Por que o que trava a carreira quase nunca é técnico

O que essa seção veio resolver, e por que ela vem antes da próxima promoção

Uma escada de mão de madeira, velha e bem usada, vista de frente e sozinha no centro da imagem, sem parede e sem chão em volta. Ela tem seis posições de degrau: cinco têm degrau de madeira preso por pregos, os de baixo gastos no meio, e a ponta dos dois montantes está lascada. A quarta posição, contando de cima, está vazia: nos montantes aparecem os furos de encaixe, e no lugar do degrau há só o contorno tracejado dele, em verde, o único elemento colorido da imagem. À esquerda, na altura dos degraus de baixo, o rótulo “o que dá para estudar”. À direita, na altura do vão, o rótulo “o que trava”.Uma escada de mão de madeira, velha e bem usada, vista de frente e sozinha no centro da imagem, sem parede e sem chão em volta. Ela tem seis posições de degrau: cinco têm degrau de madeira preso por pregos, os de baixo gastos no meio, e a ponta dos dois montantes está lascada. A quarta posição, contando de cima, está vazia: nos montantes aparecem os furos de encaixe, e no lugar do degrau há só o contorno tracejado dele, em verde, o único elemento colorido da imagem. À esquerda, na altura dos degraus de baixo, o rótulo “o que dá para estudar”. À direita, na altura do vão, o rótulo “o que trava”.
O degrau que falta não está em curso nenhum.

A seção anterior terminou dizendo que estar certo é só o começo do trabalho, e que o trabalho acaba quando a ponte fica de pé. Fica faltando uma pergunta: se você sabe fazer o trabalho e está certo, o que ainda pode te travar?

Eu entrego tudo certo e mesmo assim não sou promovido.
Quando apontam alguma coisa no meu trabalho, eu fico mal o dia inteiro.
Eu falo o que penso, e depois o pessoal fica estranho comigo.
Se eu ensinar tudo que eu sei, eles não vão mais precisar de mim.

Nenhuma das quatro frases fala de linguagem de programação, de banco de dados ou de arquitetura. As quatro partem da mesma conta, e a conta está errada: a de que ser bom tecnicamente resolve o resto.

Quase ninguém trava na carreira pelo que não sabe fazer. Trava pelo que não consegue ouvir, admitir ou ensinar.

E não é besteira acreditar nessa conta. Tudo que te trouxe até aqui foi técnico: o curso era técnico, a prova era técnica, a entrevista foi técnica. Ninguém nunca te deu nota pelo jeito como você recebe uma correção.

Aí, um dia, o jeito como você recebe uma correção passa a ser a coisa que mais estão olhando em você, e ninguém avisa que a régua mudou.

A régua de até aqui
  • O que você sabe fazer
  • Quantas vezes você acerta
  • A nota da prova técnica
A régua de daqui em diante
  • O que você faz nos cinco minutos depois de errar
  • Se quem trabalha com você consegue te avisar de alguma coisa
  • Quem consegue fazer o seu trabalho quando você não está

Quem não aguenta ser corrigido termina a carreira sabendo exatamente o que já sabe hoje.

E isso ficou mais importante desde que a inteligência artificial entrou no trabalho, não menos. A inteligência artificial escreve o código, explica o erro e sugere o conserto, e a parte técnica ficou rápida e barata. O que a inteligência artificial não faz é assumir um erro no seu lugar, ouvir o cliente que está desconfortável e não consegue explicar por quê, ou perceber que a conversa na sala parou quando você chegou. Quanto mais o “como” fica automático, mais o que sobra para a pessoa é exatamente o que esta seção trata.

São seis capítulos, e em nenhum deles o problema é falta de conhecimento: o pedreiro que não admitiu o muro torto, o marceneiro que não deixou o cliente opinar, o escultor que ficou com o apelido da primeira estátua, o mestre que fazia a oficina ficar quieta quando chegava, o funcionário que virou o patrão que criticava, e o ferreiro que nunca preparou ninguém para o lugar dele. A ordem vai do que acontece toda semana até o que acontece uma vez na carreira.

Se você já entregou tudo certo e viu a promoção ir para outra pessoa, o que faltou provavelmente estava numa conversa, e não no seu código. Essa conversa também vem antes do código.