# Quem responde pela corrida

**A ferramenta escreve o código, e quem coloca o código no ar responde por ele**

> Capítulo 8.6 de *Antes do Código*, livro aberto e gratuito de Marcelo Castelo Branco.
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> Leia esta página no site: https://marcelocastelo.io/livros/antes-do-codigo/secao-8/capitulo-8-6

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![O GPS escolheu a estrada com pedágio. Quem respondeu pela corrida foi o motorista.](https://marcelocastelo.io/assets/livros/antes-do-codigo/8-6-o-troco-do-pedagio.webp)

*O GPS escolheu a estrada com pedágio. Quem respondeu pela corrida foi o motorista.*

O capítulo do envelope terminou com a senhora descendo em casa e com a tabela inventada da Lia guardada no projeto. Este capítulo mostra o que o Seu Ademir diz quando o passageiro seguinte reclama de um pedágio, e o que a Lia disse quando um código que a ferramenta escreveu chegou errado a uma clínica.

O código que a ferramenta escreveu deu problema, e alguém pergunta o que aconteceu. A primeira resposta que vem à cabeça é que a ferramenta errou. Afinal, você não escreveu aquela linha, e a ferramenta escreveu.

> — Se a ferramenta escreveu errado, o erro é da ferramenta.
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> — Eu só pedi, quem fez foi a ferramenta.
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> — Ninguém consegue conferir tudo o que a ferramenta escreve.
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> — Assumir o erro na frente do time vai me queimar.

> A ferramenta escreve o código, e quem coloca o código no ar responde por ele.

## A estrada com pedágio

Na janela do táxi da imagem que abre este capítulo, o motorista estende o braço e devolve notas e moedas, em verde, na mão de um passageiro de pasta embaixo do braço, de pé na calçada do centro. No painel, o celular continua preso no suporte.

O passageiro entrou no táxi do Seu Ademir depois da senhora do envelope e pediu o caminho mais rápido para o centro. O GPS escolheu a estrada nova, que tem pedágio, e a corrida saiu por setenta e quatro reais.

O mesmo passageiro faz esse caminho toda semana, pela avenida, e costuma pagar uns cinquenta e cinco.

Na chegada, o passageiro olha o taxímetro e pergunta por que o táxi veio pela estrada.

Pare aqui um segundo e responda como se você fosse o Seu Ademir. Você diz ao passageiro que foi o GPS que escolheu a estrada?

## O pedágio por conta do motorista

O Seu Ademir não fala do GPS. O Seu Ademir diz que devia ter perguntado se o passageiro preferia evitar o pedágio, e que o pedágio e a diferença ficam por conta do táxi. O Seu Ademir devolve a diferença, e o passageiro paga o valor de sempre.

O passageiro não contratou o GPS. O passageiro entrou no táxi do Seu Ademir, e quem escolheu seguir o GPS sem perguntar foi o Seu Ademir. **O GPS sugeriu a estrada, e a corrida era do Seu Ademir**. Na semana seguinte, o mesmo passageiro fez sinal para o mesmo táxi.

> O Seu Ademir perdeu dezenove reais naquela corrida e ganhou um passageiro de toda semana.

## Seis pacientes em cima da reunião

No começo de setembro, a Lia pegou a tarefa dos bloqueios da agenda, o recurso que a clínica usa para fechar um horário de um fisioterapeuta para reunião, curso ou folga.

A ferramenta escreveu o código, e a Lia conferiu os casos de sempre: o bloqueio de uma hora, o bloqueio do dia inteiro, o bloqueio de dois fisioterapeutas ao mesmo tempo. Os testes passaram, e o código foi ao ar numa terça-feira.

Na quarta de manhã, uma clínica ligou. A clínica tinha marcado a reunião da equipe na terça à noite, para a quarta às oito, e a agenda continuou mostrando os horários da reunião como livres.

Seis pacientes marcaram consulta em cima da reunião, e a recepção da clínica passou a manhã ligando para os seis. O código só olhava os bloqueios que já existiam no começo da véspera, e a Lia não tinha testado um bloqueio criado na véspera, à noite.

Pare aqui de novo e responda como se você fosse a Lia, na reunião que a Joana marcou para entender o que aconteceu. O que você diz?

## O código que a Lia aceitou

A Lia disse que o código tinha sido escrito pela ferramenta, e que tinha sido a Lia quem aceitou o código sem testar um bloqueio criado na véspera, à noite. A Lia disse que o erro era dela.

Depois, a Lia contou o que já tinha feito: o conserto estava pronto desde as dez, com um teste para o bloqueio da véspera, e a Lia tinha escrito para a clínica uma mensagem pedindo desculpas.

A Lia também propôs uma mudança no próprio jeito de conferir: antes de colocar no ar uma mudança na agenda, a Lia pergunta quem paga se a mudança estiver errada.

Na agenda, quem paga é a recepção de uma clínica com paciente esperando, e o custo pede uma conferência maior. **A conferência do que vai ao ar tem de ter o tamanho do estrago que o erro faria**.

**A ferramenta escreveu o código, e quem colocou o código no ar foi a Lia**. A Joana não perguntou mais nada sobre a ferramenta. A Joana perguntou se a Lia queria apresentar o teste novo ao time na sexta.

> A clínica, o paciente e a Joana confiam na Lia, e nenhum dos três contratou a ferramenta.

## Como responder pela corrida

### Quatro perguntas de quem responde pela corrida

*Antes de colocar no ar o que a ferramenta escreveu*

As quatro perguntas levam cinco minutos e poupam a manhã de uma recepção ligando para seis pacientes.

**1. Quem paga se esta mudança estiver errada?**

Um erro na cor de um botão incomoda. Um erro na agenda, na cobrança ou num dado de saúde atinge uma pessoa de verdade.

**2. A minha conferência tem o tamanho do custo do erro?**

A mudança que mexe com a agenda de uma clínica pede mais casos testados e mais uma pessoa olhando do que a mudança num texto da tela.

**3. Quem precisa saber que esta mudança vai ao ar?**

O suporte e as clínicas avisados antes reclamam menos e ajudam a achar o erro mais cedo.

**4. Se a mudança der errado, o que eu faço primeiro?**

A Lia sabia voltar a versão anterior e consertar com um teste. Saiba o primeiro passo antes de precisar dele.

> A pergunta sobre quem paga pelo erro, feita antes, deixa a conferência do tamanho certo, com ferramenta ou sem.

## Levar para a entrevista

*Três perguntas sobre responder pelo que você coloca no ar.*

Nas três perguntas abaixo existe a mesma tentação: mostrar que você nunca erra, ou que o erro foi da ferramenta. Só que nenhuma das três perguntas está medindo quantas vezes você errou. As três estão medindo se você responde pelo que entrega, como o Seu Ademir respondeu pelo pedágio que o GPS escolheu.

### “Se o código que a ferramenta escreveu der problema, de quem é a culpa?”

A pergunta parece de opinião, e mede se você entende que a ferramenta não responde por nada.

**O que quem entrevista quer ouvir**

- Que responde quem colocou o código no ar
- Um caso em que você assumiu
- O que mudou no seu jeito de conferir

**O que derruba**

- Dizer que a culpa é da ferramenta
- Dizer que a culpa é de quem revisou
- Responder sem nenhum caso concreto

**Boa resposta**

“A culpa é de quem colocou o código no ar. Um erro assim aconteceu comigo. A ferramenta escreveu o código dos bloqueios da agenda, e eu aceitei o código sem testar um bloqueio criado na véspera, à noite. Seis pacientes marcaram em cima de uma reunião, e a recepção passou a manhã ao telefone. Eu assumi o erro na reunião do time.”

**Resposta ruim**

“A culpa é da ferramenta, porque foi a ferramenta que escreveu o código.”

**Quem culpa a ferramenta avisa que vai culpar a ferramenta de novo**, e quem entrevista não sabe a quem recorrer quando o seu código der problema.

### “Como você decide o quanto conferir antes de colocar uma coisa no ar?”

Esta pergunta quer saber se você ajusta a conferência ao estrago que o erro faria.

**Boa direção**

- Perguntar quem paga se a mudança der errado
- Conferir mais onde o erro atinge pessoas
- Pedir mais uma revisão quando o risco é alto

**Direção ruim**

- Conferir tudo do mesmo jeito
- Conferir só quando sobra tempo
- Deixar a decisão para quem revisa

**Boa resposta**

“Eu pergunto quem paga se a mudança estiver errada. Um texto na tela, eu confiro rápido. Numa mudança no valor que a empresa cobrava das clínicas, eu pedi que mais um colega revisasse o código antes de ir ao ar. A entrega atrasou um dia, e as quarenta clínicas receberam a cobrança certa no dia primeiro.”

**Resposta ruim**

“Eu confiro tudo sempre, cem por cento.”

Ninguém confere tudo sempre, e quem entrevista sabe disso. A resposta soa como uma promessa, e não como um jeito de trabalhar.

### “Você já assumiu um erro que podia ter jogado em outra coisa?”

A pergunta procura saber se você assume o erro quando tem uma desculpa pronta na mão.

**O avaliador técnico quer ver**

- O que deu errado, com o fato
- O que você consertou e como
- O que ficou para evitar o próximo

**O avaliador de pessoas quer ver**

- Que você assumiu sem esperar ser cobrado
- Que você pensou em quem sofreu o erro
- Que você conta o caso sem drama

**Boa resposta**

“Já assumi. Na recepção de uma clínica, eu marquei dois pacientes no mesmo horário, com o sistema lento. Eu podia ter culpado o sistema. Eu disse ao fisioterapeuta que o erro era meu e liguei para o segundo paciente antes de ele sair de casa. O paciente aceitou um horário à tarde, e perdeu a manhã que tinha separado.”

**Resposta ruim**

“Não, porque os meus erros sempre tiveram outro motivo.”

**A resposta perde a chance de mostrar a parte que mais importa num erro**, que é o que a pessoa faz depois dele.

## Levar para o trabalho

*Três situações em que a ferramenta escreve e você responde.*

### A ferramenta sugeriu mudar uma parte do sistema que você não conhece

Essa situação é o GPS escolhendo a estrada que você nunca pegou. O erro comum é aceitar porque a ferramenta parece saber o que está fazendo.

**O que ajuda**

- Perguntar ao time quem conhece essa parte
- Pedir que essa pessoa revise a mudança
- Separar a mudança desconhecida da sua tarefa

**O que atrapalha**

- Aceitar porque a ferramenta parece segura
- Mexer na parte desconhecida sem contar a ninguém
- Desfazer a sugestão sem entender por que ela apareceu

**O que dizer**

“Vagner, para a tarefa dos bloqueios, a ferramenta sugeriu mudar também o arquivo que manda o lembrete aos pacientes. Eu não conheço esse arquivo. Você consegue olhar essa parte comigo antes de eu colocar no ar?”

A Lia continua respondendo pela mudança, e passa a responder com alguém que conhece a estrada.

### Uma mudança sua foi ao ar ontem, e amanhã você está de folga

Essa situação acontece com quem coloca código no ar perto do fim da semana. O erro comum é sair sem contar a ninguém o que mudou, e deixar o time descobrir a mudança pela ligação de uma clínica.

**O que ajuda**

- Contar ao time o que foi ao ar e o que pode dar errado
- Deixar escrito como voltar à versão anterior
- Combinar quem responde pela mudança enquanto você está fora

**O que atrapalha**

- Sair sem avisar o que mudou
- Pedir que ninguém mexa em nada até você voltar
- Deixar o conserto só na sua cabeça

**O que dizer**

“Vagner, a mudança no lembrete das consultas foi ao ar ontem, e eu estou de folga amanhã. Se uma clínica ligar dizendo que o lembrete não chegou, a versão anterior volta em cinco minutos, e o passo a passo está na nota da tarefa. Você pode responder pela mudança amanhã?”

**A fala entrega ao Vagner o primeiro passo antes de qualquer problema**, e a mudança não fica sem dono no dia de folga da Lia.

### Na reunião, alguém diz que o erro foi da ferramenta

Essa situação parece um alívio para todo mundo, porque ninguém do time precisa assumir o erro. O erro comum é concordar, e o time sai da reunião sem mudar nada no jeito de conferir.

**O que ajuda**

- Trazer a conversa para o que o time conferiu
- Perguntar qual teste teria pegado o erro
- Propor uma mudança no jeito de conferir

**O que atrapalha**

- Concordar que a ferramenta é a culpada
- Procurar a pessoa culpada no lugar da ferramenta
- Proibir a ferramenta por causa de um erro

**O que dizer**

“A ferramenta escreveu o código, e a gente aceitou o código. Qual teste teria pegado esse erro antes de ir ao ar? Se o teste que faltou for o do bloqueio da véspera, eu escrevo o teste hoje e coloco na lista de conferência da agenda.”

A fala tira a conversa da culpa e leva a conversa para o teste que faltou, e quem fala já oferece o primeiro passo.

> A pergunta pelo teste que faltou muda o time, e a culpa da ferramenta não muda nada.

## O que muda daqui em diante

**O código que a ferramenta escreveu**

- Antes: Responsabilidade da ferramenta
- Agora: A corrida de quem colocou o código no ar

**Assumir o erro**

- Antes: Um jeito de se queimar
- Agora: O começo do conserto, e da confiança

**Conferir**

- Antes: Um esforço igual para tudo
- Agora: Uma conferência do tamanho do estrago

**A pergunta “quem paga?”**

- Antes: Assunto do chefe
- Agora: A primeira pergunta antes de colocar no ar

- Perguntar quem paga se a mudança estiver errada
- Conferir mais onde o erro atinge pessoas
- Pedir ajuda quando a ferramenta mexer no que você não conhece
- Assumir o erro dizendo o que você aceitou sem conferir
- Saber o primeiro passo se a mudança der errado

> O Seu Ademir devolveu dezenove reais, e na sexta-feira a Lia apresentou ao time o teste do bloqueio da véspera.

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*Capítulo 8.6 de **Antes do Código** — O guia para quem quer entender a tecnologia — e não só usá-la.*

*O livro inteiro, de graça: https://marcelocastelo.io/livros/antes-do-codigo*
