O músico que tocava sem ouvir o maestro

Saber a sua parte de cor não é o mesmo que tocar com os outros

Um palco de orquestra antes do concerto, vazio, visto do alto, como de um balcão do teatro. Em meio círculo, três fileiras de cadeiras, cada uma com uma estante de partitura na frente; em algumas cadeiras ficaram instrumentos, como um violino, um violoncelo deitado no chão e estojos abertos, e ao fundo há dois tímpanos. No centro, na frente das fileiras, fica o pódio do maestro com uma partitura grande aberta, e em cima dela está a batuta, desenhada em verde, o único elemento colorido da imagem. Todas as estantes estão viradas para o pódio, menos uma, na primeira fileira, à esquerda, que está de costas para a batuta, com um estojo de violino fechado na cadeira. Nas laterais há cortinas recolhidas, e na parte de baixo da imagem aparecem a borda do palco e as primeiras fileiras da plateia vazia. Não há nenhuma pessoa e nenhuma palavra escrita na imagem.Um palco de orquestra antes do concerto, vazio, visto do alto, como de um balcão do teatro. Em meio círculo, três fileiras de cadeiras, cada uma com uma estante de partitura na frente; em algumas cadeiras ficaram instrumentos, como um violino, um violoncelo deitado no chão e estojos abertos, e ao fundo há dois tímpanos. No centro, na frente das fileiras, fica o pódio do maestro com uma partitura grande aberta, e em cima dela está a batuta, desenhada em verde, o único elemento colorido da imagem. Todas as estantes estão viradas para o pódio, menos uma, na primeira fileira, à esquerda, que está de costas para a batuta, com um estojo de violino fechado na cadeira. Nas laterais há cortinas recolhidas, e na parte de baixo da imagem aparecem a borda do palco e as primeiras fileiras da plateia vazia. Não há nenhuma pessoa e nenhuma palavra escrita na imagem.
Todas as estantes estão viradas para a batuta, menos uma.

A abertura desta seção terminou dizendo que, antes de se destacar, é preciso aprender a somar. Este capítulo mostra o jeito mais comum de não somar, que é saber a sua parte de cor e não ouvir quando a música muda.

Você estudou a sua parte até saber de cor. E mesmo assim, no dia em que tudo precisou funcionar junto, a sua parte entrou no lugar errado.

Eu já decorei a minha parte. É só esperar a minha vez e entrar.
Reunião de time é perda de tempo. Eu rendo mais sozinho.
Fica tranquilo, eu sei o meu trecho de cor.
Mas eu fiz exatamente o que estava combinado!

Decorar a sua vez funciona até o dia em que a música muda.

O violinista que decorou a vez dele

O palco da imagem que abre este capítulo está vazio, visto do alto do balcão. No centro, em cima da partitura aberta no pódio, está a batuta do maestro, em verde. As estantes das três fileiras estão viradas para a batuta, menos uma, na primeira fileira à esquerda, com um estojo de violino fechado na cadeira.

A estante de costas para a batuta é a de um jovem violinista, e a história dele é esta.

A orquestra se prepara para um concerto grande. A orquestra tem cem músicos, dezenas de instrumentos e um maestro na frente, conduzindo cada detalhe. O jovem violinista tem talento e se esforça, mas é impaciente. Nos ensaios, o violinista quer fazer tudo do jeito dele.

Enquanto os colegas prestam atenção no maestro, ajustam o tempo e escutam o conjunto, o violinista faz outra conta. “Eu já decorei quando entra a minha parte. Depois do solo do oboé, é a minha vez. É só esperar e entrar.”

Nos intervalos, o violinista prefere treinar sozinho. O violinista repete a própria parte dezenas de vezes, sem errar uma nota, mas nunca toca junto com os outros. Quando alguém tenta corrigir alguma coisa, a resposta é sempre a mesma: “Fica tranquilo, eu sei o meu trecho de cor.” O violinista acredita que dominar a própria parte é o suficiente.

O dia do concerto

Chega o dia do concerto. O teatro está lotado, o público fica em silêncio e o maestro levanta a batuta.

No meio da apresentação, o maestro muda a ordem de entrada de alguns instrumentos. O ajuste é pequeno, e os músicos tinham treinado esse ajuste juntos no último ensaio. Todos os músicos seguem o maestro sem dificuldade. O jovem violinista não segue.

O violinista olha assustado. O solo do oboé termina, e a vez do violinista não vem mais logo depois. O violinista entra fora de hora, atropela outro instrumento, e o som que devia ser música vira barulho.

Pare aqui um segundo e responda como se você fosse o maestro, de pé no pódio, com a batuta na mão. O violinista errou alguma nota?

O violinista não errou nenhuma. O violinista tocou cada nota do jeito que tinha treinado, e entrou numa hora que já não existia. No fim do concerto, o violinista está frustrado. “Mas eu toquei certo! Eu fiz exatamente o que treinei!” E o violinista tem razão. A música é que tinha mudado, e o violinista não estava ouvindo o maestro.

A sua parte pode estar certa e, mesmo assim, entrar na hora errada.

A conversa depois do concerto

Depois do concerto, o maestro chama o violinista para conversar. O maestro não dá bronca e não faz ironia. O maestro diz uma frase só: “Você toca bem, mas ainda não toca com o grupo. Saber a sua parte é importante. Entender o todo é o que faz de você um músico de verdade.”

O violinista entende ali o que os ensaios sozinho fizeram com ele. Treinar sozinho deu técnica ao violinista. Treinar sozinho também afastou o violinista das únicas pessoas que sabiam que a música ia mudar.

Numa orquestra, decorar o seu momento não basta. O violinista precisava ouvir o compasso dos outros, e o compasso dos outros só se ouve tocando junto.

O violinista ensaiou a parte dele dezenas de vezes, e nenhuma vez junto com a orquestra.

Quando o plano muda no meio do trabalho

Num time de trabalho acontece a mesma coisa, só que sem palco. Uma pessoa recebe a sua tarefa, entende o que precisa ser feito, e some para fazer. Essa pessoa não vai às conversas do time, não mostra o trabalho antes de terminar e não pergunta o que os outros estão fazendo, porque acha tudo isso perda de tempo.

Enquanto nada muda, essa pessoa parece a mais produtiva do time. Um dia o plano muda. O cliente pede outra coisa, ou quem lidera troca a ordem das entregas, ou outra parte do trabalho passa a funcionar de outro jeito. O time inteiro fica sabendo na conversa da manhã. A pessoa que trabalha sozinha só fica sabendo quando entrega, e entrega uma coisa que funciona e não encaixa mais em nada.

Quem lidera chega e diz: “A gente precisou mudar a ordem em que as partes do sistema rodam. Você consegue ajustar a sua?” A pessoa pode responder de dois jeitos.

Quem toca sozinho responde
  • “Mas eu fiz do jeito que estava combinado!”
  • Defende a tarefa, que estava certa
  • Faz o time parar para explicar tudo de novo
Quem toca com o grupo responde
  • “Me explica como ficou a ordem nova, para a minha parte encaixar nas outras”
  • Ajusta a tarefa ao plano novo
  • Pergunta o que mudou antes de alguém precisar avisar

A pessoa da primeira coluna não está errada, porque a tarefa estava mesmo certa. Só que essa pessoa cumpriu a tarefa e falhou no motivo de a tarefa existir, que era encaixar no trabalho dos outros. A pessoa da segunda coluna também toca bem, e a pessoa da segunda coluna vale mais porque ouve melhor ainda.

Ouvir o grupo também não é ficar parado esperando ordem. Ouvir o grupo é ir às conversas do time, mostrar o trabalho pela metade, perguntar “isso ainda vale?” quando você desconfia que alguma coisa mudou, e tocar junto antes do dia do concerto.

A ferramenta não estava no último ensaio

Hoje muita gente treina a própria parte com a ajuda da inteligência artificial, e essa ajuda é boa. A ferramenta explica, corrige e faz você tocar o seu trecho sem errar nenhuma nota. Só que a ferramenta ensaia com você sozinho. A ferramenta não estava no último ensaio, e não sabe que o maestro mudou a ordem. Saber o que mudou continua sendo trabalho seu, e você só fica sabendo se estiver ouvindo o grupo.

Como ouvir o maestro antes de entrar

Antes de entregar a sua parte

Três perguntas que separam saber a parte de tocar com o grupo

São três, cabem nos cinco minutos antes de entregar, e evitam a semana perdida refazendo uma parte certa que já não encaixa.

1. O que mudou desde o último ensaio?

O maestro mudou a ordem de entrada no último ensaio, e todos os músicos que estavam lá seguiram sem dificuldade. O violinista não estava, porque treinava sozinho. Pergunte antes de entrar, mesmo quando parecer que nada mudou.

2. Depois de quem eu entro, e quem entra depois de mim?

O violinista sabia uma coisa só, que a vez dele vinha depois do solo do oboé. No trabalho, saiba de quem você recebe e para quem você entrega, e confira se as duas pontas continuam as mesmas.

3. A minha parte já tocou junto com as outras?

Dezenas de ensaios sozinho não valem um ensaio com o grupo. Mostre a parte pela metade e teste junto antes do dia do concerto, porque a mudança só aparece a tempo para quem ensaia junto.

Quem ouve o maestro entra na hora certa mesmo quando a hora muda.

prática

Levar para a entrevista

Três perguntas sobre como você trabalha com outras pessoas.
abrir

Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: mostrar que você sabe a sua parte de cor. Só que nenhuma das três está medindo a sua técnica sozinho. As três estão medindo se você ouve o maestro e o resto da orquestra enquanto toca.

“Você prefere trabalhar sozinho ou em equipe?”

A pergunta parece ser sobre gosto, e é sobre o que você faz quando o seu trabalho precisa encaixar no de outra pessoa.

O avaliador técnico quer ver
  • Que você sabe se concentrar numa tarefa sem ninguém do lado
  • Que você mostra o trabalho antes de terminar
  • Que você sabe onde a sua parte encosta na parte dos outros
O avaliador de pessoas quer ver
  • Que você não foge das conversas do time
  • Que você não trata o time como atraso
  • Que você é sincero, sem dar a resposta decorada
Boa resposta

“No projeto final do curso, eu passei as primeiras horas sozinho na minha parte, que é como eu me concentro melhor. Antes de terminar, mostrei a parte ainda feia ao grupo, e descobri que o grupo tinha mudado o formato dos dados. Ajustei numa tarde. Se tivesse esperado ficar bonito, teria refeito tudo.”

Resposta ruim

“Prefiro sozinho, porque em grupo sempre tem alguém que atrapalha.”

A resposta pode até ser sincera. Só que quem ouve imagina essa pessoa sumindo com a tarefa e voltando com uma coisa que não encaixa, e reclamando do time depois.

“O que você faz quando a prioridade muda no meio de uma tarefa?”

Esta pergunta é o dia do concerto. A pergunta parece ser sobre obediência, e é sobre ficar sabendo da mudança e ajustar a sua parte sem drama.

O que eles querem saber
  • Se você pergunta o que mudou e por quê
  • Se você avisa o que vai ficar para trás por causa da mudança
  • Se você consegue largar o que estava fazendo sem raiva
O que derruba
  • Reclamar de quem mudou o plano
  • “Eu termino o que comecei e depois vejo”
  • Não dizer o que acontece com a tarefa antiga
Boa resposta

“Num estágio, a prioridade mudou numa quarta-feira, no meio de uma tarefa. Perguntei o motivo, porque o motivo dizia o que fazer com o que eu já tinha feito. Anotei onde tinha parado, avisei a colega que dependia daquela tarefa e fui para a nova. A tarefa antiga ficou duas semanas parada, e a colega já sabia.”

Resposta ruim

“Eu faço o que mandarem. Se mudou, mudou.”

A resposta parece flexível e esconde o que importa. Quem ouve não fica sabendo se essa pessoa pergunta, se avisa, ou se só obedece calada, como o violinista, que também achava que estava fazendo o que mandaram.

“Me conta de um trabalho em grupo. Qual era a sua parte, e como ela se encaixava no resto?”

A pergunta tem duas metades, e muita gente responde só a primeira, contando a própria parte em detalhes.

Boa direção
  • Contar a sua parte em poucas frases
  • Dizer de quem você recebia trabalho, e para quem entregava
  • Contar um momento em que as partes não encaixaram, e o que o grupo fez
Direção ruim
  • Falar só da sua parte
  • Não saber o que os colegas fizeram
  • Contar que você fez tudo sozinho porque o grupo não ajudava
Boa resposta

“Fizemos em quatro pessoas um sistema de agendamento para uma clínica, e a minha parte era a tela de marcar horário. Eu recebia de uma colega os horários livres. No meio do projeto, a colega mudou o jeito de guardar os horários, e a minha tela parou. Perdemos dois dias, e combinamos de avisar no grupo toda mudança de formato.”

Resposta ruim

“Eu fiz a tela de agendamento, e a minha parte ficou muito boa.”

A resposta só fala do violinista e esquece a orquestra. Quem pergunta “como ela se encaixava” está pedindo justamente o que essa resposta deixou de fora.

prática

Levar para o trabalho

Três situações em que a sua parte precisa encaixar na parte dos outros.
abrir

O plano mudou, e você só ficou sabendo na hora de entregar

Essa situação é o dia do concerto do violinista, e às vezes ninguém avisou mesmo. O erro comum é defender a tarefa antiga, que estava certa, em vez de perguntar o que mudou e quanto falta para encaixar.

Esperam de você
  • Que você pergunte o que mudou, e por quê
  • Que você diga quanto tempo leva para ajustar a sua parte
  • Que você combine como vai ficar sabendo da próxima mudança
Não esperam de você
  • “Mas eu fiz do jeito que estava combinado!”
  • Que você procure o culpado por não ter avisado
  • Que você ajuste calado e atrase sem dizer nada
O que dizer

“Eu não sabia dessa mudança, e a minha parte ainda está do jeito antigo. Me explica como ficou a ordem nova? Consigo ajustar até amanhã à tarde. E daqui para a frente eu vou à conversa das nove da manhã, para não ficar de fora de novo.”

A última frase da fala é a mais importante, porque a última frase é a decisão de parar de ensaiar sozinho.

Você está há dias trabalhando sozinho numa parte

Ninguém pediu para ver, e você prefere mostrar só quando estiver perfeito, como o violinista nos intervalos dos ensaios. O erro comum é sumir até terminar e descobrir no fim que alguma coisa mudou.

Esperam de você
  • Que você mostre o trabalho pela metade
  • Que você pergunte se alguma coisa mudou desde que você começou
  • Que você confira onde a sua parte encosta na parte de outra pessoa
Não esperam de você
  • Que você suma até terminar
  • Que você espere alguém perguntar como está
  • Que você ache que mostrar pela metade é mostrar fraqueza
O que dizer

“Ainda não terminei, mas quero mostrar como está ficando antes de seguir. Comecei na segunda-feira, e de lá para cá alguma coisa mudou? A parte que recebe o que eu faço continua esperando os dados neste formato?”

Mostrar pela metade custa dez minutos. Descobrir no fim que a sua parte não encaixa custa a semana inteira.

Você terminou a sua parte antes do resto do time

O violinista acharia que o trabalho dele acabou ali. O erro comum é dar a parte por encerrada e pegar outra coisa, quando a sua parte só está pronta depois de funcionar junto com as outras.

Esperam de você
  • Que você teste a sua parte junto com a parte de quem vem antes e de quem vem depois
  • Que você pergunte se alguém precisa de ajuda
  • Que você avise que terminou, e o que ficou pendente
Não esperam de você
  • Que você dê o trabalho por encerrado e pegue outra coisa sem avisar
  • Que você fique esperando os outros sem fazer nada
  • Que você aponte quem está atrasado
O que dizer

“A minha parte está pronta desde ontem. Antes de pegar outra coisa, eu quero testar junto com a parte do Diego, que recebe o que eu entrego. Alguém precisa de uma mão até sexta?”

Terminar antes só vale para o time quando o tempo que sobrou vai para a sua parte encaixar nas outras. Testar junto com o Diego é o ensaio com o grupo que o violinista pulou.

A sua parte só fica pronta no dia em que toca junto com as outras.

O que muda daqui em diante

Saber a sua parte de cor
Antes
O suficiente para fazer um bom trabalho
Agora
O começo, que ainda precisa encaixar na parte dos outros
Treinar sozinho
Antes
O jeito mais rápido de ficar bom
Agora
Um jeito de ficar bom e, ao mesmo tempo, ficar de fora do que mudou
A batuta do maestro
Antes
Coisa de quem manda
Agora
O sinal de que a música mudou, que só enxerga quem está virado para ela
Mostrar o trabalho pela metade
Antes
Mostrar uma coisa malfeita
Agora
Conferir cedo se a sua parte ainda encaixa
“Eu fiz o que estava combinado”
Antes
Uma defesa
Agora
Um sinal de que você parou de ouvir o maestro

O bom profissional não toca para brilhar. O bom profissional toca para o time soar bem.