O barco e o remo que parou
Quando um remador cansa e não avisa, o barco inteiro sai do rumo


O capítulo do Valdir terminou dizendo que um parafuso apertado agora é uma porta que não volta para a oficina. Este capítulo trata do dia em que falta força para apertar todos os parafusos, e do que a pessoa cansada faz com o cansaço.
Você cansou, ou a tarefa é maior do que parecia, e ninguém no time sabe disso além de você. Por enquanto, o time só sente.
O time sente o seu cansaço antes de você contar, e inventa um motivo se você não contar.
A regata da empresa
O barco da imagem que abre este capítulo é visto de cima, com quatro remadores que aparecem só como bonés e ombros. Três remos estão dentro da água. O terceiro remo, em verde, está levantado e parado no ar, e atrás do barco a esteira já faz uma curva, enquanto os outros barcos aparecem pequenos lá na frente.
Quatro colegas de trabalho foram escolhidos para representar a empresa numa regata. Nenhum dos quatro era atleta. A regata era uma brincadeira entre os setores da empresa, e mesmo assim ninguém queria passar vergonha.
Nos primeiros treinos, o grupo se entendeu rápido. Cada um tinha o próprio ritmo, e os quatro estavam comprometidos. Perto da prova, um dos remadores, o Caio, começou a faltar aos treinos. O Caio dizia que estava sobrecarregado, e que perder um ou dois dias não fazia tanta diferença assim.
Na água, a diferença aparecia. O barco andava bem até o Caio começar a cansar. Quando o Caio cansava, o Caio diminuía a força da remada, devagar, para não parecer que tinha parado. Os outros três percebiam do mesmo jeito. O barco girava um pouco para o lado do Caio, e a velocidade caía.
Pare aqui um segundo e responda como se você estivesse sentado no barco, logo atrás do Caio. O barco gira para o lado do Caio em mais um treino. O que você diz, e para quem?
Quase ninguém diz nada, e os três colegas do Caio também não disseram. Os três remaram mais forte, olharam uns para os outros, e o incômodo foi crescendo calado até o dia da prova.
O dia da prova
No dia da regata, o clima já estava tenso. Antes de entrar no barco, um dos colegas soltou uma frase no ar: “Hoje é para valer, hein. Todo mundo remando de verdade.”
A frase bastou para o Caio reagir atravessado. “Tá falando de mim? Eu estou me esforçando igual a vocês!”
Ninguém respondeu, e a prova começou com o desconforto dentro do barco. A cada remada o ritmo se desencontrava mais. Dois remadores aceleravam para compensar, e o outro segurava para esperar. O barco, que devia andar em linha reta, quase girava no mesmo lugar. Os quatro terminaram muito atrás dos outros barcos.
O barco girou no dia da prova pelo que ninguém disse nos treinos.
O grupo de mensagens
Na volta, ninguém disse nada em voz alta. No grupo de mensagens, os comentários começaram a aparecer. “Difícil remar com quem não está nem aí.” “É sempre o mesmo que atrasa.”
O Caio leu, ficou irritado, e respondeu no grupo. “Fácil culpar os outros. O barco é pesado e o remo é ruim. Quero ver vocês no meu lugar.”
Depois dessa troca, a relação nunca mais foi a mesma. Dois colegas passaram a evitar o Caio, e o terceiro só respondia o Caio por obrigação. O Caio se fechou, começou a faltar mais, e o grupo passou a tratar o Caio como peso. No mês seguinte, o Caio foi trocado de equipe. Ninguém decidiu isso numa reunião. O Caio foi trocado porque ninguém queria mais remar do lado dele.
O que o Caio podia ter dito no primeiro treino
O Caio tinha todo o direito de cansar. O problema do Caio foi esconder o cansaço por orgulho. No primeiro treino em que sentiu o peso, o Caio podia ter dito uma coisa simples: “Pessoal, eu estou com dificuldade de acompanhar o ritmo de vocês. Eu não quero atrapalhar, e estou sentindo que não estou rendendo igual. Vocês podem me ajudar a ajustar o movimento, para eu não quebrar o ritmo do barco?”
Com essa frase, o grupo teria reagido de outro jeito. As pessoas costumam ter paciência com quem mostra a dificuldade e mostra boa vontade junto. O problema deixaria de ser do Caio e passaria a ser do barco, e o barco encontraria um ritmo novo, que coubesse o remador mais cansado sem perder a corrida inteira.
O Caio não precisava provar força. O Caio precisava ser honesto, e num time a honestidade costuma render mais respeito do que a força.
Esconder o cansaço por orgulho custou ao Caio mais do que o próprio cansaço.
Ninguém chamou o Caio para conversar
O erro do Caio é o mais fácil de ver, e não foi o único. Os outros três perceberam que o barco girava, e escolheram ficar calados. Depois escolheram a indireta antes da prova, e o comentário no grupo de mensagens. Ninguém chamou o Caio para uma conversa sozinho, antes de a coisa virar briga.
O que deixou o barco para trás foi a conversa que virou desconfiança, e a desconfiança que virou isolamento. Segurar o remo junto com os outros também é perguntar ao colega o que está acontecendo, antes de concluir que o colega não liga.
Num time de tecnologia, o barco gira do mesmo jeito. Uma pessoa deixa de revisar o trabalho de um colega porque “não é prioridade”. Outra pessoa vê um aviso de erro e ignora, porque o sistema continuou funcionando. Ninguém fala nada, até o problema aparecer para o cliente.
Aí começa o empurra-empurra. “Quem mexeu nisso?” “Foi a outra equipe.” “Foi quem testou, que não testou direito.” O problema era técnico no começo. No fim, o problema virou um problema de confiança, e confiança quebrada não se conserta com uma correção no sistema.
O barco tinha força para chegar bem, e perdeu a corrida na conversa que ninguém teve.
Como avisar o barco antes de ele girar
Três perguntas que separam cansar de esconder o cansaço
São três, cabem no primeiro treino em que o peso aparece, e evitam o grupo de mensagens depois da prova.
Quase sempre o time já está. O barco girava para o lado do Caio, e os outros três percebiam do mesmo jeito. Quando você não conta o motivo, o time inventa um, e o motivo inventado costuma ser pior, como “não está nem aí”.
Diga o fato e diga o cuidado: “Estou com dificuldade de acompanhar o ritmo. Não quero atrapalhar.” A primeira frase dá ao time o motivo que faltava, e a segunda desarma quem estava pronto para cobrar.
Peça uma coisa que o time consiga fazer, como “podem me ajudar a ajustar o movimento?”. O pedido entrega o problema para o barco resolver junto, em vez de deixar o problema escondido com você.
Quem conta cedo que cansou ganha um barco que ajusta o ritmo junto.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas sobre limite, cobrança e colega que não está rendendo.abrir
Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: parecer alguém que nunca cansa. Só que nenhuma das três está medindo força. As três estão medindo se você avisa o barco antes de o barco começar a girar.
“Me conta de uma vez em que você não deu conta de uma tarefa.”
A pergunta parece ser sobre fraqueza, e é sobre quanto tempo você demora para avisar.
- Que você percebeu cedo que não ia dar conta
- Que você sabe dizer o que exatamente estava pesado
- Que a tarefa terminou, mesmo com ajuda
- Que você conta a história sem vergonha e sem drama
- Que você avisou o time, e não só o chefe
- Que você não culpa o barco nem o remo
“No meu primeiro estágio, peguei para organizar os cadastros antigos, e na primeira semana vi que não ia terminar no prazo. Fiquei três dias calado, de vergonha. Quando falei, uma colega me mostrou como separar os cadastros em lotes, e a gente dividiu. Os três dias calado custaram mais caro do que a conversa.”
“Não lembro de nenhuma vez. Eu sempre dou um jeito de entregar.”
A resposta tenta parecer forte, e soa como o Caio diminuindo a remada para ninguém perceber. Quem ouve entende que essa pessoa vai esconder o próximo aperto até o barco começar a girar.
“O que você faz quando um colega do time não está rendendo?”
Esta pergunta põe você no lugar dos outros três remadores. A pergunta parece ser sobre o colega, e é sobre o que você faz antes de concluir alguma coisa.
- Se você conversa com o colega antes de concluir alguma coisa
- Se a conversa é em particular
- Se você oferece ajuda, e não só cobrança
- Levar o assunto direto para o chefe
- Reclamar do colega com o resto do time
- Dizer que não é problema seu
“Num trabalho de grupo da faculdade, um colega parou de entregar a parte dele. Em vez de reclamar no grupo, chamei o colega para conversar sozinho, e descobri que o colega estava trabalhando à noite. A gente redistribuiu as tarefas, e o colega ficou com uma parte menor. Atrasamos dois dias, e ninguém saiu do grupo.”
“Eu falo com o líder. O líder é que tem de resolver isso.”
Às vezes falar com o líder é o caminho certo. Começar pelo líder, sem conversar com o colega, é a indireta antes da prova com outro nome.
“Como você reage quando alguém diz que você está atrasando o time?”
Esta pergunta é a frase “hoje é para valer, hein” dita na sua direção. A pergunta parece ser sobre temperamento, e é sobre o que você faz nos segundos antes de responder.
- Ouvir antes de se defender
- Perguntar o que a pessoa está vendo
- Dizer o que está pesado para você, se estiver
- “Tá falando de mim?”
- Culpar a ferramenta, o prazo ou o barco
- Responder no mesmo tom, na frente de todo mundo
“Num estágio, um colega disse na reunião que eu estava segurando a entrega dele. A minha vontade foi me defender, e em vez disso perguntei o que o colega estava vendo. O colega tinha razão, porque eu esperava uma resposta havia dois dias sem avisar ninguém. Contei o motivo e passei a avisar no mesmo dia.”
“Eu não aceito. Se alguém acha que eu estou atrasando, que venha falar direito.”
Pode ser que a pessoa tenha mesmo jogado uma indireta. Só que a resposta mostra alguém pronto para a briga, e uma briga dentro do barco fez o barco girar no mesmo lugar.
práticaLevar para o trabalho
Três situações em que alguém do barco, você ou outra pessoa, perde o ritmo.abrir
Você percebeu que não está acompanhando o ritmo do time
O cansaço chegou, ou a tarefa é mais difícil do que parecia, ou a vida lá fora está pesando. O erro comum é diminuir a remada devagar, para ninguém perceber, e esperar o dia da prova para ver se dava.
- Que você conte cedo, no primeiro treino, e não no dia da prova
- Que você diga o que está pesado, sem precisar contar tudo da sua vida
- Que você peça um ajuste concreto
- Que você finja que está tudo bem até quebrar
- Que você peça desculpas sem parar e não proponha nada
- Que você suma das conversas do time
“Pessoal, eu estou com dificuldade de acompanhar o ritmo esta semana, e a entrega de quinta não vai sair inteira. Eu não quero segurar o time. Dá para eu ficar com a parte de conferir, e alguém pegar a parte nova comigo até eu pegar o jeito?”
Contar cedo dá ao time tempo de ajustar o ritmo, como o Caio podia ter feito no primeiro treino. Contar tarde quase sempre termina com o time procurando um culpado.
Um colega parece estar remando menos
Você é um dos outros três. Você percebeu que o barco gira, e já ouviu o primeiro comentário no corredor. O erro comum é compensar calado, ou comentar com os outros antes de falar com o colega.
- Que você converse com o colega sozinho, antes de qualquer coisa
- Que você pergunte, em vez de acusar
- Que você ofereça uma ajuda que você consegue dar
- Que você jogue uma indireta na frente do time
- Que você comente no grupo de mensagens
- Que você compense calado até se cansar também
“Ei, tudo bem com você? Eu reparei que as suas duas últimas entregas atrasaram, e isso não é do seu jeito. Aconteceu alguma coisa? Se quiser, eu pego a revisão de amanhã.”
Compensar calado parece ajuda, e é o que os dois remadores que aceleravam faziam. O barco continuou girando, e quem compensava foi ficando com raiva.
Alguém reclamou de você no grupo de mensagens
A mensagem está lá, todo mundo leu, e a sua vontade é responder igual ao Caio. O erro comum é responder no grupo, no calor da hora, na frente de todo mundo.
- Que você não responda no grupo, no calor da hora
- Que você chame a pessoa para conversar sozinha
- Que você reconheça o que a reclamação tem de verdade
- Que você responda na mesma moeda, na frente de todos
- Que você culpe o barco, o remo ou o prazo
- Que você finja que não leu
Para a pessoa, numa conversa sozinho: “Eu li a sua mensagem. Fiquei chateado com o jeito, e mesmo assim tem coisa verdadeira nela. Eu estou mais lento desde a semana passada, e eu devia ter contado antes. Posso te explicar o que está acontecendo?”
Responder no grupo vira uma briga que todo mundo assiste, e conversar sozinho com a pessoa dá uma chance de a briga não começar.
O Caio perdeu a equipe numa troca de mensagens que uma conversa a sós teria evitado.
O que muda daqui em diante
Quem avisa que cansou ainda está remando com o barco.