O pedreiro e o muro torto

O que acontece quando a culpa sobra para quem não errou

O quintal dos fundos de uma casa em obra, no meio de um dia de serviço, sem ninguém na cena. No centro, um muro de tijolos recém-levantado, com o topo ainda irregular e a argamassa escorrendo das juntas. Rente à lateral direita do muro, pendurado de uma tábua presa no alto de uma estaca, desce um fio de prumo com um peso em forma de cone na ponta, desenhado em verde, o único elemento colorido da imagem. Na base, o muro encosta na linha; conforme sobe, o muro se afasta dela, e no topo há um vão entre a linha reta e a face do muro. À esquerda, uma pilha de tijolos soltos e um balde de argamassa com a colher de pedreiro dentro. À direita, atrás da estaca, um carrinho de mão diante de um monte de areia, com uma enxada apoiada nele. Ao fundo, o muro de divisa rebocado e reto, com uma torneira. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.O quintal dos fundos de uma casa em obra, no meio de um dia de serviço, sem ninguém na cena. No centro, um muro de tijolos recém-levantado, com o topo ainda irregular e a argamassa escorrendo das juntas. Rente à lateral direita do muro, pendurado de uma tábua presa no alto de uma estaca, desce um fio de prumo com um peso em forma de cone na ponta, desenhado em verde, o único elemento colorido da imagem. Na base, o muro encosta na linha; conforme sobe, o muro se afasta dela, e no topo há um vão entre a linha reta e a face do muro. À esquerda, uma pilha de tijolos soltos e um balde de argamassa com a colher de pedreiro dentro. À direita, atrás da estaca, um carrinho de mão diante de um monte de areia, com uma enxada apoiada nele. Ao fundo, o muro de divisa rebocado e reto, com uma torneira. Não há nenhuma palavra escrita na imagem.
O prumo não acusa ninguém. Ele só mostra onde o muro entortou.

A abertura desta seção disse que quem não aguenta ser corrigido termina a carreira sabendo exatamente o que já sabe hoje. Este capítulo é sobre os cinco minutos em que se decide se você aguenta ser corrigido: os cinco minutos entre alguém apontar um erro seu e você responder.

A resposta quase nunca é decidida. Alguém diz “isso aqui ficou errado” e, antes de você conferir se ficou mesmo, a sua boca já está explicando por que não foi você.

Não fui eu, isso já estava assim antes de eu mexer.
Eu só fiz o que me pediram.
Se eu assumir agora, vão achar que eu não sei fazer.
O fulano também erra e ninguém fala nada.

A defesa é automática, e é por isso que ela custa tanto: ela sai da sua boca antes de você ter decidido se valia a pena.

O muro do quintal

Repare no quintal da imagem que abre este capítulo. No meio está o muro recém-levantado, com o topo ainda irregular, e à direita o fio de prumo desce reto de uma tábua presa numa estaca. Embaixo, o muro encosta na linha. Lá em cima, o muro já se afastou dela.

Prumo é só isso, um peso na ponta de uma linha. O prumo cai reto sempre, porque a gravidade não tem opinião. A história por trás desse muro é esta.

A obra era de uma casa pequena, e Sérgio era o pedreiro mais experiente do time. Conhecia o serviço de olhos fechados e tinha orgulho disso. Costumava dizer aos ajudantes: “aqui nada sai errado; se sair, é porque alguém fez besteira”.

O mestre de obras passava de manhã para dar o serviço e voltava à tarde para conferir. Abaixo do Sérgio havia os ajudantes e um servente novo, que deixava o piso nivelado antes de cada parede subir.

Um dia o mestre pediu o muro do quintal. Simples, reto, padrão. Sérgio começou cedo, alinhou o prumo, conferiu o nível e foi levantando fileira por fileira.

À tarde o mestre voltou. Olhou o muro, franziu a testa e perguntou: “Sérgio, por que o muro está torto para dentro?”.

“Não é o muro, é o piso”

Sérgio deu um passo para trás e olhou. O muro estava mesmo inclinado, pouco, mas estava. Sérgio tentou disfarçar o incômodo, e o que saiu da boca dele foi: “não é o muro, é o piso que está errado. O servente é que não nivelou direito”.

O servente era um rapaz novo. Tentou explicar que só tinha feito o que pediram, e que o piso estava no prumo. Sérgio cortou: “ah, então quer dizer que eu estou louco? Faz o seguinte: arruma você o muro, então”. O clima azedou, e o mestre respirou fundo e saiu sem discutir.

Pare aqui um segundo e responda como se a obra fosse sua. Você ainda não sabe quem errou, o muro ou o piso. O que você já sabe sobre o Sérgio depois dessa conversa?

O mestre de obras já sabia o mais importante. Se um dia o erro fosse mesmo do Sérgio, a última pessoa a contar seria o Sérgio.

A conta chegou no dia seguinte

No dia seguinte, o mestre chamou o Sérgio e mostrou o projeto. O muro fora de prumo tinha desalinhado com a calçada, e para consertar todo o piso precisava ser refeito: material de novo, obra atrasada, trabalho refeito.

Sérgio ainda tentou: “mas a culpa é de quem marcou errado, eu só segui o traço”.

O mestre respondeu calmo: “você é o pedreiro mais velho da obra, Sérgio. Quando viu que estava torto, podia ter me chamado. Errar é humano. Negar o erro é o que atrasa todo mundo”.

Sérgio não respondeu. Por dentro, o orgulho começou a doer mais que o cansaço.

Negar o erro é consertar o muro colocando mais tijolo torto por cima.

Ninguém mais quis ficar na equipe dele

Sérgio achava que assumir o erro ia fazer ele parecer fraco. Ao se defender, Sérgio passou a imagem oposta, e ela é bem pior: quem se defende de tudo parece alguém em quem não dá para confiar.

E veio junto um segundo efeito. Quem não assume o próprio erro precisa de um culpado, e passa a procurar um em toda parte. Sérgio começou a falar do servente, do engenheiro, do mestre, sempre de alguém que não estava na conversa. Depois daquilo, ninguém mais quis ficar na equipe do Sérgio.

O muro foi consertado numa tarde, e a fama do Sérgio ficou torta até o fim da obra.

O mesmo muro, dentro de um time

Troque o muro por um sistema e a cena se repete inteira, só com outros nomes.

Alguém avisa no grupo: “o sistema está quebrando quando a pessoa tenta entrar na conta”. E, antes de qualquer um abrir para olhar, já vem a resposta: “mas a tela mandou o dado errado”, “a parte antiga é que não confere nada”, “o ambiente de teste estava bagunçado, a culpa não é minha”.

Pode até ser tudo verdade. Só que, no tempo em que a frase está sendo dita, ninguém está olhando o problema. Quem se defende primeiro e investiga depois costuma investigar tarde.

Num time inteiro, a defesa vira corrente. Quem programou culpa quem testou, quem testou culpa quem escreveu o pedido, e quem escreveu o pedido culpa o cliente. O projeto desanda sem nenhuma falha técnica grande, porque ninguém assume o próprio pedaço.

Apontar antes de perguntar

Tem uma segunda coisa que anda junto com a defesa automática, e é o mesmo medo com outra roupa. Quem não assume o próprio erro fica muito bom em encontrar o dos outros.

Você abre um pedaço do sistema que outra pessoa fez e acha ruim. A vontade de perguntar “quem foi que fez isso?” é imediata. Só que quase sempre existe um motivo que você não conhece.

O que você está vendo
  • Uma solução improvisada
  • Um erro que chegou até o cliente
  • Uma parte lenta e mal resolvida
O que pode ter acontecido
  • A pessoa tinha dois dias, e o prazo não foi ela que escolheu
  • O pedido mudou no meio e ninguém avisou quem testava
  • Aquela parte chegou no limite do que aguenta, e o time todo já sabia

A diferença entre criticar e perguntar cabe em três frases: “me explica o contexto dessa parte?”, “o que te levou a fazer assim?”, “será que, juntos, a gente acha um jeito melhor?”. Nenhuma das três te enfraquece, e as três te dão a informação que faltava antes de você gastar a sua reputação numa frase.

Quando você aponta antes de entender, você fala mais sobre você do que sobre o erro do outro.

O culpado que não revida

Hoje existe um culpado a mais, e ele é o mais confortável de todos: “foi a inteligência artificial que escreveu”. O servente do Sérgio pelo menos podia responder. A ferramenta não responde, não se ofende e não conta a versão dela, e por isso culpar a ferramenta parece sair de graça.

Só que sai caro por outro caminho. A ferramenta escreve; quem aceitou o que ela escreveu foi você, e o time inteiro sabe disso. A ferramenta não assina o trabalho. Você assina, e assinar é exatamente o que este capítulo está pedindo.

Como olhar o prumo antes de responder

Antes de responder a quem apontou um erro seu

Três perguntas que separam conferir de se defender

São três, cabem no minuto de silêncio depois de alguém apontar o erro, e evitam o piso refeito por causa de uma frase dita rápido demais.

1. O erro existe?

Olhe antes de responder. O mestre não deu uma opinião sobre o muro: o prumo estava pendurado ali, e bastava o Sérgio dar um passo para trás e conferir. Conferir leva menos tempo do que a defesa.

2. Qual é a minha parte nele?

Quase todo erro tem mais de um dono. O piso podia estar mesmo um pouco fora, e ainda assim quem levantou o muro foi o Sérgio. Comece pela sua parte, mesmo que ela seja a menor.

3. O que eu faço agora?

Diga o conserto na mesma frase em que assume. “É, saiu torto. Eu errei o prumo. Vou corrigir.” Essa frase tem nove palavras. Custavam um puxão de orelha, e guardavam o respeito do time e a confiança do mestre.

Quem assume o erro resolve. Quem se defende, repete.

na vida real

Levar para a entrevista

Três perguntas que medem como você fala de erro, o seu e o dos outros.
abrir

Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: contar a história de um jeito em que a culpa fica longe de você. Só que nenhuma delas está medindo quem errou. As três estão medindo o que você faz quando o prumo mostra o muro torto.

“Como você reage quando alguém aponta um erro no seu trabalho?”

A pergunta parece ser sobre temperamento, e é sobre o que você faz nos cinco minutos seguintes.

O avaliador técnico quer ver
  • Que você confere antes de responder
  • Que separa o erro do julgamento sobre você
  • Que conta o que mudou na sua forma de trabalhar depois
O avaliador de pessoas quer ver
  • Que você não leva para o lado pessoal
  • Que não precisa de plateia para admitir
  • Que continua trabalhando bem com quem apontou
Boa resposta

“No estágio, o meu chefe apontou que um relatório meu contava duas vezes as vendas de um dia. Eu já ia dizer que a planilha tinha vindo assim, e resolvi conferir antes. O erro era meu. Avisei, corrigi naquela tarde, e passei a bater o total com o número do caixa.”

Resposta ruim

“Eu aceito bem, sou tranquilo com isso.”

Não diz nada, e quem ouve já escutou essa frase de todo mundo. Quem realmente aguenta ser corrigido tem uma história para contar; quem não aguenta tem um adjetivo.

“Por que você saiu da empresa anterior?”

A pergunta parece de currículo, e é a armadilha deste capítulo servida de bandeja: uma porta aberta para falar mal de quem não está na sala.

O que eles estão medindo
  • Como você vai falar deles no ano que vem
  • Se você consegue explicar um problema sem culpar uma pessoa
  • Se você enxerga a sua parte no que deu errado
O que derruba na hora
  • “A gestão era péssima”
  • “Ninguém lá sabia trabalhar”
  • Contar a briga inteira, com nomes
Boa resposta

“A empresa estava cortando custo, e o time ficou pequeno demais para o sistema que a gente mantinha. Eu demorei a dizer que não estava dando conta, e esse erro foi meu. Quando ficou claro que não ia mudar, preferi sair antes de começar a entregar mal.”

Resposta ruim

“A gestão era muito ruim, e ninguém ali segurava a barra.”

Pode ser verdade inteira, e ainda assim não serve. Quem ouve não tem como conferir nada disso, e a única informação nova que a frase entrega é como você vai falar desta empresa daqui a um ano.

“Você já discordou do jeito que alguém fez alguma coisa? O que você fez?”

É a pergunta sobre a segunda metade do capítulo. Quem responde rápido demais costuma contar, sem perceber, que julgou antes de perguntar.

Boa direção
  • Perguntou o contexto antes de opinar
  • Descobriu um motivo que não conhecia
  • Mudou de ideia, ou propôs junto com a pessoa
Direção ruim
  • Refez sozinho e avisou depois
  • Comentou com terceiros antes de falar com quem fez
  • Provou que estava certo e parou por aí
Boa resposta

“Peguei uma parte do cadastro feita de um jeito que eu não teria feito. Antes de mexer, chamei a pessoa e perguntei por quê. A pessoa tinha feito com dois dias de prazo, que não foi ela que escolheu. A gente combinou de arrumar aos poucos, e eu fiz o primeiro pedaço.”

Resposta ruim

“Já. Refiz do jeito certo e depois mostrei para a pessoa.”

Soa como iniciativa e conta outra coisa. Você decidiu sozinho sobre o trabalho de quem estava sentado ao lado, e quem ouve imagina o próprio trabalho sendo refeito sem aviso.

na vida real

Levar para o trabalho

Três situações que acontecem toda semana.
abrir

Você percebeu um erro seu antes de qualquer outra pessoa

É a situação mais fácil do capítulo, e a que mais gente perde. O erro comum é consertar calado e torcer para ninguém notar, o que funciona nove vezes e custa caro na décima.

Esperam de você
  • Que conte você mesmo, antes de alguém descobrir
  • Que diga o tamanho: quem foi afetado e desde quando
  • Que venha com o conserto junto, mesmo que seja só o começo dele
Não esperam de você
  • Consertar em silêncio e ver no que dá
  • Contar só depois que alguém perguntar
  • Um pedido de desculpas longo no lugar do conserto
O que dizer

“Pessoal, achei um erro meu: desde terça, quem cadastra sem telefone não recebe o e-mail de confirmação. O erro pegou umas trinta pessoas. Já sei onde é, estou corrigindo agora, e depois eu mando a lista de quem ficou sem, para a gente avisar.”

Quem conta primeiro escolhe como a história vai ser contada. Quem é descoberto perde essa escolha, e ainda paga o preço do silêncio.

Apontaram um erro seu na frente do time

Esta é a situação dos cinco minutos do começo deste capítulo, numa reunião ou num grupo de mensagem, com gente ouvindo. O erro comum é responder antes de olhar, porque o corpo esquenta antes de o raciocínio chegar.

Esperam de você
  • Que confira antes de responder, nem que leve um minuto de silêncio
  • Que responda a coisa, e não o tom de quem falou
  • Que continue a conversa normalmente depois
Não esperam de você
  • Explicar por que não foi você antes de olhar
  • Devolver com um erro que a outra pessoa cometeu
  • Levar para o particular e ficar remoendo a semana inteira
O que dizer

“Boa, deixa eu olhar aqui.” E, depois de olhar: “é isso mesmo, o frete está dobrando quando o pedido tem dois endereços. Fui eu que deixei passar na quinta. Corrijo ainda hoje e aviso aqui quando estiver no ar”.

A primeira frase compra os segundos em que a defesa automática ia falar. É o passo para trás do Sérgio, só que para olhar o prumo, e quase ninguém cobra de você o minuto que você levou para conferir.

Você pegou um pedaço feito por outra pessoa e achou ruim

Acontece toda semana, e é aqui que a fama de difícil começa a se formar. O erro comum é dizer em voz alta o que você achou antes de perguntar por que ficou assim.

Esperam de você
  • Que pergunte o contexto para quem fez, se a pessoa ainda estiver lá
  • Que separe “ruim” de “diferente do meu jeito”
  • Que fale do trabalho sem falar da pessoa
Não esperam de você
  • Perguntar “quem foi que fez isso?” no grupo
  • Refazer tudo sem avisar ninguém
  • Contar para outras pessoas antes de falar com quem fez
O que dizer

“Peguei aquela parte do cadastro e queria entender uma coisa antes de mexer: por que ela foi feita separada do resto? Se for um motivo que continua valendo, eu sigo por ali. Se não for mais, eu junto as duas e te mostro antes.”

Essa pergunta custa dois minutos e te dá duas coisas: a informação que faltava, e alguém disposto a te ajudar depois.

Perguntar custa dois minutos. Desfazer uma fama de difícil custa meses.

O que muda daqui em diante

Assumir um erro
À primeira vista
Mostrar fraqueza
Olhando de perto
A coisa mais barata que existe: custa uma frase e compra confiança
Se defender na hora
À primeira vista
Proteger a sua imagem
Olhando de perto
Adiar o conserto e entregar a sua imagem de graça
O muro torto
À primeira vista
Culpa do piso, do servente ou de quem marcou
Olhando de perto
Um fato que o prumo mostra, e que se conserta numa tarde
Um trabalho ruim de outra pessoa
À primeira vista
Descuido
Olhando de perto
Quase sempre uma decisão tomada com menos tempo e menos informação do que você tem agora
Avisar que errou
À primeira vista
Entregar munição
Olhando de perto
Ser a primeira pessoa a contar, que é a única que escolhe como a história vai ser contada

Agora é a sua vez

Escolha uma destas ações e faça nesta semana. Marque quando tiver feito.

Antes de explicar por que não foi você, olhe o prumo.