagner não tem cargo de chefia nem autoridade formal. Mesmo assim, o Wagner respira fundo e começa a agir.
“Pessoal, vamos por partes. Quem já passou pela triagem vai para a sala 2. Carla, você cuida dos casos leves. Bruno, confere o estoque de soro, que está acabando.”
O Wagner fala com calma, sem tom de ordem. As pessoas começam a seguir o Wagner, porque alguém precisava trazer clareza, e o Wagner trouxe. O Wagner nem precisou mandar.
Em poucos minutos, a confusão vira coordenação. Os atendimentos voltam a andar, e o clima se acalma. O Wagner não virou chefe. O Wagner virou uma referência.
Horas depois, o coordenador volta, encontra o plantão em ordem e pergunta: “Quem organizou isso?” Uma das enfermeiras responde: “O Wagner. Ele só começou a fazer.”
O coordenador apenas faz que sim com a cabeça. Não tem discurso nem elogio formal. Todo mundo naquele plantão sabe que, sem o Wagner, a noite teria desmoronado.
Ninguém deu cargo ao Wagner, e o plantão inteiro seguiu o Wagner porque a frase dele dizia o que fazer primeiro.
A noite em que ninguém assume
Em outros plantões, ninguém faz o que o Wagner fez. Cada pessoa tenta resolver a própria parte, a confusão aumenta, e o plantão vira uma colcha de retalhos. Quando o coordenador volta, o estrago já está feito. O plantão termina com decisão errada, trabalho repetido, gente esgotada e acusação por baixo dos panos.
A falta de uma voz calma, na hora certa, transforma um problema pequeno numa quebra de confiança. Na manhã seguinte, todo mundo do plantão está convencido de que outra pessoa devia ter feito alguma coisa.
A noite em que alguém assume com soberba
Existe outro erro, mais difícil de perceber, que nasce quando alguém assume o comando com soberba. Imagine o Wagner reagindo de outro jeito naquela mesma noite. Em vez de acalmar, o Wagner levanta a voz: “Vocês não sabem o que estão fazendo! Saiam da frente, que eu resolvo!”
A equipe obedeceria, porque o plantão envolve vidas e a hora pedia ação. Nos bastidores, a impressão sobre o Wagner seria outra. Os colegas começariam a comentar. “Ele se acha o dono do hospital.” “É sempre o primeiro a querer aparecer.”
Pergunte de novo, agora como colega desse Wagner: no plantão seguinte, você pediria ajuda a ele?
Mesmo com a noite resolvida, o grupo passaria a ver o Wagner como estrela, e não como apoio. No plantão seguinte, ninguém consultaria o Wagner. As sugestões do Wagner seriam ignoradas com educação, e o respeito conquistado no grito viraria isolamento. O Wagner teria salvado a noite e perdido o time.
O tom que acalma hoje é o mesmo tom que conquista respeito amanhã.
O sistema que parou no meio do dia
Nos times de tecnologia acontece o mesmo. O sistema para no meio do dia, os clientes começam a reclamar, e a pessoa que lidera o time não está. Uma pessoa mais experiente toma a frente, organiza o que cada um vai olhar, avisa quem precisa saber, e o problema se resolve.
O jeito como essa pessoa faz isso decide o que vem depois. Se a pessoa age com calma e chama os outros para resolver junto, o time passa a ver essa pessoa como referência. Se a pessoa se comporta como salvadora da pátria, gritando, apontando erros e decidindo tudo sozinha, as pessoas até seguem no calor da crise. As pessoas se afastam assim que o problema termina.
Liderar sem cargo pede clareza sem arrogância, firmeza sem autoritarismo, e vontade de resolver sem precisar de plateia.
Quem organiza é lembrado pelo que organizou, e não pelo quanto apareceu.
Como pôr o plantão em ordem sem ter o cargo
Quatro perguntas que separam organizar de mandar
São quatro, cabem nos primeiros minutos da confusão, e evitam a noite em que todo mundo espera alguém.
“Vamos por partes.” Num momento de confusão, a coisa mais útil é a ordem, mais do que a solução de cada problema. O Wagner começou pela triagem: quem já tinha passado por ela ia para a sala 2.
“Carla, os casos leves. Bruno, o soro.” Uma tarefa com nome tira a pessoa da dúvida, e evita duas pessoas fazendo a mesma coisa enquanto outra coisa fica sem ninguém.
O tom de pedido faz as pessoas seguirem sem se sentirem pisadas. O Wagner da segunda noite resolveu o mesmo plantão gritando, e perdeu o time.
Quando o coordenador volta, o comando volta para o coordenador, com um resumo curto do que foi combinado. O Wagner não ficou com o quadro do plantão depois daquela noite.
Ordem, tarefa com nome, tom de pedido e comando devolvido não pedem cargo nenhum.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas sobre liderar sem cargo, crise e o que fica depois.abrir
Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: contar a crise como a noite em que você salvou todo mundo. Só que nenhuma delas está medindo o seu esforço. As três estão medindo se você fez o que o Wagner da primeira noite fez, e com que tom.
“Você já liderou alguma coisa sem ter o cargo?”
A pergunta parece ser sobre cargo, e é sobre o jeito como você organizou os outros.
- Que você organizou a ordem do trabalho
- Que você dividiu as tarefas de um jeito claro
- Que o resultado apareceu
- Que você tomou a frente porque precisava, e não para aparecer
- Que as pessoas seguiram você sem se sentirem pisadas
- Que você devolveu o comando quando quem tinha o cargo voltou
“Numa loja em que trabalhei, a gerente teve de sair no meio de um sábado de liquidação, e a loja virou uma confusão. Propus um combinado rápido: duas pessoas no caixa, uma só nas trocas, e eu repondo o estoque. A reposição atrasou, e a fila andou. Quando a gerente voltou, contei o combinado e devolvi a loja.”
“No grupo da faculdade ninguém fazia nada, então eu fiz quase tudo sozinho.”
A resposta conta um esforço grande, e não conta liderança. Fazer tudo sozinho é o oposto de organizar, e quem ouve imagina essa pessoa tomando o trabalho dos colegas na primeira crise.
“Me conta de uma situação de crise. O que você fez?”
Esta pergunta é a sexta-feira à noite no pronto-atendimento. Quem entrevista quer ver o que você fez e o tom com que você fez.
- Se você pôs ordem antes de tentar resolver tudo
- Se você avisou quem precisava saber
- Se você manteve a calma, e se a calma ajudou os outros
- Contar a história como se você tivesse salvado todo mundo
- Falar mal de quem estava perdido na hora
- Não dizer nada sobre como ficou o clima depois
“No estágio, o sistema de pedidos caiu numa segunda de manhã, com o supervisor viajando. Sugeri que uma pessoa avisasse os clientes, que duas anotassem os pedidos no papel, e que eu ligasse para o suporte. Em uma hora o sistema voltou, e nenhum pedido se perdeu. O resumo para o supervisor me custou o almoço.”
“Eu tive de assumir tudo, porque o pessoal estava perdido.”
Dita desse jeito, a frase soa como o “vocês não sabem o que estão fazendo” do Wagner da segunda noite. Quem ouve imagina como o resto do time falaria dessa pessoa no dia seguinte.
“Como você toma a frente sem passar por cima de ninguém?”
Esta pergunta vai direto ao erro mais difícil de perceber, o de quem assume com soberba.
- Propor a organização como sugestão, e não como ordem
- Perguntar o que cada pessoa já está fazendo
- Devolver o comando a quem tem o cargo, assim que essa pessoa voltar
- “Eu sou direto, quem não gostar que se acostume”
- Dizer que você nunca toma a frente para não criar problema
- Tratar a crise como uma chance de mostrar quem manda
“Num trabalho de grupo da faculdade, a apresentação era no dia seguinte e ninguém sabia por onde começar. Antes de propor qualquer coisa, perguntei o que cada um já tinha feito, e uma colega já tinha montado metade da apresentação. Sugeri uma ordem a partir dali. Gastei meia hora ouvindo antes de dividir, e ninguém refez nada.”
“Eu prefiro não tomar a frente, para ninguém achar que eu quero aparecer.”
A resposta é a terceira frase do começo deste capítulo. Quem ouve entende que, na noite em que o coordenador sair, essa pessoa vai ficar olhando para os lados junto com todo mundo.
práticaLevar para o trabalho
Três situações em que alguém precisa trazer clareza, e o jeito de fazer isso conta tanto quanto fazer.abrir
Ninguém está organizando, e o trabalho virou bagunça
Quem coordena não está, ou não sabe, e cada pessoa está correndo para um lado. O erro comum é cuidar só da sua parte e esperar alguém resolver, como nos outros plantões.
- Que você proponha uma ordem para o que vem primeiro
- Que você pergunte o que cada pessoa já está fazendo
- Que você fale com calma, como quem sugere
- Que você espere em silêncio alguém assumir
- Que você dê ordens como se tivesse o cargo
- Que você tente fazer tudo sozinho
“Pessoal, posso sugerir uma ordem? Primeiro a gente resolve os pedidos que vencem hoje. A Ana pega os pedidos de São Paulo, eu pego os do Rio, e o Tiago responde os clientes que estão reclamando. Alguém já começou alguma coisa que eu não estou vendo?”
A última pergunta é a que separa o Wagner da primeira noite do Wagner da segunda. A pergunta deixa espaço para quem já tinha começado.
Você organizou, deu certo, e quem coordena voltou
O plantão está em ordem, e o coordenador acabou de chegar. O erro comum é contar a noite como um feito seu, ou continuar dando as tarefas como se nada tivesse mudado.
- Que você conte em poucas frases o que foi combinado
- Que você devolva o comando
- Que você diga o que ainda está pendente
- Que você conte a noite como um feito seu
- Que você continue dando as tarefas como se nada tivesse mudado
- Que você cobre reconhecimento
“Enquanto você estava fora, a gente combinou assim: a Ana com São Paulo, eu com o Rio, o Tiago com as reclamações. Falta responder três clientes. Daqui para a frente é com você. Quer que a gente mantenha essa divisão?”
Devolver o comando é o que faz as pessoas aceitarem você na frente da próxima vez. O coordenador do plantão só fez que sim com a cabeça, e mesmo assim todo mundo sabia quem tinha organizado a noite.
Um colega tomou a frente, e está passando por cima de todo mundo
Desta vez o Wagner da segunda noite é outra pessoa. O erro comum é brigar com o colega no meio da crise, ou fingir depois que o tom não importou porque a noite deu certo.
- Que você siga a organização enquanto a crise durar
- Que você converse com o colega depois, a sós
- Que você conte o efeito que o tom teve no time
- Que você brigue com o colega no meio da crise
- Que você comente depois com o resto do time
- Que você finja que o tom não importou porque deu certo
Para o colega, no dia seguinte: “Ontem você segurou a situação, e sem você a noite teria sido muito pior. Eu queria te contar uma coisa. Quando você gritou que ninguém sabia o que estava fazendo, o pessoal ficou mal. Da próxima vez, se você só disser o que cada um faz, todo mundo vai seguir do mesmo jeito.”
A conversa começa pelo que o colega fez de bom. Começar pelo que o colega fez de bom faz o colega conseguir ouvir o resto.
A conversa a sós, no dia seguinte, devolve ao colega o time que o grito tirou dele.
O que muda daqui em diante
Organize o plantão como o Wagner, com calma, e devolva o quadro em ordem quando o coordenador voltar.