Por que o que trava a carreira quase nunca é técnico
O que essa seção veio resolver, e por que ela vem antes da próxima promoção


A seção anterior terminou dizendo que estar certo é só o começo do trabalho, e que o trabalho acaba quando a ponte fica de pé. Fica faltando uma pergunta: se você sabe fazer o trabalho e está certo, o que ainda pode te travar?
Nenhuma das quatro frases fala de linguagem de programação, de banco de dados ou de arquitetura. As quatro partem da mesma conta, e a conta está errada: a de que ser bom tecnicamente resolve o resto.
Quase ninguém trava na carreira pelo que não sabe fazer. Trava pelo que não consegue ouvir, admitir ou ensinar.
E não é besteira acreditar nessa conta. Tudo que te trouxe até aqui foi técnico: o curso era técnico, a prova era técnica, a entrevista foi técnica. Ninguém nunca te deu nota pelo jeito como você recebe uma correção.
Aí, um dia, o jeito como você recebe uma correção passa a ser a coisa que mais estão olhando em você, e ninguém avisa que a régua mudou.
- O que você sabe fazer
- Quantas vezes você acerta
- A nota da prova técnica
- O que você faz nos cinco minutos depois de errar
- Se quem trabalha com você consegue te avisar de alguma coisa
- Quem consegue fazer o seu trabalho quando você não está
Quem não aguenta ser corrigido termina a carreira sabendo exatamente o que já sabe hoje.
E isso ficou mais importante desde que a inteligência artificial entrou no trabalho, não menos. A inteligência artificial escreve o código, explica o erro e sugere o conserto, e a parte técnica ficou rápida e barata. O que a inteligência artificial não faz é assumir um erro no seu lugar, ouvir o cliente que está desconfortável e não consegue explicar por quê, ou perceber que a conversa na sala parou quando você chegou. Quanto mais o “como” fica automático, mais o que sobra para a pessoa é exatamente o que esta seção trata.
São seis capítulos, e em nenhum deles o problema é falta de conhecimento: o pedreiro que não admitiu o muro torto, o marceneiro que não deixou o cliente opinar, o escultor que ficou com o apelido da primeira estátua, o mestre que fazia a oficina ficar quieta quando chegava, o funcionário que virou o patrão que criticava, e o ferreiro que nunca preparou ninguém para o lugar dele. A ordem vai do que acontece toda semana até o que acontece uma vez na carreira.
Se você já entregou tudo certo e viu a promoção ir para outra pessoa, o que faltou provavelmente estava numa conversa, e não no seu código. Essa conversa também vem antes do código.