O músico que tocava sem ouvir o maestro
Saber a sua parte de cor não é o mesmo que tocar com os outros


A abertura desta seção terminou dizendo que, antes de se destacar, é preciso aprender a somar. Este capítulo mostra o jeito mais comum de não somar, que é saber a sua parte de cor e não ouvir quando a música muda.
Você estudou a sua parte até saber de cor. E mesmo assim, no dia em que tudo precisou funcionar junto, a sua parte entrou no lugar errado.
Decorar a sua vez funciona até o dia em que a música muda.
O violinista que decorou a vez dele
O palco da imagem que abre este capítulo está vazio, visto do alto do balcão. No centro, em cima da partitura aberta no pódio, está a batuta do maestro, em verde. As estantes das três fileiras estão viradas para a batuta, menos uma, na primeira fileira à esquerda, com um estojo de violino fechado na cadeira.
A estante de costas para a batuta é a de um jovem violinista, e a história dele é esta.
A orquestra se prepara para um concerto grande. A orquestra tem cem músicos, dezenas de instrumentos e um maestro na frente, conduzindo cada detalhe. O jovem violinista tem talento e se esforça, mas é impaciente. Nos ensaios, o violinista quer fazer tudo do jeito dele.
Enquanto os colegas prestam atenção no maestro, ajustam o tempo e escutam o conjunto, o violinista faz outra conta. “Eu já decorei quando entra a minha parte. Depois do solo do oboé, é a minha vez. É só esperar e entrar.”
Nos intervalos, o violinista prefere treinar sozinho. O violinista repete a própria parte dezenas de vezes, sem errar uma nota, mas nunca toca junto com os outros. Quando alguém tenta corrigir alguma coisa, a resposta é sempre a mesma: “Fica tranquilo, eu sei o meu trecho de cor.” O violinista acredita que dominar a própria parte é o suficiente.
O dia do concerto
Chega o dia do concerto. O teatro está lotado, o público fica em silêncio e o maestro levanta a batuta.
No meio da apresentação, o maestro muda a ordem de entrada de alguns instrumentos. O ajuste é pequeno, e os músicos tinham treinado esse ajuste juntos no último ensaio. Todos os músicos seguem o maestro sem dificuldade. O jovem violinista não segue.
O violinista olha assustado. O solo do oboé termina, e a vez do violinista não vem mais logo depois. O violinista entra fora de hora, atropela outro instrumento, e o som que devia ser música vira barulho.
Pare aqui um segundo e responda como se você fosse o maestro, de pé no pódio, com a batuta na mão. O violinista errou alguma nota?
O violinista não errou nenhuma. O violinista tocou cada nota do jeito que tinha treinado, e entrou numa hora que já não existia. No fim do concerto, o violinista está frustrado. “Mas eu toquei certo! Eu fiz exatamente o que treinei!” E o violinista tem razão. A música é que tinha mudado, e o violinista não estava ouvindo o maestro.
A sua parte pode estar certa e, mesmo assim, entrar na hora errada.
A conversa depois do concerto
Depois do concerto, o maestro chama o violinista para conversar. O maestro não dá bronca e não faz ironia. O maestro diz uma frase só: “Você toca bem, mas ainda não toca com o grupo. Saber a sua parte é importante. Entender o todo é o que faz de você um músico de verdade.”
O violinista entende ali o que os ensaios sozinho fizeram com ele. Treinar sozinho deu técnica ao violinista. Treinar sozinho também afastou o violinista das únicas pessoas que sabiam que a música ia mudar.
Numa orquestra, decorar o seu momento não basta. O violinista precisava ouvir o compasso dos outros, e o compasso dos outros só se ouve tocando junto.
O violinista ensaiou a parte dele dezenas de vezes, e nenhuma vez junto com a orquestra.
Quando o plano muda no meio do trabalho
Num time de trabalho acontece a mesma coisa, só que sem palco. Uma pessoa recebe a sua tarefa, entende o que precisa ser feito, e some para fazer. Essa pessoa não vai às conversas do time, não mostra o trabalho antes de terminar e não pergunta o que os outros estão fazendo, porque acha tudo isso perda de tempo.
Enquanto nada muda, essa pessoa parece a mais produtiva do time. Um dia o plano muda. O cliente pede outra coisa, ou quem lidera troca a ordem das entregas, ou outra parte do trabalho passa a funcionar de outro jeito. O time inteiro fica sabendo na conversa da manhã. A pessoa que trabalha sozinha só fica sabendo quando entrega, e entrega uma coisa que funciona e não encaixa mais em nada.
Quem lidera chega e diz: “A gente precisou mudar a ordem em que as partes do sistema rodam. Você consegue ajustar a sua?” A pessoa pode responder de dois jeitos.
- “Mas eu fiz do jeito que estava combinado!”
- Defende a tarefa, que estava certa
- Faz o time parar para explicar tudo de novo
- “Me explica como ficou a ordem nova, para a minha parte encaixar nas outras”
- Ajusta a tarefa ao plano novo
- Pergunta o que mudou antes de alguém precisar avisar
A pessoa da primeira coluna não está errada, porque a tarefa estava mesmo certa. Só que essa pessoa cumpriu a tarefa e falhou no motivo de a tarefa existir, que era encaixar no trabalho dos outros. A pessoa da segunda coluna também toca bem, e a pessoa da segunda coluna vale mais porque ouve melhor ainda.
Ouvir o grupo também não é ficar parado esperando ordem. Ouvir o grupo é ir às conversas do time, mostrar o trabalho pela metade, perguntar “isso ainda vale?” quando você desconfia que alguma coisa mudou, e tocar junto antes do dia do concerto.
A ferramenta não estava no último ensaio
Hoje muita gente treina a própria parte com a ajuda da inteligência artificial, e essa ajuda é boa. A ferramenta explica, corrige e faz você tocar o seu trecho sem errar nenhuma nota. Só que a ferramenta ensaia com você sozinho. A ferramenta não estava no último ensaio, e não sabe que o maestro mudou a ordem. Saber o que mudou continua sendo trabalho seu, e você só fica sabendo se estiver ouvindo o grupo.
Como ouvir o maestro antes de entrar
Três perguntas que separam saber a parte de tocar com o grupo
São três, cabem nos cinco minutos antes de entregar, e evitam a semana perdida refazendo uma parte certa que já não encaixa.
O maestro mudou a ordem de entrada no último ensaio, e todos os músicos que estavam lá seguiram sem dificuldade. O violinista não estava, porque treinava sozinho. Pergunte antes de entrar, mesmo quando parecer que nada mudou.
O violinista sabia uma coisa só, que a vez dele vinha depois do solo do oboé. No trabalho, saiba de quem você recebe e para quem você entrega, e confira se as duas pontas continuam as mesmas.
Dezenas de ensaios sozinho não valem um ensaio com o grupo. Mostre a parte pela metade e teste junto antes do dia do concerto, porque a mudança só aparece a tempo para quem ensaia junto.
Quem ouve o maestro entra na hora certa mesmo quando a hora muda.
práticaLevar para a entrevista
Três perguntas sobre como você trabalha com outras pessoas.abrir
Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: mostrar que você sabe a sua parte de cor. Só que nenhuma das três está medindo a sua técnica sozinho. As três estão medindo se você ouve o maestro e o resto da orquestra enquanto toca.
“Você prefere trabalhar sozinho ou em equipe?”
A pergunta parece ser sobre gosto, e é sobre o que você faz quando o seu trabalho precisa encaixar no de outra pessoa.
- Que você sabe se concentrar numa tarefa sem ninguém do lado
- Que você mostra o trabalho antes de terminar
- Que você sabe onde a sua parte encosta na parte dos outros
- Que você não foge das conversas do time
- Que você não trata o time como atraso
- Que você é sincero, sem dar a resposta decorada
“No projeto final do curso, eu passei as primeiras horas sozinho na minha parte, que é como eu me concentro melhor. Antes de terminar, mostrei a parte ainda feia ao grupo, e descobri que o grupo tinha mudado o formato dos dados. Ajustei numa tarde. Se tivesse esperado ficar bonito, teria refeito tudo.”
“Prefiro sozinho, porque em grupo sempre tem alguém que atrapalha.”
A resposta pode até ser sincera. Só que quem ouve imagina essa pessoa sumindo com a tarefa e voltando com uma coisa que não encaixa, e reclamando do time depois.
“O que você faz quando a prioridade muda no meio de uma tarefa?”
Esta pergunta é o dia do concerto. A pergunta parece ser sobre obediência, e é sobre ficar sabendo da mudança e ajustar a sua parte sem drama.
- Se você pergunta o que mudou e por quê
- Se você avisa o que vai ficar para trás por causa da mudança
- Se você consegue largar o que estava fazendo sem raiva
- Reclamar de quem mudou o plano
- “Eu termino o que comecei e depois vejo”
- Não dizer o que acontece com a tarefa antiga
“Num estágio, a prioridade mudou numa quarta-feira, no meio de uma tarefa. Perguntei o motivo, porque o motivo dizia o que fazer com o que eu já tinha feito. Anotei onde tinha parado, avisei a colega que dependia daquela tarefa e fui para a nova. A tarefa antiga ficou duas semanas parada, e a colega já sabia.”
“Eu faço o que mandarem. Se mudou, mudou.”
A resposta parece flexível e esconde o que importa. Quem ouve não fica sabendo se essa pessoa pergunta, se avisa, ou se só obedece calada, como o violinista, que também achava que estava fazendo o que mandaram.
“Me conta de um trabalho em grupo. Qual era a sua parte, e como ela se encaixava no resto?”
A pergunta tem duas metades, e muita gente responde só a primeira, contando a própria parte em detalhes.
- Contar a sua parte em poucas frases
- Dizer de quem você recebia trabalho, e para quem entregava
- Contar um momento em que as partes não encaixaram, e o que o grupo fez
- Falar só da sua parte
- Não saber o que os colegas fizeram
- Contar que você fez tudo sozinho porque o grupo não ajudava
“Fizemos em quatro pessoas um sistema de agendamento para uma clínica, e a minha parte era a tela de marcar horário. Eu recebia de uma colega os horários livres. No meio do projeto, a colega mudou o jeito de guardar os horários, e a minha tela parou. Perdemos dois dias, e combinamos de avisar no grupo toda mudança de formato.”
“Eu fiz a tela de agendamento, e a minha parte ficou muito boa.”
A resposta só fala do violinista e esquece a orquestra. Quem pergunta “como ela se encaixava” está pedindo justamente o que essa resposta deixou de fora.
práticaLevar para o trabalho
Três situações em que a sua parte precisa encaixar na parte dos outros.abrir
O plano mudou, e você só ficou sabendo na hora de entregar
Essa situação é o dia do concerto do violinista, e às vezes ninguém avisou mesmo. O erro comum é defender a tarefa antiga, que estava certa, em vez de perguntar o que mudou e quanto falta para encaixar.
- Que você pergunte o que mudou, e por quê
- Que você diga quanto tempo leva para ajustar a sua parte
- Que você combine como vai ficar sabendo da próxima mudança
- “Mas eu fiz do jeito que estava combinado!”
- Que você procure o culpado por não ter avisado
- Que você ajuste calado e atrase sem dizer nada
“Eu não sabia dessa mudança, e a minha parte ainda está do jeito antigo. Me explica como ficou a ordem nova? Consigo ajustar até amanhã à tarde. E daqui para a frente eu vou à conversa das nove da manhã, para não ficar de fora de novo.”
A última frase da fala é a mais importante, porque a última frase é a decisão de parar de ensaiar sozinho.
Você está há dias trabalhando sozinho numa parte
Ninguém pediu para ver, e você prefere mostrar só quando estiver perfeito, como o violinista nos intervalos dos ensaios. O erro comum é sumir até terminar e descobrir no fim que alguma coisa mudou.
- Que você mostre o trabalho pela metade
- Que você pergunte se alguma coisa mudou desde que você começou
- Que você confira onde a sua parte encosta na parte de outra pessoa
- Que você suma até terminar
- Que você espere alguém perguntar como está
- Que você ache que mostrar pela metade é mostrar fraqueza
“Ainda não terminei, mas quero mostrar como está ficando antes de seguir. Comecei na segunda-feira, e de lá para cá alguma coisa mudou? A parte que recebe o que eu faço continua esperando os dados neste formato?”
Mostrar pela metade custa dez minutos. Descobrir no fim que a sua parte não encaixa custa a semana inteira.
Você terminou a sua parte antes do resto do time
O violinista acharia que o trabalho dele acabou ali. O erro comum é dar a parte por encerrada e pegar outra coisa, quando a sua parte só está pronta depois de funcionar junto com as outras.
- Que você teste a sua parte junto com a parte de quem vem antes e de quem vem depois
- Que você pergunte se alguém precisa de ajuda
- Que você avise que terminou, e o que ficou pendente
- Que você dê o trabalho por encerrado e pegue outra coisa sem avisar
- Que você fique esperando os outros sem fazer nada
- Que você aponte quem está atrasado
“A minha parte está pronta desde ontem. Antes de pegar outra coisa, eu quero testar junto com a parte do Diego, que recebe o que eu entrego. Alguém precisa de uma mão até sexta?”
Terminar antes só vale para o time quando o tempo que sobrou vai para a sua parte encaixar nas outras. Testar junto com o Diego é o ensaio com o grupo que o violinista pulou.
A sua parte só fica pronta no dia em que toca junto com as outras.
O que muda daqui em diante
O bom profissional não toca para brilhar. O bom profissional toca para o time soar bem.