O barco e o remo que parou

Quando um remador cansa e não avisa, o barco inteiro sai do rumo

Um barco de remo comprido, com quatro remadores, visto de cima, sobre a água. Os quatro remadores aparecem só como bonés e ombros, sem rosto. Três remadores estão com os remos dentro da água, no meio da remada. O terceiro remador está com o remo levantado, parado fora da água, e esse remo é desenhado em verde, o único elemento colorido da imagem. Atrás do barco, a esteira na água faz uma curva, mostrando que o barco está saindo da linha reta. Em volta, boias redondas flutuam na água, e lá na frente, pequenos, aparecem outros barcos bem mais adiantados. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.Um barco de remo comprido, com quatro remadores, visto de cima, sobre a água. Os quatro remadores aparecem só como bonés e ombros, sem rosto. Três remadores estão com os remos dentro da água, no meio da remada. O terceiro remador está com o remo levantado, parado fora da água, e esse remo é desenhado em verde, o único elemento colorido da imagem. Atrás do barco, a esteira na água faz uma curva, mostrando que o barco está saindo da linha reta. Em volta, boias redondas flutuam na água, e lá na frente, pequenos, aparecem outros barcos bem mais adiantados. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.
Um remo parado basta para o barco inteiro sair da linha.

O capítulo do Valdir terminou dizendo que um parafuso apertado agora é uma porta que não volta para a oficina. Este capítulo trata do dia em que falta força para apertar todos os parafusos, e do que a pessoa cansada faz com o cansaço.

Você cansou, ou a tarefa é maior do que parecia, e ninguém no time sabe disso além de você. Por enquanto, o time só sente.

Se eu disser que não estou conseguindo, vão achar que eu não sirvo para isso.
Ninguém vai perceber se eu diminuir um pouco.
Faltar um ou dois dias não faz tanta diferença assim.
Tá falando de mim? Eu estou me esforçando igual a todo mundo!

O time sente o seu cansaço antes de você contar, e inventa um motivo se você não contar.

A regata da empresa

O barco da imagem que abre este capítulo é visto de cima, com quatro remadores que aparecem só como bonés e ombros. Três remos estão dentro da água. O terceiro remo, em verde, está levantado e parado no ar, e atrás do barco a esteira já faz uma curva, enquanto os outros barcos aparecem pequenos lá na frente.

Quatro colegas de trabalho foram escolhidos para representar a empresa numa regata. Nenhum dos quatro era atleta. A regata era uma brincadeira entre os setores da empresa, e mesmo assim ninguém queria passar vergonha.

Nos primeiros treinos, o grupo se entendeu rápido. Cada um tinha o próprio ritmo, e os quatro estavam comprometidos. Perto da prova, um dos remadores, o Caio, começou a faltar aos treinos. O Caio dizia que estava sobrecarregado, e que perder um ou dois dias não fazia tanta diferença assim.

Na água, a diferença aparecia. O barco andava bem até o Caio começar a cansar. Quando o Caio cansava, o Caio diminuía a força da remada, devagar, para não parecer que tinha parado. Os outros três percebiam do mesmo jeito. O barco girava um pouco para o lado do Caio, e a velocidade caía.

Pare aqui um segundo e responda como se você estivesse sentado no barco, logo atrás do Caio. O barco gira para o lado do Caio em mais um treino. O que você diz, e para quem?

Quase ninguém diz nada, e os três colegas do Caio também não disseram. Os três remaram mais forte, olharam uns para os outros, e o incômodo foi crescendo calado até o dia da prova.

O dia da prova

No dia da regata, o clima já estava tenso. Antes de entrar no barco, um dos colegas soltou uma frase no ar: “Hoje é para valer, hein. Todo mundo remando de verdade.”

A frase bastou para o Caio reagir atravessado. “Tá falando de mim? Eu estou me esforçando igual a vocês!”

Ninguém respondeu, e a prova começou com o desconforto dentro do barco. A cada remada o ritmo se desencontrava mais. Dois remadores aceleravam para compensar, e o outro segurava para esperar. O barco, que devia andar em linha reta, quase girava no mesmo lugar. Os quatro terminaram muito atrás dos outros barcos.

O barco girou no dia da prova pelo que ninguém disse nos treinos.

O grupo de mensagens

Na volta, ninguém disse nada em voz alta. No grupo de mensagens, os comentários começaram a aparecer. “Difícil remar com quem não está nem aí.” “É sempre o mesmo que atrasa.”

O Caio leu, ficou irritado, e respondeu no grupo. “Fácil culpar os outros. O barco é pesado e o remo é ruim. Quero ver vocês no meu lugar.”

Depois dessa troca, a relação nunca mais foi a mesma. Dois colegas passaram a evitar o Caio, e o terceiro só respondia o Caio por obrigação. O Caio se fechou, começou a faltar mais, e o grupo passou a tratar o Caio como peso. No mês seguinte, o Caio foi trocado de equipe. Ninguém decidiu isso numa reunião. O Caio foi trocado porque ninguém queria mais remar do lado dele.

O que o Caio podia ter dito no primeiro treino

O Caio tinha todo o direito de cansar. O problema do Caio foi esconder o cansaço por orgulho. No primeiro treino em que sentiu o peso, o Caio podia ter dito uma coisa simples: “Pessoal, eu estou com dificuldade de acompanhar o ritmo de vocês. Eu não quero atrapalhar, e estou sentindo que não estou rendendo igual. Vocês podem me ajudar a ajustar o movimento, para eu não quebrar o ritmo do barco?”

Com essa frase, o grupo teria reagido de outro jeito. As pessoas costumam ter paciência com quem mostra a dificuldade e mostra boa vontade junto. O problema deixaria de ser do Caio e passaria a ser do barco, e o barco encontraria um ritmo novo, que coubesse o remador mais cansado sem perder a corrida inteira.

O Caio não precisava provar força. O Caio precisava ser honesto, e num time a honestidade costuma render mais respeito do que a força.

Esconder o cansaço por orgulho custou ao Caio mais do que o próprio cansaço.

Ninguém chamou o Caio para conversar

O erro do Caio é o mais fácil de ver, e não foi o único. Os outros três perceberam que o barco girava, e escolheram ficar calados. Depois escolheram a indireta antes da prova, e o comentário no grupo de mensagens. Ninguém chamou o Caio para uma conversa sozinho, antes de a coisa virar briga.

O que deixou o barco para trás foi a conversa que virou desconfiança, e a desconfiança que virou isolamento. Segurar o remo junto com os outros também é perguntar ao colega o que está acontecendo, antes de concluir que o colega não liga.

Num time de tecnologia, o barco gira do mesmo jeito. Uma pessoa deixa de revisar o trabalho de um colega porque “não é prioridade”. Outra pessoa vê um aviso de erro e ignora, porque o sistema continuou funcionando. Ninguém fala nada, até o problema aparecer para o cliente.

Aí começa o empurra-empurra. “Quem mexeu nisso?” “Foi a outra equipe.” “Foi quem testou, que não testou direito.” O problema era técnico no começo. No fim, o problema virou um problema de confiança, e confiança quebrada não se conserta com uma correção no sistema.

O barco tinha força para chegar bem, e perdeu a corrida na conversa que ninguém teve.

Como avisar o barco antes de ele girar

Antes de diminuir a remada

Três perguntas que separam cansar de esconder o cansaço

São três, cabem no primeiro treino em que o peso aparece, e evitam o grupo de mensagens depois da prova.

1. O time já está sentindo?

Quase sempre o time já está. O barco girava para o lado do Caio, e os outros três percebiam do mesmo jeito. Quando você não conta o motivo, o time inventa um, e o motivo inventado costuma ser pior, como “não está nem aí”.

2. O que exatamente está pesado, e o que eu não quero?

Diga o fato e diga o cuidado: “Estou com dificuldade de acompanhar o ritmo. Não quero atrapalhar.” A primeira frase dá ao time o motivo que faltava, e a segunda desarma quem estava pronto para cobrar.

3. Que ajuste eu peço ao time?

Peça uma coisa que o time consiga fazer, como “podem me ajudar a ajustar o movimento?”. O pedido entrega o problema para o barco resolver junto, em vez de deixar o problema escondido com você.

Quem conta cedo que cansou ganha um barco que ajusta o ritmo junto.

prática

Levar para a entrevista

Três perguntas sobre limite, cobrança e colega que não está rendendo.
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Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: parecer alguém que nunca cansa. Só que nenhuma das três está medindo força. As três estão medindo se você avisa o barco antes de o barco começar a girar.

“Me conta de uma vez em que você não deu conta de uma tarefa.”

A pergunta parece ser sobre fraqueza, e é sobre quanto tempo você demora para avisar.

O avaliador técnico quer ver
  • Que você percebeu cedo que não ia dar conta
  • Que você sabe dizer o que exatamente estava pesado
  • Que a tarefa terminou, mesmo com ajuda
O avaliador de pessoas quer ver
  • Que você conta a história sem vergonha e sem drama
  • Que você avisou o time, e não só o chefe
  • Que você não culpa o barco nem o remo
Boa resposta

“No meu primeiro estágio, peguei para organizar os cadastros antigos, e na primeira semana vi que não ia terminar no prazo. Fiquei três dias calado, de vergonha. Quando falei, uma colega me mostrou como separar os cadastros em lotes, e a gente dividiu. Os três dias calado custaram mais caro do que a conversa.”

Resposta ruim

“Não lembro de nenhuma vez. Eu sempre dou um jeito de entregar.”

A resposta tenta parecer forte, e soa como o Caio diminuindo a remada para ninguém perceber. Quem ouve entende que essa pessoa vai esconder o próximo aperto até o barco começar a girar.

“O que você faz quando um colega do time não está rendendo?”

Esta pergunta põe você no lugar dos outros três remadores. A pergunta parece ser sobre o colega, e é sobre o que você faz antes de concluir alguma coisa.

O que eles querem saber
  • Se você conversa com o colega antes de concluir alguma coisa
  • Se a conversa é em particular
  • Se você oferece ajuda, e não só cobrança
O que derruba
  • Levar o assunto direto para o chefe
  • Reclamar do colega com o resto do time
  • Dizer que não é problema seu
Boa resposta

“Num trabalho de grupo da faculdade, um colega parou de entregar a parte dele. Em vez de reclamar no grupo, chamei o colega para conversar sozinho, e descobri que o colega estava trabalhando à noite. A gente redistribuiu as tarefas, e o colega ficou com uma parte menor. Atrasamos dois dias, e ninguém saiu do grupo.”

Resposta ruim

“Eu falo com o líder. O líder é que tem de resolver isso.”

Às vezes falar com o líder é o caminho certo. Começar pelo líder, sem conversar com o colega, é a indireta antes da prova com outro nome.

“Como você reage quando alguém diz que você está atrasando o time?”

Esta pergunta é a frase “hoje é para valer, hein” dita na sua direção. A pergunta parece ser sobre temperamento, e é sobre o que você faz nos segundos antes de responder.

Boa direção
  • Ouvir antes de se defender
  • Perguntar o que a pessoa está vendo
  • Dizer o que está pesado para você, se estiver
Direção ruim
  • “Tá falando de mim?”
  • Culpar a ferramenta, o prazo ou o barco
  • Responder no mesmo tom, na frente de todo mundo
Boa resposta

“Num estágio, um colega disse na reunião que eu estava segurando a entrega dele. A minha vontade foi me defender, e em vez disso perguntei o que o colega estava vendo. O colega tinha razão, porque eu esperava uma resposta havia dois dias sem avisar ninguém. Contei o motivo e passei a avisar no mesmo dia.”

Resposta ruim

“Eu não aceito. Se alguém acha que eu estou atrasando, que venha falar direito.”

Pode ser que a pessoa tenha mesmo jogado uma indireta. Só que a resposta mostra alguém pronto para a briga, e uma briga dentro do barco fez o barco girar no mesmo lugar.

prática

Levar para o trabalho

Três situações em que alguém do barco, você ou outra pessoa, perde o ritmo.
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Você percebeu que não está acompanhando o ritmo do time

O cansaço chegou, ou a tarefa é mais difícil do que parecia, ou a vida lá fora está pesando. O erro comum é diminuir a remada devagar, para ninguém perceber, e esperar o dia da prova para ver se dava.

Esperam de você
  • Que você conte cedo, no primeiro treino, e não no dia da prova
  • Que você diga o que está pesado, sem precisar contar tudo da sua vida
  • Que você peça um ajuste concreto
Não esperam de você
  • Que você finja que está tudo bem até quebrar
  • Que você peça desculpas sem parar e não proponha nada
  • Que você suma das conversas do time
O que dizer

“Pessoal, eu estou com dificuldade de acompanhar o ritmo esta semana, e a entrega de quinta não vai sair inteira. Eu não quero segurar o time. Dá para eu ficar com a parte de conferir, e alguém pegar a parte nova comigo até eu pegar o jeito?”

Contar cedo dá ao time tempo de ajustar o ritmo, como o Caio podia ter feito no primeiro treino. Contar tarde quase sempre termina com o time procurando um culpado.

Um colega parece estar remando menos

Você é um dos outros três. Você percebeu que o barco gira, e já ouviu o primeiro comentário no corredor. O erro comum é compensar calado, ou comentar com os outros antes de falar com o colega.

Esperam de você
  • Que você converse com o colega sozinho, antes de qualquer coisa
  • Que você pergunte, em vez de acusar
  • Que você ofereça uma ajuda que você consegue dar
Não esperam de você
  • Que você jogue uma indireta na frente do time
  • Que você comente no grupo de mensagens
  • Que você compense calado até se cansar também
O que dizer

“Ei, tudo bem com você? Eu reparei que as suas duas últimas entregas atrasaram, e isso não é do seu jeito. Aconteceu alguma coisa? Se quiser, eu pego a revisão de amanhã.”

Compensar calado parece ajuda, e é o que os dois remadores que aceleravam faziam. O barco continuou girando, e quem compensava foi ficando com raiva.

Alguém reclamou de você no grupo de mensagens

A mensagem está lá, todo mundo leu, e a sua vontade é responder igual ao Caio. O erro comum é responder no grupo, no calor da hora, na frente de todo mundo.

Esperam de você
  • Que você não responda no grupo, no calor da hora
  • Que você chame a pessoa para conversar sozinha
  • Que você reconheça o que a reclamação tem de verdade
Não esperam de você
  • Que você responda na mesma moeda, na frente de todos
  • Que você culpe o barco, o remo ou o prazo
  • Que você finja que não leu
O que dizer

Para a pessoa, numa conversa sozinho: “Eu li a sua mensagem. Fiquei chateado com o jeito, e mesmo assim tem coisa verdadeira nela. Eu estou mais lento desde a semana passada, e eu devia ter contado antes. Posso te explicar o que está acontecendo?”

Responder no grupo vira uma briga que todo mundo assiste, e conversar sozinho com a pessoa dá uma chance de a briga não começar.

O Caio perdeu a equipe numa troca de mensagens que uma conversa a sós teria evitado.

O que muda daqui em diante

Cansar
Antes
Uma fraqueza que precisa ficar escondida
Agora
Uma coisa que acontece com todo mundo, e que o time precisa saber
Diminuir a remada devagar
Antes
Um jeito de ninguém perceber
Agora
Um jeito de o time perceber sem saber o motivo
Contar que você não está dando conta
Antes
Pedir para ser trocado de equipe
Agora
Pedir para o barco ajustar o ritmo junto com você
O barco girando
Antes
Falta de força de alguém
Agora
O sinal de que alguém cansou e ainda não contou
O silêncio do time
Antes
Educação
Agora
O que deixa o problema crescer até virar briga

Quem avisa que cansou ainda está remando com o barco.